Ensaio

O Avesso da Pérola

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O Avesso da Pérola

– E tu não tem umas pérolas desse último vestibular para a gente encerrar a matéria?

– Não, não tenho. Acho desonesto publicar pérolas do Vestibular sem publicar nenhum dos textos bons, que sempre aparecem. Vestibular é fenômeno de massa; se tu quer promover um escândalo de verdade, procura pérolas no teu jornal, que lá só escreve gente com estudo e prática.

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– E tu não tem umas pérolas desse último vestibular para a gente encerrar a matéria?

– Não, não tenho. Acho desonesto publicar pérolas do Vestibular sem publicar nenhum dos textos bons, que sempre aparecem. Vestibular é fenômeno de massa; se tu quer promover um escândalo de verdade, procura pérolas no teu jornal, que lá só escreve gente com estudo e prática.

O jovem repórter com o qual eu cometi essa maldade não tinha sido meu aluno nem no Curso de Comunicação nem no curso que eu tinha dado, uns anos antes, no jornal dele. Essa conversa voltou nítida na minha cabeça naquela manhã de sexta-feira, ainda nos prenúncios da primavera. Sozinho no carro: braços, mãos, pernas e pés trabalhando por conta própria, a cabeça ligada nas surpresas do rádio, de onde vem uma voz feminina cantando: 

Eu não posso mais ficar aqui 
a esperar 
que um dia de repente você volte
para mim

Não reconheci a voz, mas, enfim, acabou ficando obrigatório cantar Roberto Carlos. Ele mesmo, que já fez coisa que outra de interessante, faz tempo que se dedica a cantar Roberto Carlos e, de vez em quando, até compõe um novo robertocarlos, que a ouve e se pergunta por que não se lembrava dessa canção. Tudo soa contemporâneo a sento no meu carro, e a solidão me dói, quando era obrigatório detestar Roberto Carlos. 

Vejo caminhões e carros apressados
a passar por mim.  

Passei a dar alguma atenção quando Mario Lago, que era comunista, disse que ali estava a inédita autocrítica do playboy. Depois do Tropicalismo e de Debaixo dos caracóis, deixou de ser obrigatório detestar quem quer que fosse. Ficou também obrigatório entrevistar todo mundo, e a carolice com que Roberto Carlos trata qualquer assunto contamina tudo que ele canta. De quem é essa voz tão bonita e essa dicção tão segura de si? 

Estou sentado à beira de um caminho 
que não tem mais fim.

A melancolia, disse Edgar Allan Poe, é o mais legítimo dos sentimentos poéticos, e Roberto Carlos fez Detalhes, a obra-prima da melancolia ressentida: não há praga mais bem rogada em todo o nosso cancioneiro: pensando ter amor nesse momento, desesperada você tenta até o fim. Isso não pode ter saído de uma cabeça carola. Ou a cabeça que compõe não é a mesma que dá entrevista? 

Meu olhar se perde na poeira
dessa estrada triste.

Tem outra cabeça, a do Erasmo: o deboche sereno com que ele dá entrevista compatibiliza com a sugestão de que o nosso supremo complexo nacional de inferioridade e a nossa apaixonada entrega amorosa são farinha do mesmo saco de virtudes: duvido que ele tenha tanto amor e até os erros do meu português ruim. A gente fala português ruim, e o contrário disso é bom português.

Onde a tristeza e a saudade de você 
ainda existem

Existem?! Ela disse mesmo existem!? Foi a primeira dor de concordância no meu ouvido, e eu, até então, achava que isso era só uma encenação pra humilhar os praticantes do português ruim. Será que ela repete isso?

Esse sol que queima no meu rosto 
um resto de esperança
de ao menos ver de perto o seu olhar
que eu trago na lembrança

Bom português não é só o contrário de português ruim: quando a gente tenta entender e explicar para quem também não está entendendo uma formulação confusa, obscura, pedante ou enroladora, a gente diz: Isso, em bom português, é e esclarece, quase sempre em português ruim, o que a tal formulação está escondendo. 

