Entrevista

Hip-hop, uma cultura transdisciplinar

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Hip-hop, uma cultura transdisciplinar Rafa Rafuagi (Foto: Bruna Williana / Divulgação)
Músico e militante do movimento negro, Rafa Rafuagi está à frente da criação do Museu da Cultura Hip Hop e defende que a expressão artística nascida na periferia oferece dignidade para a população ao mesmo tempo em que contribui para o fortalecimento da democracia

Nascida nos guetos norte-americanos, sob influência de ritmos e vivências africanas e latinas, e trazida à periferia das grandes cidades do Brasil, a cultura hip-hop é plural não só em seus sotaques, mas também nas diversas formas de expressão que assumiu em seus mais de 50 anos. Mais popular como música, por meio do rap, ou como dança, com o break, se manifesta também nas artes visuais, na moda e no esporte – a partir de 2024, aliás, o break dance será esporte olímpico em Paris. 

Não é simples reunir esse mosaico de manifestações em um espaço, mas é esse o desafio a que se propôs Rafael Diogo dos Santos, o Rafa Rafuagi. Músico e militante do movimento negro, Rafa é o idealizador do Museu da Cultura Hip Hop, primeira instituição do tipo na América Latina e que deve ser inaugurado em Porto Alegre em 2022. Inspirado em iniciativas como o Universal Hip Hop Museum, em Nova York, o espaço já tem endereço: ficará na Rua dos Nativos, número 545, na Vila Ipiranga, Zona Norte da Capital, onde ficava uma escola agora desativada. Lá, Rafa pretende promover exposições, oferecer oficinas, guardar a história do hip-hop gaúcho e organizar shows. Além disso, quer formar atletas de break dance para 2024.

Nesta conversa, Rafa Rafuagi conversa com a Parêntese sobre a relação entre a cultura hip-hop e o desenvolvimento da sociedade brasileira no último meio século, os avanços e recuos de bandeiras levantadas pelo movimento desde sua formação, a importância de registrar histórica e formalmente os documentos e obras do hip-hop, além da influência de seus agentes em instâncias sociais como a política e as universidades.


Parêntese – O movimento hip-hop nasce como uma forma de pessoas que vivem na periferia das grandes cidades, socialmente postas à margem e economicamente desfavorecidas, expressarem sua realidade e relatarem seu dia a dia. Como nasce e qual é a importância de um museu que reúne, organiza e expõe esses relatos?

RR –  É um desejo que ultrapassa a minha geração. Essa ideia permeava a cabeça do hip-hop gaúcho desde os anos 1990. Agora, se materializa por conta de a cultura hip-hop do Rio Grande do Sul, que tem 40 anos, ter acúmulo cultural e histórico para apresentar. Depois de 2018, passamos a refletir sobre como seria a montagem de um museu, como colocaríamos em prática um museu não convencional. Contratamos um instituto para fazer uma pesquisa de campo em nove regiões do Estado, com mais de 400 pessoas mobilizadas em fóruns. Isso foi fundamental para entendermos que o projeto não é de uma pessoa, de uma entidade ou de uma região, mas do Estado e de todos os territórios em que a cultura hip-hop se enraizou, se desenvolveu ou teve passagem. Todas essas histórias vão ser contadas. Muitas pelas pessoas que as fizeram, com quem está vivo, mas muitas, como é o caso da Malu Viana (rapper e ativista do movimento hip-hop, candidata a vereadora em 2020, que morreu em junho deste ano), também contadas por amigos, familiares, jovens impactados pelas ações dessas pessoas e por seu legado. O  museu surge no contexto da valorização da cultura hip-hop, um lugar que possa ser referência e que cuide do patrimônio e da memória dessa cultura, que foi construída nas periferias do Estado por pessoas que nunca saíram no jornal, mas que agora vão ter um espaço de reconhecimento e inspiração para as futuras gerações.

P – Quantas pessoas estão envolvidas no projeto e quais atividades serão propostas?

RR – São 46 pessoas, entre arquitetos, engenheiros, pesquisadores, articuladores e pesquisa técnica de pesquisa, de curadoria, de exposição, design e museologia. Vamos ter muitas atividades sensoriais. Desde o mais simples, como um toca-disco para fazer um scratch (técnica musical em que os DJs “arranha” o disco para produzir um novo som), até situações de realidade virtual, fliperama com jogos de periferia ou experiências imersivas. Uma das ideias é um ambiente que simule um toca-disco em formato grande, em que a pessoa entra e entende como são os fios, cada ligação ali dentro. Fora as exposições, que realmente vão possibilitar pesquisa. Temos recebido contato de estudantes de museologia, sociologia, antropologia, o que nos faz perceber que realmente o museu pode levar o hip-hop a outro patamar, de evidências, dados, de contribuir para a qualificação de sistemas públicos. Isso é fundamental na medida em que o museu vai reunir novas histórias a partir dessas publicações. Além disso, a nossa área de esportes do museu deve servir de treinamento para os breakers para a Olimpíada de Paris, quando a modalidade vai estrear. Uma área do complexo vai ser dedicada ao treinamento dessa modalidade. Assim como o skate virou uma febre nacional, vejo que isso vai acontecer com o hip-hop em 2024. Muitos pais vão querer botar seus filhos em aula de break, grafite, discotecagem. E isso vai mexer com a economia da cultura, abrir uma série de possibilidades de existir uma agenda mais incisiva do hip-hop no Rio Grande do Sul e no Brasil. Almejamos receber, já em 2022, a visita de 15 mil pessoas. Vamos aprofundar as reflexões em oficinas e eventos.

