Memórias emocionadas

Minha mãe: que mocinha é esta?

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Minha mãe: que mocinha é esta?

Em 2010, minha mãe morreu. Logo depois, meu pai. Ao “fechar a casa” em que moravam, coloquei em uma caixa e em uma mala o que achei dentro de um armário, papeis e mais papeis. Poderia ter jogado fora, tamanho o caos.  Mas não joguei. Ao chegar em casa, coloquei a caixa no alto do armário e pedi a meu irmão que ficasse com a mala, pois não tinha onde guardá-la. 

Onze anos depois, já em plena pandemia, desço a caixa e resgato a mala. Ao preparar um curso sobre Clarice Lispector, achei que ela e minha mãe poderiam ter sido colegas na Faculdade de Direito. Quem sabe acharia uma foto? Não, não achei. Mas achei uma mulher totalmente diferente daquela com quem convivi cinquenta anos, “a mãe do ano”, homenageada por duas de suas proezas: “trabalhar fora” e ser mãe de sete filhos. 

Pra mim, minha mãe sempre foi uma senhora, uma senhora de tailleur azul-marinho e cabelo armado com laquê. Era uma advogada de sucesso, uma oradora disputada (não à toa foi a primeira mulher a fazer uma sustentação oral no STF).  Na escola, minhas colegas diziam: “minha mãe conhece sua avó”. Não, não era minha avó, mas eu preferia deixar assim a revelar minha inveja de suas mães jovens e moderninhas… Na época, quarenta anos fazia uma enorme diferença. 

Minha mãe podia ser de fato minha avó. 

Diz a psicanálise que quando você tem nome igual ao dos pais, você tem de “matar” o pai ou a mãe para poder nascer. Depois de ler a correspondência de minha mãe com meu pai e a dela com seus irmãos, penso diferente: eu tive não somente de “matar” minha mãe, mas tive de fazê-la “renascer”. Não por acaso, outro dia assinei meu nome inteiro, exatamente aquele que, uma vez por ano, vejo inscrito em um túmulo no Cemitério São José Batista, no Rio de Janeiro: Nilza Perez de Rezende. 

Na verdade, minha mãe não era só Nilza, era Nair Nilza. Foi batizada como Nair, mas depois seu pai acrescentou o Nilza, pois odiava o presidente Hermes da Fonseca, cuja mulher era a ousada caricaturista Nair de Teffé. Assim, o Nair sumiu, e o Nilza ficou. 

Numa época em que as mulheres assinavam “do lar”, minha mãe era um ponto fora da curva. Era uma profissional bem-sucedida, a única palestrante-mulher em uma centena de eventos (conforme vejo nos folhetos), convidada a integrar o Dicionário Bio-Bibliográfico das Mulheres Intelectuais e Ilustres do Brasil, parte integrante do grande Dicionário das Mulheres Intelectuais da América. Ela já vencera a metrópole, já frequentava o Municipal, já tinha feito política (e mal…), já tinha amado um poeta, quando conheceu meu pai, um jovem mineiro, tímido, pobre e belo, colega de meu tio na Universidade de Direito. 

Em 25 de fevereiro de 1946, quando meu pai se forma, minha mãe o convida, em longa carta, a trabalhar no escritório: “como nosso auxiliar (…) a fim de que eu e o Professor não nos sobrecarreguemos em demasia, além de nossas forças.” 

Naturalmente, ele aceita. 

Quatro meses depois, em 30 de junho, o namoro começa. Ela, com 27 anos; ele, com 22.

Acompanho esse encontro através das cartas, ora intactas, ora se desmanchando na minha mão.  Leio e releio, sem parar. Abro e fecho a mala; não consigo ficar nela, não consigo sair dela. É muito emocionante e também muito estranho você perceber que, um dia, seus pais foram jovens. Um dia, eles se amaram, um dia, foram bem-humorados, um dia, fizeram planos e desafiaram o destino, um dia, foram sacanas. Eu não os conheci assim! A minha primeira imagem de minha mãe é também a última: a mulher formal, de cabelo de laquê. Eu nunca vi minha mãe dar um beijo no meu pai, nunca a ouvi falar de amor.