Preciso acabar logo com isso,
preciso lembrar que eu existo, 
que eu existo, que eu existo.

Ou seja: o bom português é bom pra levar a fama e também costuma ser usado para tentar calar a boca de quem está dizendo o que não deveria ser dito. Nem sempre funciona: conta-se que o deputado gaúcho Flores da Cunha, denunciando a fraude eleitoral que depois levou à Revolução de 30, foi corrigido por um governista – em bom português, nobre deputado, não é te pego que se diz mas sim pego-te. O getulista retrucou: “Se assim fosse, o caro colega não se chamaria Teixeira, mas sim Xeira-te”. 

Vem a chuva, molha o meu rosto
e então eu choro tanto;
minhas lágrimas e os pingos dessa chuva 
se confundem com meu pranto.

Quer dizer, faz tempo que o bom português é bom pra deboche: a Grammatica portugueza pelo methodo confuso, de Mendes Fradique, publicada em 1928, tratando do mesmo assunto, acrescenta que, assim como os nomes próprios – Teixeira e não Xeira-te ou Siqueira e não Queira-se – também nos números os pronomes devem ser colocados no fim, como, por exemplo, sessenta e seis e jamais senta-se e seis

Preciso acabar logo com isso, 
preciso lembrar que eu existo, 
que eu existo, que eu existo. 

Carros, caminhões, poeira, estrada, tudo, tudo
se confunde em minha frente.

Minha sombra me acompanha e vê que eu 
estou morrendo lentamente. 

E qual foi o supremo valor que o Erasmo quis atribuir a “eaté os erros do meu português ruim, que encerra o elenco das virtudes do descornado poeta que roga aquela praga de urubu? Seriam, por exemplo, autenticidade, desapego, sinceridade, espontaneidade?

Só você não vê que eu não posso mais 
ficar aqui sozinho, 
esperando a vida inteira por você 
sentado à beira do caminho

Namoro em bom português? Não: longa vida ao nosso português ruim! 

Eu não posso mais ficar aqui 
a esperar 
que um dia de repente você volte 
para mim
Estou sentado à beira de um caminho 
que não tem mais fim

É agora: ela – quem é ela? – vai repetir?

Meu olhar se perde na poeira
dessa estrada triste 
onde a tristeza e a saudade de você 
ainda existem

Ela disse e repetiu que a tristeza e a saudade de você ainda existem. Essa foi a escolha que ela fez entre a gramática e a poesia: o sujeito composto. Larguei o carro no estacionamento, fui pra casa, abri o Vagalume e me botei a escutar uma por uma as interpretações de Sentado à beira do caminho. Achei mais treze: Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Rosana, Fernanda Porto, Wanderléia, Rio Negro e Solimões, Fernanda Takai, Rosa Passos, Ira, Zeca Baleiro, Cauby Peixoto, Maria Bethania, Julio Iglesias: treze entre quatorze cantores dizem que a tristeza e a saudade de você ainda existe, o que rima com estradatriste.

Qual é a característica que se percebe como comum às pérolas – aquelas que se formam eventualmente no interior das ostras – e os, digamos assim, como todo mundo diz, erros de português? É a raridade com que ocorrem? Tantas ostras sem pérola para cada ostra contemplada quantas frases impecáveis para cada frase claudicante? Ou, ironicamente, pretende-se que seja o contrário, já que se espera que elas pululem nas redações de vestibular e se julga que todo professor de Português traz no bolso a sua própria coleção? Sem ironia, treze a um é um placar que nos coloca diante da legítima pérola; só há uma cantora no Brasil capaz dar publicamente um tão extremado testemunho de sua opção pelo bom português: a pérola do avesso.


 

Paulo Coimbra Guedes é professor do Instituto de Letras da UFRGS, onde leciona redação há muito tempo, atuando nas licenciaturas de Português no curso de Jornalismo. É autor, entre outros, de Da Redação Escolar Ao Texto – Um Manual De Redação (Editora: UFRGS). Foi homenageado no livro O que eu quero dizer é o seguinte (Editora: UFRGS).

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