Porto Alegre, RS – 28/08/2021: Ato de Assinatura do Termo de Permissão de Uso do Museu do Hip-Hop. Foto: Mateus Raugust/PMPA

P – Normalmente se pensa na cultura hip-hop expressa em música, artes visuais ou dança, mas tu citaste inclusive esporte como uma forma de manifestação do hip-hop. É inevitável que um museu sobre uma cultura tão diversa seja diferente do que estamos acostumados.

RR – Não tem como fugir. A grande questão é pensar em como a gente se enquadra nas normativas dos museus, na relação com a rede de museus que já existe no Estado, como podemos nos colocar à disposição dessas instituições. O Museu da Cultura Hip Hop também abre um novo cenário de museus. Quantas outras instituições não podemos criar para incidir no imaginário da cultura brasileira? Inclusive é mais uma oportunidade de a periferia se entender como parte da história, que deve ser preservada e reconhecida.

P – Em um momento em que estátuas vêm sendo discutidas ao redor do mundo e homenagens a personagens controversos geram debate, um museu do hip-hop também pode ajudar a trazer novos nomes, datas e conquistas à tona.

RR – O museu entra no contexto de uma agenda que já existe, como esse grande movimento que tem proposto a mudança de nomes de ruas, avenidas, espaços públicos. Por que não fazer a Praça Malu Viana? É importante pensarmos nisso, em meio ao movimento de derrubar símbolos do racismo, como a estátua do Borba Gato e outras no mundo. O museu vai ter a possibilidade de contribuir com as lutas que já existem, mas também buscar reconhecimento histórico de diversos nomes da cultura hip-hop, assim como está acontecendo neste exato momento, com o pleito do professor Oliveira Silveira (poeta, professor, pesquisador e criador do Grupo Palmares) como honoris-causa pela UFRGS. Esses nomes devem ser reconhecidos e servir de inspiração, entrando nas pesquisas, nos livros escolares, nos documentos, para que possam chegar a gerações futuras e fazer com que as lutas dos nossos antepassados e contemporâneos sejam transformadoras.

P – Questões recorrentemente abordadas pelo hip-hop – como o racismo, a violência policial, a desigualdade – devem estar retratadas também no museu?

RR – Mais do que isso, algo interessante que vi nascer durante a pesquisa foi uma autocrítica sobre temas como o machismo presente na cultura hip-hop. Essa discussão tem sido constante no processo de pesquisa e vai se perpetuar para o museu, com encaminhamentos muito positivos, como a criação de uma sala com tudo de negativo que já aconteceu na cultura hip-hop. Inspirado em museus como o do Holocausto, que retratam episódios que não devem mais se repetir, vamos refletir sobre fatos que não devem se repetir na cultura hip-hop e na sociedade. Isso é importante também, porque abre a possibilidade de levar essa discussão necessária à sociedade e aos partidos políticos, muitos deles de esquerda, que levantam bandeiras de combate ao machismo, de apoio à causa LGBTQIA+, mas que nos seus quadros têm situações de machismo, homofobia e racismo. Queremos fazer essa autocrítica, que pode ser desconfortável, mas que vai provocar o debate.

P – Como foi o processo de pesquisa? Deu-se mais em documentos oficiais ou por meio de relatos e reuniões informais?

RR – Foi muito rico. Uma vez, um b-boy norte-americano veio a Santa Catarina e, numa reunião com o pessoal de lá, disse que os breakers daqui não dançavam igual aos breakers norte-americanos. A galera achou que ele estava falando que os americanos eram melhores que os brasileiros. Na verdade, acho que ele quis dizer que os dois nunca vão dançar igual, porque a cultura hip-hop se adapta ao contexto local. No Brasil, por exemplo, a cultura hip-hop se mesclou com a capoeira, com o samba, com várias culturas populares e negras brasileiras. No Rio Grande do Sul, essa fusão também ocorre com as particularidades de cada região. Fizemos a pesquisa em nove regiões, abarcando cidades-satélites. Em Caxias do Sul, incluímos Nova Petrópolis, Bento Gonçalves, Farroupilha. O último fórum será em Pelotas (ocorreu em 4 de setembro), incluindo toda a Região Sul do Estado. Cada região tem particularidades na execução do hip-hop, seja pela narrativa, pelo sotaque, pela forma de desenvolvimento, mas também por segmentos – assim como ocorre nos partidos políticos, que têm suas correntes internas, na cultura hip-hop acontece de maneira parecida. Tem gente que atua mais na área do entretenimento, tem quem atue mais na política, outros que atuam mais nas questões sociais, outros vão para o mainstream. Todas as áreas, cada uma ao seu jeito, são hip-hop e contribuem para a cultura. O equilíbrio e o respeito entre todos vai constituir o museu como um espaço revolucionário, contando a história sob todas as óticas e em todas as regiões.

