Ensaio

Para relaxar, para viver – literatura como (bom) entretenimento

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Para relaxar, para viver – literatura como (bom) entretenimento

Depois de investir em A montanha mágica, de Thomas Mann, segui para O segundo sexo, de Simone de Beauvoir. Mas antes deste li Bom entretenimento, de Byung-Chul Han e, depois de Mann e antes de Han, um outro. É sobre este que quero matutar.

Dos arrolados, foi uma leitura para relaxar, embora com quase novecentas páginas e em inglês. Com tanta indicação de livro que “você precisa ler”, confesso que apraz a impressão de ter a liberdade de escolha ao menos na literatura. Suspeito um pouco das curadorias, dos cânones, das livrarias que indicam e pré-filtram – em nenhum, dos conhecidos meus, estaria o título pelo qual optei.

Mas não sou tão liberto. À época do Paulo Coelho – que, aliás, li –, começou a bater a tal separação entre literatura cult e o que, no meio cult, era desprezado. Lia-se meio escondido, ao menos sem “confessar”. Uma gama de autores caía na rede, mesmo sendo best-sellers – ou justamente por serem. Parece que a esperança na vendagem era acompanhada pela desconfiança de cair em desgraça como popular, a não ser que post-mortem – porque, no Brasil, quase todo o morto é santo. Tá, mas e trololó é para? 

Para dizer que, bem, houve reflexão antes de concluir se cabia uma resenha do tal para a Parêntese. Afinal, a revista é cult – é? Na contramão, não houve sustentação interna antes de redigir um opinativo sobre A montanha mágica para uma das últimas edições, porque, afinal, Mann é celebrado. Desta vez, a decisão chegou em meio à leitura de Bom entretenimento, no qual Han, um filósofo coreano, a partir de dicotomias como sério/entretenimento e sensibilidade/razão, investe contra uma série de pares consagrados para dizer que, afinal, “para além da mídia do mero prazer, as mídias de entretenimento morais cumprem, de maneira sutil, uma função social que não deve ser menosprezada. Elas estabilizam e habituam a ordem moral, dão a elas, por assim dizer, carne e osso, isto é, fazem com que elas se tornem inclinações. Elas surtem uma interiorização da norma moral”.

Parece-me que ele enxerga um potencial gigantesco naquilo que entretém, algo “mais poderoso do que o poder da coação”. Um dos fatores da efetividade seria o entendimento de que “narrativas não argumentam. Elas tentam ‘agradar’ e ‘entusiasmar’”. Por fim, ele alega que um hábito formado a partir de sentimentos e inclinações, acionando algo pré-reflexivo, poderia ser mais contundente do que o esperado de uma ação consciente, depurada mentalmente. E é? Certamente é questionável se não há exagero do entreter, que vem se sobrepondo a todos os aspectos da vida contemporânea, servindo de crivo para a validação da educação formal (Edutenimento), para o trabalho (Trabatenimento) e por aí segue, o que nos coloca diante de problemas novos. Pulemos por hora.

Em sentido semelhante, mas aparentemente não comprometendo o que entende por seriedade, Marcia Tiburi deu uma entrevista dizendo ter escrito Psicanalista no divã em formato de teatro porque acreditava que a arte tinha mais possibilidade de agir sobre as pessoas do que a teoria. Para ela, esta “tem que explicar, mostrar pesquisas, relatar situações, mas quando você vai ao teatro, ele lhe faz sentir”. Ela ainda relatou que via os brasileiros indispostos para a teoria. Será particularidade nossa? Evidentemente a constatação, como um todo, me incomoda, não somente porque eu mesmo lancei alguns livros com resultados de suadas pesquisas, mas porque, lendo Beauvoir agora, penso no tanto que, naquele momento, significou compilar todos os dados para demonstrar sua tese. Que baita trabalho! 

