Ensaio

Travestis-pirilampo: Os gays e a Ditadura no RS – II

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Travestis-pirilampo: Os gays e a Ditadura no RS – II Padre Ozy Fogaça, 1977

Semana passada, abordei as intervenções dos setores responsáveis pela censura, no Regime Militar, diante de músicas e peças teatrais que arriscavam abordar a homossexualidade. Dessa feita, uma visada sobre como eram encaradas as pessoas que utilizavam roupas do outro sexo – seja como manifestação artística ou como identidade de gênero. Enquanto, no Rio de Janeiro, o gaúcho Carlos Machado (1908-1992) emplacava um show-espetáculo só com travestis, o famoso Les Girls, de acordo com matérias em jornal, em 1966, no Grill Drink do Leopoldina, na capital gaúcha, deveria estrear um espetáculo de canto, dança e fantasias, ao estilo do Les Girls, com o nome de Bossa e Travesti. O estabelecimento ficava na rua João Telles, número 54, quase esquina com a avenida Independência. 

Em março de 1966, o entusiasmo inicial foi refreado com a Portaria 4/66, emitida pelo Departamento Estadual de Fiscalização dos Serviços de Diversões Públicas. Tentavam colocar um fim na festança. Mas não só isso. A instrução buscava impedir a atuação de travestis em todo o território gaúcho, tanto em teatros quanto em circos ou congêneres. Os proprietários do Grill impetraram um mandado de segurança para garantir a atração. O juiz Bonorino Butteli (1918-1990), nascido em Bento Gonçalves/RS, atuando na 2ª Vara, negou o mandado, afirmando que não via abuso de poder na portaria, pois era da alçada do departamento esse tipo de expedição restritiva. Na argumentação, a travestilidade foi associada à homossexualidade. Esta, por sua vez, foi lida como assunto que, “em muitos casos deve ser tratado como problema médico, jamais como virtude artística, ou pelo ‘travesti’, como ‘expressão de arte’”. Nesse tópico, é possível verificar a relevância do judiciário na preservação do pensamento conservador, o que, certamente, teve seu confrontamento adiante, quando juízes do RS se tornaram vanguarda na defesa dos direitos LGBTQIAPN+.

Toni em “Bossa e Travesti” no Grill Drink do Leopoldina.
Diário de Notícias, 23/03/1966, p. 9.

A portaria, contudo, não deve ter vingado, porque, em 09/09/1966, o cinema Marabá, na Cidade Baixa, anunciava uma apresentação de travestis, grifando as presenças de Maru, Valéria, Marquesa (1945-2015), Jean Jacques, Giselle e Lorena. 

Já nas ruas, como se queixava um certo Mário F. Santos ao jornal Diário de Notícias, edição de 18/10/1966, onde falhava a iluminação pública se avolumavam “os meninos do travesti”. Para Santos, era “preciso iluminar aquele local tão no centro, e correr dali esses frequentadores indesejáveis, que ali se reúnem desde cedo e vão até a madrugada molestando os transeuntes.” Mário estava incomodado com a presença dessas pessoas na Praça da Alfândega, no lado da rua Sete de Setembro, assim como em frente ao prédio dos Correios e Telégrafos.

O gaúcho Dirnei Messias, o famoso idealizador da boate Flower’s, considerada por muitos como a primeira boate gay do país, profundo conhecedor da noite porto-alegrense, em entrevista, no dia 11 de dezembro de 2023, confirmou que, “a Ditadura foi ruim para as travestis que se prostituíam, especialmente na rua 24 de Outubro, nas proximidades da Caixa d’Água. Eram presas por vadiagem, raspavam a cabeça delas.”

Carnavais: Bichas! Bichas!  

Pessoas travestidas apareciam em shows, nas ruas e, ainda, em momentos específicos como as festas de Momo. Em 1969, houve uma nova tentativa oficial para proibir a arte e as vivências travesti. Na proximidade do carnaval, em 29/01/1968, em Porto Alegre, assinam um conjunto de instruções o superintendente dos serviços policiais Cícero do Amaral Viana (1932-1982) e o diretor do Departamento de Censura e Fiscalização de Diversões Públicas Luiz Carlos Costa. O rol restritivo foi largamente baseado no Decreto 2109, de 22/10/1946, quase um copia e cola. Entre os artigos, a proibição de maiôs, biquínis, shorts, calções de banho e fantasias com semelhança aos uniformes das Forças Armadas. Como novidade, no artigo 7º, ficou explícita a proibição de bailes de travesti. 