P – De que maneira a cultura hip-hop influencia o desenvolvimento da sociedade brasileira e como ela pode contribuir para o fortalecimento democrático do País, já que é talvez a expressão artística que trata de forma mais clara as demandas de parte expressiva da população periférica e pobre do Brasil?

RR – Enxergo o hip-hop como uma cultura transdisciplinar. É saúde, segurança pública, educação, meio ambiente, habitação… Quando entendemos que o hip-hop converge com todas as agendas, percebemos sua contribuição não só para o fortalecimento da democracia, mas para oferecer dignidade para as pessoas na prática. Meu documentário, Manifesto Porongos, de 2016, serviu de subsídio pedagógico para educadores implementarem a Lei 10.639, que institui o estudo da história afro no currículo escolar. Ao longo dessas mais de quatro décadas, o hip-hop tem contribuído em diversas áreas. É interessante pensar que até 2010, 2015, o hip-hop foi muito pouco ouvido, enxergado e muito menos respeitado. Em Só Deus Pode me Julgar, o MV Bill diz que “as pessoas continuam nos enxergando como coisa de moleque revoltado”, e não veem o quanto as pessoas que constroem e defendem a cultura hip-hop amadureceram gestão, filosofia, letras, inclusive no Direito. Eu sou um acadêmico do Direito. Com possibilidade intelectual, cultural e econômica de propor mudanças fundamentais, a gente propõe. Começamos a propor espaços, leis, festivais, museus… Esses eventos contribuem no sentido daquela reflexão do Pepe Mujica, de que a sua geração errou ao gerar mais desejo por consumo do que por cidadania, criando uma relação direta entre a nossa sociedade latino-americana e o capitalismo, algo que a própria esquerda luta contra. A cultura hip-hop, trazendo ao longo das décadas um senso crítico mais aguçado, tem contribuído para uma agenda de sociedade mais crítica e menos consumista, com consumo mais consciente, economia solidária, de colaboração em rede, trabalho mais horizontalizado, menos hierárquico.

P – A influência do hip-hop na prática política também aumentou?

RR – A cultura hip-hop sempre esteve inserida no debate político, mas nunca valorizada a ponto de estar na mesa de decisões. Ficava no âmbito da execução das ideias já concebidas. Queremos mudar essa lógica, entrar na discussão, construir junto. Mais do que ser ouvido, queremos apresentar dados, evidências e construir uma agenda que nos represente, que contribua com o nosso povo. Essas décadas ajudaram a maturar a cultura hip-hop, a criar muitos especialistas – a (rapper) Nega Jaque é pedagoga, por exemplo. A grande questão, além de manter esse elo entre a cultura hip-hop e essas especializações, é inserir o hip-hop na universidade, no currículo, na construção dos profissionais do futuro. No que diz respeito aos profissionais da Medicina, por exemplo, há questões que nos afetam diretamente: a mulher negra tem o menor tempo de atendimento, recebe um tratamento mais grosseiro, não recebe a atenção necessária. Contamos com o setor público para que essas agendas sejam fixadas no debate público. Quero frisar a importância da participação da iniciativa privada. O museu oferece uma série de propostas de parcerias, todo mundo pode somar. O projeto é apartidário, independente e autogerido. Não temos ligação política, o projeto é autônomo, e isso é fundamento da nossa construção. Muitos dos membros dos coletivos são de partidos políticos, mas prevalece a cultura hip-hop como protagonista. 

P – Houve diálogo com outros Estados? Quais são os próximos passos?

RR – O debate foi feito inicialmente no Rio Grande do Sul, porque nasce com esse recorte de espaço. Dentro disso, vamos contar a história do hip-hop como um todo, começando pelo surgimento na África, passando pela Jamaica, nos Estados Unidos e chegando ao Brasil, primeiramente por São Paulo, mas depois em outros Estados. O nosso grande ideal é que o museu gere consciência de que outros Estados também podem coletar seus dados, organizar os seus acervos e proteger a memória e o patrimônio da cultura hip-hop em outros lugares. Tenho dito que, numa perspectiva, nos próximos cinco anos a gente possa pensar em um Museu Nacional do Hip Hop, com todos os Estados com suas histórias organizadas e preparadas para serem compartilhadas.

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