Ensaio

Por que chamas? – Sobre estátuas e revolta

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Por que chamas? – Sobre estátuas e revolta

Por sua estrutura e sua força, há perguntas que podem ser consideradas monumentais: não terminam em seu ponto de interrogação e provocam mais do que suas palavras dizem concretamente. Em Culturas híbridas, Néstor García Canclini lembra da ocasião, há pouco mais de trinta anos, em que o arquiteto Osvaldo Giesso, diretor do Centro Cultural da cidade de Buenos Aires, foi confrontado pela seguinte questão no programa La Noticia Rebelde:

“Por que não existem estátuas de manga curta?”

Antes de puxar fôlego para ensaiar uma resposta, algumas problematizações surgem de imediato. Será que só cultuamos figuras que usam certas vestimentas mais viris ou elegantes do que uma camisa de manga curta? Como poderia alguém chegar à condição de memória escultural pública usando mangas curtas? Uma personalidade, ao virar estátua, ao ter o status, o estatuto, de monumento, ganharia também uma indumentária considerada “adequada” para a ocasião estatal, estática e histórica?

Porém, o que parece essencial de se pensar a partir daquela pergunta é: aquilo que no passado foi considerado digno de ser concretizado acompanha nosso maleável movimento sociocultural? Tal discussão orbita nossa década enquanto potência crítica e irrompe como incontornável em episódios como a queima da estátua de Borba Gato em São Paulo, no final de julho.

Desde sua inauguração, em 1963, o monumento é questionado por sua qualidade estética e sua representação mítica dos bandeirantes – a indumentária, por exemplo, se assemelha a algo próximo da Idade Média; o próprio Borba Gato é eurocentrizado, apesar de se parecer mais com os povos que escravizava. A questão mais urgente, contudo, está na legitimidade de se manter uma homenagem a uma figura responsável por massacres de povos originários: se o racismo é dos problemas sociais mais graves e insistentes no Brasil, como não considerar esta estátua uma ferida aberta?

Silenciosa e sutil, como opera a segregação racial velada, é a forma como a obra de Julio Guerra se adaptou à paisagem paulista ao longo de quase sessenta anos. Os pneus levados até a base de granito que sustenta a imagem de vinte toneladas de Borba Gato vieram questionar até quando isto pode ser considerado normal – afinal, quais são as bandeiras de nossa sociedade? Aquelas erguidas por outra época, para onde devemos dirigir o olhar, silenciar quem somos e quem podemos ser e formar-nos à sua imagem e semelhança? 

[Continua...]

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Por sua estrutura e sua força, há perguntas que podem ser consideradas monumentais: não terminam em seu ponto de interrogação e provocam mais do que suas palavras dizem concretamente. Em Culturas híbridas, Néstor García Canclini lembra da ocasião, há pouco mais de trinta anos, em que o arquiteto Osvaldo Giesso, diretor do Centro Cultural da cidade de Buenos Aires, foi confrontado pela seguinte questão no programa La Noticia Rebelde:

“Por que não existem estátuas de manga curta?”

Antes de puxar fôlego para ensaiar uma resposta, algumas problematizações surgem de imediato. Será que só cultuamos figuras que usam certas vestimentas mais viris ou elegantes do que uma camisa de manga curta? Como poderia alguém chegar à condição de memória escultural pública usando mangas curtas? Uma personalidade, ao virar estátua, ao ter o status, o estatuto, de monumento, ganharia também uma indumentária considerada “adequada” para a ocasião estatal, estática e histórica?

Porém, o que parece essencial de se pensar a partir daquela pergunta é: aquilo que no passado foi considerado digno de ser concretizado acompanha nosso maleável movimento sociocultural? Tal discussão orbita nossa década enquanto potência crítica e irrompe como incontornável em episódios como a queima da estátua de Borba Gato em São Paulo, no final de julho.

Desde sua inauguração, em 1963, o monumento é questionado por sua qualidade estética e sua representação mítica dos bandeirantes – a indumentária, por exemplo, se assemelha a algo próximo da Idade Média; o próprio Borba Gato é eurocentrizado, apesar de se parecer mais com os povos que escravizava. A questão mais urgente, contudo, está na legitimidade de se manter uma homenagem a uma figura responsável por massacres de povos originários: se o racismo é dos problemas sociais mais graves e insistentes no Brasil, como não considerar esta estátua uma ferida aberta?

Silenciosa e sutil, como opera a segregação racial velada, é a forma como a obra de Julio Guerra se adaptou à paisagem paulista ao longo de quase sessenta anos. Os pneus levados até a base de granito que sustenta a imagem de vinte toneladas de Borba Gato vieram questionar até quando isto pode ser considerado normal – afinal, quais são as bandeiras de nossa sociedade? Aquelas erguidas por outra época, para onde devemos dirigir o olhar, silenciar quem somos e quem podemos ser e formar-nos à sua imagem e semelhança? 

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