Memórias emocionadas

O integralismo, minha mãe, meu tio e meu pai

Change Size Text
O integralismo, minha mãe, meu tio e meu pai

Sim, minha mãe foi integralista. 

Eu sabia disso. Mas também não sabia exatamente o que isso significava. Estranho, mas é. Nunca o integralismo foi tema de uma conversa lá em casa.  Havia um nome, “integralismo”, que, vez ou outra, pairava sobre nós. Há coisas para lembrar; há coisas para esquecer. Integralismo, eu sabia, era para esquecer. 

Daí eu ter levado um susto quando uma colega da PUC, professora, participante de um grupo de leitura que eu mediava na casa de meus pais, me perguntou se podia conhecer minha mãe. Sim, claro! Subimos a escada, Stella e eu; minha mãe via TV. Stella praticamente se ajoelhou diante dela: “Nilza Perez, Nilza Perez, eu sei quem você é, eu sei quem você é…”. 

Sim, minha mãe foi integralista.

 Através das cartas dela a meu tio Joter, que só agora vejo (guardei a correspondência dela em uma caixa, colocada no alto de um armário, desde sua morte, em 2011), vemos a adesão dela ao movimento. Com 16 anos, morando em Leopoldina, MG, minha mãe escreve ao irmão mais velho, o primogênito dos onze filhos de José e Ester:

Infelizmente ainda não posso começar a minha carta com um Anauê, mas tenho certeza de que dentro em breve você também vestirá uma camisa verde e marchará conosco em busca do nosso ideal. (14.11.1935)

Sim, minha mãe foi integralista. 

Dedicou-se ao movimento, como diz a meu tio, a quem sugeria, muito pretensiosamente, aliás, (era 6 anos mais nova que ele), trabalhar menos e ler mais:

Trabalha, trabalha muito muito porque você, bem sabe, é o braço direito de papai e está ajudando-o a nos educar. Nós mais tarde pagaremos em amizade, reconhecimento e carinho tudo o que faz por nós. Trabalhe muito mas não se esqueça de que o homem vive também de espírito e que deverá de vez em quando, ler um pouco. (14.11.1935)

Já sei que você continua a levar aí a mesma vida de sempre: trabalhar, trabalhar e trabalhar. Você enquanto trabalha aí eu aqui faço o mesmo embora em causa muito diferente e sem rendas: faço discursos, estudo, escrevo. Dizem que isto é trabalho de vagabundo mas embora assim eu me sinto bastante cansada e com muita vontade de ir para casa. (9.10.1936)

 Na agenda, comícios e mais comícios:

Amanhã sigo para Campos onde irei falar. De lá irei a Macaé. As passagens por conta do Governo do Estado do Rio. Isto é bem agradável: vou conhecendo cidades sem nenhuma despesa. (30.04.1937)

Dia 21 irei para Barbacena. De lá falarei em Carandaky (atual Carandaí), Alto Rio Doce, São João D´El Rey, Lafaiate, Palmira. Dia 8 o Chefe falará em Barbacena e depois irá a Ponte-Nova. Eu irei também e você devia ir até lá para conhece-lo e ouvi-lo falar. É formidavel! (23.07.1937)

Detalhe da carta de 23/07/1937

Bem provavelmente foram esses “discursos” a origem da advogada que brilhou nos tribunais (recebeu a medalha da Ordem do Mérito do Trabalho, no grau de Cavaleiro, pela Presidência da República, entre outras) e também nos compromissos sociais. Das festas aos enterros, ouvíamos, entre orgulhosos e envergonhados, “a Nilza vai falar umas palavrinhas”. Pois minha mãe falava, e o povo chorava.  Aliás, em carta de dezembro de 1935, ela informava a meu tio: “Nós iremos ao casamento da filha do Maldonado, o noivo dela é integralista e eu como companheira vou fazer discurso depois do casamento…”. Ou seja, a coisa começou cedo… O que é notável é que minha mãe nasceu num tempo em que as mulheres eram “do lar”, e saiu de Minas aos 15 anos para vir morar sozinha no Rio e estudar Direito. E militar. 

O integralismo deu a ela o primeiro emprego – assinou a coluna Senhora, na revista do movimento, Revista Anauê!, trabalho que comemora junto a meu tio: “Já poderei tirar este peso da minha mesada dos ombros de papai que já deve estar cansado de lutar por nós” (30.04.1937). Rodolfo Fiorucci, em tese de doutorado na UFG (me espanto em ver o nome de minha mãe em tantos trabalhos), fala sobre a “mulher de destaque no Rio de Janeiro dos anos 1930”, salientando “seu papel junto às mulheres da cidade, especialmente entre as integralistas”. Cita vários trechos de minha mãe, como este: 

A mulher brasileira, consciente e capaz, precisa vir para o campo de luta defender energicamente os direitos das operárias que se depauperam nas fábricas ganhando um salário ínfimo e o das camponesas que se extinguem no interior numa vida áspera e dura. Não mais lágrimas inúteis choradas no cinema ou na leitura do romance barato diante de uma operária que morre de fome. Choremos, sim, mas lágrimas fecundas que, caindo sobre a terra mansa de nosso coração, nos façam mais piedosas e mais solidarias com o sofrimento de nossas patrícias desprotegidas (…) (ANAUÊ!, nº 15, p. 41).

