Ensaio

O CPF do governador

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O CPF do governador

Confesso que demorei a me dar conta do risco que representava a pandemia do Covid-19, ou Coronavírus. Quando ouvi pela primeira vez falarem no assunto, em algum noticiário, lembrei-me da gripe suína, da gripe A (H1N1) e de todas as outras causadas pelo vírus Influenza, que provocam sintomas mais graves do que o estado gripal a que estamos acostumados, principalmente aqui no Sul do Brasil.

Quando soube, de fato, o que representava o novo Coronavírus, os riscos e as consequências da contaminação e da disseminação, saí de um estado de quase indiferença para um estágio de grande temor. Voltei a prestar atenção aos programas jornalísticos e passei a entender por que estava sendo dedicado tanto tempo às informações vindas do outro lado do mundo, especialmente da China.

Não tardou para o velho continente também virar notícia em relação ao vírus. E as imagens de comboios de caminhões do exército italiano, lotados de corpos, foram muito marcantes e aterrorizantes. Por aqui, já se pregava e adotava o isolamento social, apesar da contrariedade do governo federal. Em consonância com o Palácio do Planalto, parte do empresariado porto-alegrense realizava carreatas exigindo a volta à normalidade, com a retomada das atividades.

Optei pela prudência. Nem tanto o grande pavor que me acometeu quando tomei consciência dos riscos, mas muito menos a indiferença e o negacionismo defendidos pelo presidente da República e seus seguidores. Entendi que, quanto menos as pessoas circulassem e se aglomerassem, maiores eram as chances de isolar o vírus. 

Com este pensamento, e vivendo em uma fase na qual posso produzir em casa, fiquei três meses praticamente sem sair de casa. Isso, a partir do mês de março. Em comum acordo com os organizadores dos eventos, suspendi palestras e debates que estavam agendados.

Quando já se aproximava a segunda quinzena de julho, recebi um convite da produção do programa Roda Viva, da TV Cultura, de São Paulo, para participar da bancada de entrevistadores do governador gaúcho, Eduardo Leite. Mesmo não tendo viajado desde o início do isolamento social, considerei que era uma oportunidade ímpar de participação em um programa tradicional e com abrangência nacional. Assim, não hesitei em aceitar o convite.

Em aeroportos, hotel, prédio da emissora, todos os cuidados foram adotados por mim e pelas demais pessoas envolvidas, para que não houvesse riscos. Aliás, no portão de entrada da TV Cultura, a temperatura corporal de funcionários e visitantes é medida. Na entrevista, não poderia ser diferente, o tema Covid-19, isolamento social, sistema de bandeiras e o crescimento de casos e mortes no Rio Grande do Sul predominou.

Três dias após nosso retorno de São Paulo, o governador Eduardo Leite, via Twitter, comunicou que havia sido contaminado com o Coronavírus e que, por conta disso, suspenderia sua agenda. Apesar de todos os cuidados adotados pela TV Cultura, e de o caso do governador ser assintomático, fomos aconselhados a realizar o teste. Por incrível que pareça, naquilo que imaginei que seria o mais simples, fazer o teste e verificar se eu também havia sido contaminado, é que surgiram as maiores complicações. 

Após o anúncio do governador, na noite de sexta-feira, dia 24, procurei de imediato um laboratório no Pavilhão Pereira Filho, da Santa Casa, onde pagaria R$ 300 pelo teste. Cheguei ao local às 18h50min, mas o laboratório, cujo horário de funcionamento é até as 19h, já estava fechado. Fui então ao Pronto Atendimento Cruzeiro do Sul, vinculado à Secretaria Municipal da Saúde.

Fui encaminhado por um recepcionista para um local montado especialmente para testagens neste período de pandemia. Após cerca de uma hora de espera, uma enfermeira me negou o teste por eu não ter o número do CPF da pessoa contaminada com a qual eu tive contato, no caso, o governador. 

Publicado nas redes sociais, este fato repercutiu. No início da madrugada de sábado, recebi mensagem do governador Eduardo Leite anunciando providência. Na manhã seguinte, a superintendente do laboratório no Pavilhão Pereira Filho, da Santa Casa, Cristiani Gomes de Marques, desculpando-se pelo contratempo da noite anterior, gentilmente me concedeu uma testagem à domicílio.

Com o resultado negativo, comunicado ainda no sábado, pude passar um final de semana relativamente tranquilo. O problema, porém, não se resume ao meu teste. Até porque eu mesmo poderei precisar de outros, até o fim da pandemia. Mas, ao meu ver, a questão maior é a dificuldade que deve estar sendo encontrada pela população, de um modo geral, para saber se contraiu ou não o coronavírus.

Por mais que o secretário-adjunto da Saúde do município, Natan Katz, tenha negado em entrevistas, no dia seguinte, que estejam exigindo o CPF da pessoa contaminada com a qual aquela que procurou o teste teve contato, o fato de a enfermeira que me entendeu ter pedido demonstra, no mínimo, uma falta de comunicação, algo perigoso numa situação como esta. Em um quadro como este de pandemia, não há espaços para hesitações ou indefinições. Isso possibilita o avanço do adversário.


Renato Dornelles. Jornalista, escritor, roteirista, produtor e proprietário da Falange Produções. Trabalhou durante 33 anos na imprensa. Ao longo da carreira conquistou mais de 30 prêmios com reportagens. Co-dirigiu e roteirizou o documentário Central. Foi roteirista da série TV Retratos do Cárcere, que estréia em agosto na Box Prime Brazil. É autor do romance A Cor da Esperança, lançado em 2019.

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