Crônica | Ensaios Fotográficos

“Libertad” ou “unión”

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“Libertad” ou “unión”

Claudia Tajes e Theo Tajes estiveram em Buenos Aires acompanhando as eleições argentinas do último domingo e relatam em texto e fotografias o clima da capital portenha naquele dia decisivo.


Depois de votar, um argentino de pouco mais de 50 anos que saía de uma escola no bairro de Palermo, em Buenos Aires, definiu assim a escolha que o país estava fazendo naquele domingo, 19 de novembro: se trata de decidir si vamos a morir rápida o lentamente

A morte lenta seria, para ele, a continuação da agonia a que o governo de Alberto Fernandez, e de seu ministro da Economia, Sergio Massa, submeteu o país ao longo de quatro anos. A rápida seria eleger Javier Milei. E ele votou em Milei. Se es para terminar, que sea com um tiro en la cabeza.

A bem da verdade, o grupo de Whatsapp do jornal La Nación que informava os leitores sobre o andamento da eleição já dava pistas da vitória do candidato da coligação La Libertad Avanza. Segundo o jornal, o bunker de Milei estava muito mais animado que o de Sergio Massa, candidato da situação. O número de equipes de televisão do mundo todo na frente do Hotel Libertador, sede da campanha de Milei, também não parecia um bom sinal. Se os apoiadores ainda eram poucos no início da tarde, as câmeras e microfones já estavam a postos para o que poderia – ou não – acontecer a partir das cinco da tarde. 

E aconteceu.

No bunker de Sergio Massa a concentração de eleitores começou bem mais cedo. Com a avenida Corrientes fechada nas cercanias do C Complejo Art Media, sede da campanha, ônibus e caminhões despejavam eleitores com bandeiras peronistas e de sindicatos. Uma torcida inteira do Boca Juniors entoava cânticos que Grêmio e Inter conhecem de cor e salteado. Chamava atenção a aparência humilde das pessoas, gente que certamente vem sofrendo com a crise econômica argentina. Ainda assim, pessoas que não acreditam em soluções fora da política para corrigir os rumos do país. 

Já os vendedores de churrasquinho viram no bunker de Sergio Massa uma oportunidade de faturar alguns pesos. Eram muitos, os tonéis montados ao lado de carros velhos carregados de carne e carvão. Estava quente em Buenos Aires no domingo, 30 graus às duas da tarde. Na Corrientes, o fogo da churrascada ardendo na avenida deixava a temperatura ainda mais alta. 

Criada por Chico Kertész, que fez a campanha do presidente Lula em 2022, mais uma equipe de marqueteiros acostumados a trabalhar com o PT, a campanha de Massa estampava o slogan: Tenemos con quién. Tenemos con qué. Olhando de fora, um conceito no mínimo equivocado, já que Sergio Massa teve o quê e foi o quem durante os quatro anos do governo. Se bateu errado nos argentinos ou não, fica a dúvida. Certo mesmo é que o discurso de mudança do candidato da situação não convenceu a maior parte do eleitorado argentino. Milei 55,69% x 44,30% Massa.

Na festa de Milei, adolescentes ainda sem idade para votar, milhares de jovens confiantes de terem feito a coisa certa, um bom contingente de quarentões e poucas, pouquíssimas pessoas mais velhas. De quando em quando todos gritavam Libertad – seja lá o que a liberdade signifique numa circunstância dessas. Perguntada sobre o que queria dizer ao gritar Libertad, carajo, um dos bordões de Milei, uma moça de seus vinte anos respondeu: nosotros queremos ser libres, carajo. Quem viu um filme muito parecido em 2018 sabe onde isso vai dar.

Javier Milei discursou brevemente ao lado da irmã Karina, a estrategista de sua campanha. Não levou para o palanque os quatro cães clonados a partir de Conan, o mastim inglês com quem conversa todos os dias com a ajuda de um medium de plantão. A ver se vai nomear o cão para algum cargo de seu governo, tal qual o imperador Calígula fez com Incitatus, seu cavalo preferido. Mas essa é só uma piada de perdedor, nos disse um taxista a caminho do Aeroparque.

Falando nisso, no segundo turno Javier Milei assumiu o namoro com a comediante Fatima Florez, famosa por suas imitações de Cristina Kirchner, Xuxa e Shakira. Enquanto esperava o resultado da eleição, Fatima disse aos jornalistas que, agora, ela e Javier vão se divertir.

Que não seja às custas dos argentinos.



 Theo Tajes é fotógrafo e roteirista.

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