As confusões com elas eram muito comuns. Um documento do SNI da Agência de Porto Alegre destacou o furdunço ocorrido em Rio Grande/RS em 1972. O bloco carnavalesco Império Serrano de Pelotas, em 15 de fevereiro, adentrou ao festejo que acontecia no Clube Comercial. Uma gritaria se espalhou. Com uma comitiva com muitos travestis, “no momento em que entraram no salão, foram vaiados pelos associados do clube, chamando-os de Bichas… Bichas…”. Os componentes foram reclamar à diretoria do clube, que acabou com a festa.

É relevante perceber que, embora estivessem mais diretamente sob as luzes das lanternas da vigilância, as forças repressivas não conseguiram eliminá-las das cidades gaúchas. Pelos teatros, pelos cinemas, pelas ruas, nos carnavais elas eram como pirilampos: acendiam a luz e apagavam e acendiam. 

Uma ruiva de arrasar quarteirão: Padre Ozy Fogaça

Vestir-se de mulher era um problema desde longa data. Os arquivos do Ministério da Justiça também citam, en passant, a folclórica figura de padre José Ozy Alves Fogaça (1929-1996), nascido em São Jerônimo/RS.  Ozy atuava em Pelotas, onde, certa feita, foi para o folguedo carnavalesco em indumentária feminina. Conforme dado recolhido pelos censores da revista Isto É, matéria sobre a imprensa gay, edição de 28/12/1977: “[…] o padre e vereador Ozy Fogaça que, em Pelotas/RS, ‘entrou no bloco. Vestiu-se de ruiva e foi excomungado.” A história do religioso virou lenda. Comentava-se que ele fora banido da Igreja por desfilar, em saias, no bloco Bafo de Onça. 

    Coojornal, março de 1977. p. 10.

O alternativo CooJornal, edição de março de 1977, em Porto Alegre, definiu melhor os contornos na matéria O burlesco e ambicioso padre Ozy: “Em primeiro lugar, o padre Ozy, ordenado em 1954, não é apenas um padre com um comportamento, digamos, exótico. Advogado, vereador pela Arena, sócio honorário da umbanda, atleta de um time de futebol da cidade, registrado jornalista […].” Em segundo, parece que a questão da excomunhão tinha mais a ver com denúncias de uso indevido de dinheiro da igreja. Enquanto aguardava julgamento, Ozy andava pela cidade em uma Brasília vermelha, era visto bebendo e, conforme o CooJoornal, também ficara famoso ao comentar: “Uma vez desencaminhei um homem casado e ele estava muito preocupado com o que dizer em casa […]. Eu lhe respondi para ter calma e dizer à mulher que estivera em boa companhia, comigo.” 

Um religioso em vestido, sacolejando pelo carnaval, parece realmente exótico. Mas não foi a única coisa heteróclita naquele período da Ditadura. Até a próxima semana.



Fontes: Clube do Comércio Pelotas: Informação 232/15/APA/75; Bossa em Travesti: Diário de Notícias, Porto Alegre, 23/03/1966. Coojornal, edição de março de 1977; JUIZ aprova o veto da censura ao travesti. Diário de Notícias. Porto Alegre, 06/04/1966; Ozy Fogaça: Informação 24/78/DSI/MJ; Diário de Notícias, Porto Alegre, 18/10/1966; Entrevista com Dirnei Messias em 11/12/2023.


Jandiro Adriano Koch, ou Jan, nasceu e vive em Estrela, RS. Graduou-se em História pela UNIVATES e fez especialização em Gênero e Sexualidade. Com cinco livros lançados, dedica-se a estudar e mostrar vivências LGBTQI+, especialmente em sua região, o Vale do Taquari. O gaúcho era gay? Mas bah! é seu último título, lançado em 2023.

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