 Como assim, “não mais lágrimas inúteis choradas no cinema ou na leitura do romance barato”?  Minha mãe? Mas ela era a mais sentimental das mulheres, sangue espanhol, dizia… 

Sim, minha mãe foi integralista. E não poupava nem o irmão. Exige que ele arranje votos, mesmo que o velho conhecido “voto de cabresto”… 

É preciso que você providencie no sentido de tirar títulos para os seus empregados. Para você também. Ou o Integralismo vence nas eleições ou será fechado e com o seu fechamento você deve compreender como nós integralistas iremos sofrer. Arranje eleitores. Você pode não vestir a camisa-verde mas precisa de arranjar votos. Esperamos que trabalhe. (23.07.1937)

Sim, minha mãe foi integralista. Enquanto minha avó perdia os dentes, ela militava. 

Em 1937, no entanto, com o Golpe do Estado Novo, o Integralismo se afunda. Laconicamente, minha mãe expõe o cenário a meu tio:

Pelo papai você deve ter sido informado da minha precipitada viagem para aqui. Felizmente tudo ficou resolvido sem necessidade da minha ida a Niteroi. Ontem soube pelo vovô que o tio Dermeval foi solto e já seguiu para Cataguazes. O ambiente aqui é calmo. Cessaram as prisões. Os integralistas começam a entrar em julgamento. Se não fossem os horrorosos sofrimentos dos prisioneiros tudo estaria bem. Já houve 2 suicídios e 36 casos de loucura dentro da Prisão. Resultado das pancadarias. (3.06.1938)

Em 25 de junho, retifica:

Você já deve saber que fui obrigada a ir depôr em Niteroy sobre aquela carta escrita ao tio Dermeval. Felizmente nada houve e não fui incomodada mais. (25.06.1938)

Confesso: choro, choro muito. Fascista, não fascista, nacionalista, não nacionalista, choro por uma jovem que foi à rua, foi à luta, que viu seus colegas presos e torturados. Imagino-a sendo levada a depor. Ela não foi passear em Niterói. Penso em todos os jovens presos pelo Regime Militar, os torturados, os assassinados, os desaparecidos, jovens como minha mãe. 

Sim, minha mãe foi integralista. 

Eu não sabia o que isso significava. Mas meu pai, certamente, sabia. Dez anos depois do fim do movimento, o tema está vivo entre os namorados apaixonados. Meu pai compra um livro do “Chefe”, Plínio Salgado. Diz ele numa “triste e chuvosa manhã de domingo”:

Interrompi um pouco a leitura de Otávio de Faria para ler a “Madrugada do espírito” do sr. Plinio, que comprei para me lembrar um pouquinho mais de você, naquilo que lhe é tão caro. Gostei do livro. (16.02.1947).

Detalhe da carta de 16/02/1947

Mas, sabemos, gracinhas de namoro não duram pra sempre… Numa “sombria noite de abril”, minha mãe confessa a meu pai sentir-se “cansada, triste, quase desesperada” e decidida a “abrir-lhe a porta para a liberdade”. Uma de suas queixas é a postura dele diante do passado político dela. 

Passando do terreno religioso para o político, você não perde uma oportunidade para atacar as ideias que, você bem sabe, constituíram a razão de ser da minha mocidade e pelas quais lutei com sacrifício de tantas coisas! Podem ser estas ideias erradas, falsas, mas minha atitude sempre foi sincera, merecendo ser respeitada. Você se opõe, sempre que pode, a tudo isso. Quando fala em fascismo e democracia sinto uma intenção de atingir-me. Não chego a compreender por que razão, qual o motivo determinante dessa atitude, mas a verdade é que sinto entre nós essa barreira.” (trecho) .

Sim, minha mãe foi integralista.

Agora eu sei. 

Só não sei o que é vê-la na tela do meu computador depois de dez anos de sua morte. Resolvo assistir ao documentário O soldado de deus, de Sergio Sanz, para o qual (isso eu sabia), ela fez um depoimento. Não tinha visto o filme. Perguntei às minhas quatro irmãs, nenhuma viu também. 

O que minha mãe dirá?

Já é madrugada. Diante do computador, sozinha na minha casa, no Rio de Janeiro sombrio e silencioso, em plena pandemia, vejo os anos 30 passando na minha tela. Aos doze minutos, escuto a voz da minha mãe, em off. Meu coração aperta. Dói. Leio a legenda: “Nilza Peres, a mulher mais importante do integralismo”.

Lá está ela, Nilza Perez (a essa altura, Nilza Perez de Rezende) ali, viva, em nossa casa de Botafogo, na sala de visita, sentada em uma cadeira de madeira, de perninhas cruzadas, com seu tradicional tailleur azul-marinho. Percorro em lágrimas o ambiente que tanto conhecia e que não existe mais: o sofá de veludo, as cortinas de linho, as janelas, o jardim… Volto a olhar minha mãe. Confiro o ano de lançamento do filme, 2004, sete anos antes da sua morte. Sim, ela já estava velha… Mas… 

Seu olhar brilha. Seu olhar brilha, e o meu despenca. 

Sim, minha mãe foi integralista.


Nilza Rezende é escritora e professora. Tem mestrado em Literatura pela PUC-Rio e faz doutorado, também em Literatura, na Universidade de Évora, em Portugal. @nilzarezendeescritora

marca-parentese

Abra um parêntese no seu fim de semana com jornalismo e boas histórias. Deixe seu email e receba toda semana as newsletters da revista Parêntese.