Ensaio

Moacyr Scliar – Dez anos de ausência

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Moacyr Scliar – Dez anos de ausência

Falecido há exatamente uma década, Moacyr Scliar deixou, na cultura do Rio Grande do Sul, sugestivas marcas de que ele, de uma forma ou outra, continua presente entre nós. Logo após sua morte, o então governador, Tarso Genro, instituiu um prêmio literário de abrangência nacional, conferido em sua primeira edição a Ferreira Gullar, um dos principais expoentes da poesia à época em atuação na literatura brasileira. O prêmio não passou da segunda edição, porque o órgão público encarregado de fomentar a cultura, que era sua matéria e razão de ser, pouco fez ao longo do governo seguinte, maculando a ideia que lhe deu nascimento. 

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Falecido há exatamente uma década, Moacyr Scliar deixou, na cultura do Rio Grande do Sul, sugestivas marcas de que ele, de uma forma ou outra, continua presente entre nós. Logo após sua morte, o então governador, Tarso Genro, instituiu um prêmio literário de abrangência nacional, conferido em sua primeira edição a Ferreira Gullar, um dos principais expoentes da poesia à época em atuação na literatura brasileira. O prêmio não passou da segunda edição, porque o órgão público encarregado de fomentar a cultura, que era sua matéria e razão de ser, pouco fez ao longo do governo seguinte, maculando a ideia que lhe deu nascimento. 

Moacyr, porém, não foi esquecido: em 2018, foi a vez da prefeitura de sua cidade natal homenageá-lo, ao inaugurar o parque que medeia a área entre a Usina do Gasômetro e a Rótula das Cuias, a que deu o nome do escritor. A área rapidamente se popularizou, acolhendo as pessoas que buscam lazer e conforto à beira do Guaíba, reconciliando a população com o rio (ou lago, como quiserem) do qual estava distanciada em virtude do indefensável muro da Mauá.

Scliar ainda não é nome de rua, mas quase batizou a Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul. Por outro lado, como sua ação no âmbito da saúde coletiva foi eficiente e incansável, intitula uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), situada na Zona Norte de Porto Alegre. Destinada à população de baixa renda que circula naquela região, certamente teria agradado ao médico comprometido, desde a juventude, com o ângulo social do exercício de sua profissão.

É quando o artista ou o intelectual se integra ao cotidiano de uma cidade ou de uma região que se percebe o impacto de sua personalidade sobre a comunidade local. No caso de Scliar, o fato deriva das escolhas que fez, testemunhadas por todos nós, que convivemos com ele por algumas décadas. Destaco algumas dessas ações, que provavelmente serão corroboradas por muitas pessoas próximas dele.

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A primeira delas diz respeito ao apoio que permanentemente deu aos jovens que almejavam um lugar no âmbito da criação literária. Escritor renomado e também figura pública no campo da saúde e da educação, Scliar nunca recusou redigir um prefácio, uma aba de livro ou uma recomendação a quem solicitasse essa ajuda. Generoso, lia os originais recebidos, mesmo desconhecendo seu autor ou sua autora e, com palavras amistosas, estimulava o/a iniciante a dar continuidade a seus projetos, invariavelmente valorizando e estimulando o talento de quem o procurava. E fazia-o quase imediatamente, consciente de que a demora provocava ansiedade naquela pessoa que desejava ver abertas as portas da literatura para seus trabalhos artísticos.

Também foi prática sua, desde o começo da carreira como ficcionista, colaborar para a difusão de autores e obras literárias, especialmente no Rio Grande do Sul. Data de 1962 a provavelmente publicação inaugural de Scliar, que organizou, ao lado de Carlos Stein, Rui Carlos Osterman, Josué Guimarães, entre outros, a coletânea Nove do Sul, dando margem a um movimento que renovaria as letras gaúchas. Lá estão principiantes, como ele mesmo ou Tania Jamardo Faillace, e então já consagrados, como Lara de Lemos e Sérgio Jockyman, em busca de um espaço ao sol. Nos anos 1970, quando eram reduzidas as oportunidades de publicação de novos títulos por autores do Rio Grande do Sul, e o mercado editorial brasileiro concentrava-se sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro, Scliar, ao lado de Carlos Jorge Appel, motivou Lygia Averbuck, então na direção do Instituto Estadual do Livro, a fazer dessa entidade uma plataforma de lançamento da então recente geração de produtores literários no âmbito da criação e da crítica.

Não fora essa iniciativa, muitas pessoas, entre as quais esta escriba, talvez não tivessem chance de ver suas primeiras publicações (como o livro coletivo João Simões Lopes Neto: a invenção, o mito e a mentira) impressas nos idos de 1973, no alvorecer de seus vinte e poucos anos. 

Não menos importante foi o papel que Scliar desempenhou junto à coletividade judaica de Porto Alegre, e é também como membro desse grupo que me manifesto. Conferiu-lhe um imaginário próprio, traduzido em boa parte de sua obra ficcional, se pensamos nos contos de Carnaval dos animais, de 1968, ou A balada do falso Messias, de 1976, e em um grande grupo de romances, começando por A guerra no Bom Fim, de 1972, e estendendo-se até o penúltimo deles, Manual da paixão solitária, de 2008. Além disso, consistiu em uma voz ponderada diante dos conflitos com que se deparam os judeus no Brasil e no Exterior – como o antissemitismo, sempre reincidente – e das hostilidades no Oriente Médio. Quem ler A nossa frágil condição humana, coletânea lançada em 2017, contendo crônicas publicadas originalmente no jornal Zero Hora, comprovará como o autor enfrenta, com bravura e audácia, os problemas complexos que envolvem aquelas questões, apoiado em sua cultura e bom senso para assumir uma atitude diante delas.

Os tópicos diante dos quais Scliar se posicionou e que constituem a matéria de suas escolhas literárias e existenciais agudizaram-se perigosamente em nosso presente. Por isso, lembrar o autor e recuperar as ações que pautaram seu comportamento e sua ética fazem-se urgentes, dez anos depois de sua morte.


Regina Zilberman é professora de Literatura no Inst. de Letras da UFRGS e autora de vários livros, entre os quais “Formação da leitura no Brasil”, em parceria com Marisa Lajolo.

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