Folhetim

A vida e a vida de Áurea – Capítulo 8

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A vida e a vida de Áurea – Capítulo 8 Foto: Theo Tajes

Hat-trick é amor

No capítulo anterior: mais uma vez, agora atendendo aos pedidos dos filhos, a Áurea desistiu de abandonar o Larry. Mas foi preciso um acordo de paz que incluía o marido parar para sempre com as piadas sobre ela e, principalmente, sobre o Grêmio. Para garantir o sucesso do acordo, a Áurea decidiu dormir em outro quarto, uma forma Lisístrata de conseguir o que queria – embora o Larry não lembrasse quem era Lisístrata. Mesmo assim, ele deu uma prova de que queria recomeçar: disse que levaria Áurea à apresentação de Luisito Suárez, na Arena.

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Ela estava nas nuvens. Desde o dia das Bodas de Prata, em que visitou o velho Olímpico com a amiga Wanda, a Áurea não entrava em um estádio de futebol. A Arena, então, só conhecia por fotos. As coisas que a gente faz por amor, ela pensava, enquanto famílias inteiras ocupavam as cadeiras para ver a estrela da noite. Ainda se fosse por amor, a Áurea corrigiu os próprios pensamentos. Ela havia passado 35 anos longe do Grêmio para não se incomodar. E o desgosto que isso tinha causado ao pai dela? Chega de se culpar por homem, mais uma vez a Áurea se corrigiu. Se tinha alguém por quem lamentar pelo que não fez, era por ela mesma.

O Larry estava quieto. Pensou em comer pipoca, mas a embalagem azul com o escudo gremista o fez perder a vontade. Se fosse fotografado com aquilo na mão, adeus reputação. Os amigos conselheiros, os jovens da FUCK – Força Unida Colorada Karaio –, os filhos, os vizinhos, não, ele não podia correr o risco de ser visto naquela situação. E como suas mãos estivessem livres, os dedos da Áurea procuraram por elas e os dois estavam assim, parecendo dois enamorados no setor leste, fila G, cadeiras 13 e 14, quando as luzes se apagaram e Luisito entrou em campo saudado por uma bateria de fogos de artifício.

A Áurea se levantou e precisou da mão para aplaudir. E logo já pulava e gritava, ela e os dez mil que saíram de casa para ver o quinto maior goleador da atualidade vestindo a camiseta tricolor. O Larry continuou sentado. E em vez de olhar para o campo, olhava para a mulher, descobrindo um novo encanto nela. Ah, se ela mostrasse toda aquela vida por ele. 

Na volta para casa, a Áurea encostou a cabeça no ombro do Larry e agradeceu pela noite perfeita. Mas na hora de dormir, pegou o travesseiro e foi para o quarto dos guris.

Verdade seja dita, ele ficou puto.

Falando com o Miro e o Paulinho no dia seguinte, o Larry desabafou sobre a nova fase do casamento, quartos separados e um tratamento quase formal no resto do dia. O Miro achava que o pai devia ser romântico, chegar com flores, se ajoelhar com uma promessa, trazer um presente, o fato é que ele não sabia muito bem o que aconselhar, estava já na quarta união estável e nunca tinha feito a menor força para consertar um casamento. As ideias dele eram todas copiadas das novelas do passado, aquelas que passam no canal Viva. Já o Paulinho, mais prático, fez a sugestão que saiu com dor de sua boca colorada.

– Leva a mãe no jogo da Recopa. A estreia do boludo.

Foi assim que o Larry acabou com outros cinquenta mil gremistas na Arena, no dia 17 de janeiro de 2023, vendo Luis Suárez fazer três gols em 37 minutos. Quando o uruguaio saiu de campo ovacionado no segundo tempo, a Áurea beijou o Larry na boca por longos segundos. Chegaram a aparecer no telão do estádio.

Bem mais tarde, os dois sem roupa na mesma cama, o Larry se virou para dormir, feliz como há muito não se sentia. Então a Áurea foi para cima dele com maldade no olhar.

– Eu quero meu hat-trick.


No próximo capítulo: O que mais um homem precisa fazer?


Claudia Tajes é escritora e roteirista.

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