Mas um dia… 

Um dia… 

A gente conhece muito pouco nossos pais. 

Quando eu poderia imaginar que aquela senhora de tailleur azul-marinho tivesse sido um dia uma namoradinha fofa, uma “mocinha” (como ela se diz) romântica, uma mulher apaixonada?

Quando eu poderia imaginar que minha mãe, aquela advogada careta, tinha senso de humor?

Quando eu poderia imaginar que a mulher, tão reservada e cerimoniosa, escrevesse bilhetinhos e cartinhas doces e desse tantos presentinhos ao amado? 

Em plena pandemia, encontrei esse tesouro. E hoje, Dia dos Namorados, partilho com vocês os presentinhos que ela deu… a ele… e a mim/nós também. 


Cada carta tem a seguir sua respectiva transcrição:

17.12.46

Meu querido amigo 

Quero que esta espátula seja o símbolo da minha presença espiritual e afetiva nas silenciosas horas da noite em que você abrindo as páginas de um livro, se dispuser a procurar nelas a Verdade ou a Beleza, enchendo sua inteligência de claridade e embebendo seu coração de encantamento e de ternura.

Nessas horas quero que a seu lado você me sinta confidente e amiga, compreensiva e terna, transbordante de afeto, num silêncio cheio de entendimento que liga duas creaturas cujos corações falam a mesma linguagem, cujos espíritos comungam na mesma Fé, cujas inteligências têm o mesmo anseio.

Sua,

Nilza



Meu querido

Eu ia andando pela rua, muito engraçadinha, com o olho de piranha muito esperto, pensando no meu noivo, quando olhei para uma vitrine e vi esta gravatinha muito bonitinha para o terno cinza. Entrei e pedi: moço, o Sr. quer me mostrar aquela gravatinha? Acha que fica bem para um terno cinza? O moço respondeu: fica sim, senhora. E, olhando para minha mão, onde a aliança brilhava (não tanto quanto os olhinhos), disse: seu noivo vai gostar! Mandei logo embrulhar a gravatinha e aqui estou oferecendo-a ao meu bem amado. Bem diz ele que esta mocinha está apaixonada!


Natal de 1949

Meu querido noivo

Este, meu noivo, é o primeiro Natal que passamos juntos e desejo que esta noite seja para nós uma noite excepcional, cheia de harmonia, plena de amor, fecunda de alegria. Muitas outras noites de Natal passaremos juntos, mas como noivos esta será a única e por isso mesmo reveste de um caráter diferente, profundo, comovedor e do fundo do coração só sinto virem aos meus lábios três palavras: eu te amo. 

Aqui está o teu presentinho: um par de chinelos, alguma coisa de muito íntimo e bem da vida quotidiana que juntos vamos viver. Já te vejo calçado com eles à noite, quando o silêncio descer sobre nós e estivermos trabalhando, sonhando e amando. Já os vejo debaixo da cama, nas longas noites em que não seremos senão uma só pessoa. Já os vejo perto da poltrona onde lerás os jornais e poesias para mim. Como sinal de nossa intimidade, já agora tão profunda, escolhi para te presentear neste Natal estes chinelinhos. 

Beija-te carinhosamente a tua noiva

Nilza



Meu querido

Com dinheirinho ganho no exercício do magistério comprei-lhe este presentinho para testemunhar o meu amôr, a minha ternura, o meu encantamento pelo marido que em bôa hora Deus me arranjou e que, com as minhas gracinhas, conquistei.

Nilza


Nilza Rezende é escritora e professora. Tem mestrado em Literatura pela PUC-Rio e faz doutorado, também em Literatura, na Universidade de Évora, em Portugal. @nilzarezendeescritora

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