Folhetim

A parada – Capítulo 1

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A parada – Capítulo 1
Pois o que eu faço aqui é olhar a vida, isso, gostoso pra mim é de ver a vida da gente que passa por essa parada. Os mandolates, os pés-de-moleque, as rapaduras, as cocadas, isso é o de menos. Eu vendo, sim, eu vendo e vendo e vendo. Mas não é esse negócio de vender que me interessa, não. Não, não. Eu mesma vivo da vida dos outros, desse vaivém de quem chega e de quem embarca nos ônibus que passam pra lá e pra cá e, vrrrummm!, vão-se embora pra tudo que é lado, pra tudo que é bairro. E tem gente que eu vejo seguido e gente que eu não vejo mais, nunca mais. Mas é esse o bonito do negócio da vida, que nos traz umas pessoas e que nos leva embora outras. Esses dias mesmo eu tava aqui só eu. Só, bem sozinha, enquanto batia a chuva. E dê-lhe chuva, meu deus do céu! Aí, desce o pai e o menino sem que eu nunca tivesse visto antes. Eles pareciam perdidos, achei que até estavam. Eu olhei, olhei. Olhei de novo e eles nem me notaram, nem se aperceberam de nada. O pai se abaixou e disse qualquer coisa pro menino que fez que sim com a cabeça. E eu aqui, ó. Mas aí eu não tava mais sozinha, tava com o menino e olhava ele daqui. O gurizinho, sim, na condição que eu tava antes, só. E o doido do homem saiu correndo debaixo da chuva até lá naquele outro canto, o canto de lá da esquina do mercado, e se sumiu. O guri esperava desconfiado, igual eu tava desconfiada também com aquela criança sozinha ali. Mas eu tava aqui, cuidando dele mesmo sem ele saber que eu cuidava. E o pai não vinha e não vinha. Eu fui tomando cuidado que o menino, gurizinho de dez, onze anos, é, devia ser uns dez, onze anos, fui tomando cuidado que não atravessasse a rua, que não resolvesse partir atrás daquele pai atrapalhado, homem meio descompensado de deixar a criaturinha ali desamparada na umidade daquele dia chuvoso e chato e pesado e sem nada. E ele respirando olhava na direção do pai que lá não aparecia na esquina e que ele tanto ansiava por ver de novo. E respirava e olhava, e arfava aquele peito pequenininho que o coração já começa a subir, que tava quase a bater na goela de tanto que ele esperava, do tempo que levava aquele pai que não vinha, sabe? Sabe como é, né? Eu mesma sei, ah, eu sei. Quando vai dando aquela vontade de que passe a espera, porque quem a gente confia coloca em risco a tal da confiança. E o ouvido começa a zumbir, e a cabeça começa a tontear, e os olhos esperam ver mas não veem. Me compreende? Me acompanha? E se tem a chuva que separa, e a rua? E se tudo em volta é a cidade? Pra uma criança? Virgem nossa! Ah, pois […]

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