Formando um trio meio que aleatório, a Han e a Tiburi se junta o escritor escocês Robert Louis Stevenson, que sustentou, no século XIX, que os romances não tentam impor concepções ao leitor, algo que poderia não valer mais pouco adiante, causando decepção. Os romances “repetem, reestruturam, esclarecem as lições de vida; separam-nos de nós mesmos, obrigando-nos a nos familiarizar com o próximo […]”.

Precisava de todo esse arrazoado para justificar o livro? Não, mas são construções que me eram estranhas até então. Eu explicava (que estranha necessidade) opções semelhantes como algo de direito, como tendo um papel em meio ao cansaço do dia a dia, operando para o relaxamento – foi o que fiz acima, no segundo parágrafo, deixarei o rastro. Mas como mensurar, afinal, se não aprendi tanto de empatia e do que considero relevante para a vida com os romances “farofa”, lidos desde a adolescência, quanto com os alfarrábios acadêmicos e com os renomados herméticos da literatura? 

O certo é que devorei The missing sister, recentemente traduzido como A irmã desaparecida (Editora Arqueiro), com deleite. Trata-se do sétimo volume da coleção As sete irmãs, criação da irlandesa Lucinda Riley. Amantes de Os catadores de conchas, de Rosamunde Pilcher, ou de Pássaros feridos, de Colleen McCullough, podem ter alguma ideia de que tipo de escrita se trata – a saga familiar. Riley basicamente encadeia diálogos – é a estrutura dos seus textos. Ela é exímia em tratar temas “pesados” – como abuso de álcool e a homossexualidade – com extrema leveza, fugindo de uma literatura que parece mais escancaradamente didática – e que, por vezes, causa rechaço. Mas sem ser superficial, o que é o interessante.

Ela certamente pode ser jogada na cesta do passatempo. Contudo, analisada sob a perspectiva dos autores acima, especialmente de Han, o destino pode ser outro. Basta tomar como exemplo a incorporação da relação homoafetiva (mas poderia ser o uso de álcool, o mundo da moda e suas cobranças, a questão ambiental…). Apesar de ter lançado mão da lesbianidade no quarto tomo, um dos eixos em A irmã da pérola: a história de Ceci, a genialidade com que tratou a amizade entre o professor Ambrose e o padre James, em The missing sister, é algo comparável ao que se vê no filme Me chame pelo seu nome (2018), baseado no romance homônimo escrito por André Aciman. 

A história de Ambrose e James é secundária, mas um excelente exemplo de como a sensibilidade pode formar uma base moral inclusiva. Sim, para que a própria Riley chegasse nesse ponto, a pesquisa pesada, a militância séria precisou vigorar – e aí tornamos às querelas entre o que é justo ou não, a quem dar o mérito ou a quem dar mais dele (é a mesma contenda que surge de tempos em tempos entre historiadores e jornalistas escritores). 

Um detalhe espinha. Ao longo da coleção, mas especialmente em The missing sister, há demasiada necessidade de atrelar a felicidade a ter um companheiro/companheira. Do mito platônico da divisão dos seres, da moral cristã, não importa, mesmo a mais independente das personagens não consegue conceber a vida fora do par. Essa ansiedade ressaltada no sétimo volume me fez olhar retrospectivamente para ver do mesmo nos anteriores. De certo, no entanto, atende a expectativa de boa parte dos leitores.

Lucinda surpreendeu os fãs falecendo em 11 de junho de 2021, vitimada por um câncer. Mas não partiu sem antes deixar as indicações para que o seu filho, também escritor, concluísse a saga com The story of Pa Salt, com previsão de lançamento para 2023. Comprarei em inglês não só porque quero treinar a língua, mas, com certa urgência, para relaxar e para viver.


Jandiro Adriano Koch, ou Jan, nasceu e vive em Estrela, RS. Graduou-se em História pela UNIVATES e fez especialização em Gênero e Sexualidade. Dedica-se a estudar e mostrar vivências LGBTQI+, especialmente em sua região, o Vale do Taquari. Escreveu Babá – Esse depravado negro que amou e O crush de Álvares de Azevedo (ambos pela Libretos).

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