Folhetim

A parada – Capítulo 4

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A parada – Capítulo 4
E, te digo, tem outras vezes que é diferente, que dá vontade de desistir, de parar tudo, de se sumir pra bem longe. Mas aí vem sempre aquela voz da gente mesma, aquela coisa de dentro, que é um tanto de coração e um outro tanto de pensamento que insiste, ô!, se insiste. Pra ficar e ficar fazendo as coisas, dando a continuação do caminho que já é grande de olhar quando a gente vê o que já andou nessa vida. É, olha pra mim, esse corpo de mulher velha e cansada, acha o quê? Tem caminho lá pra trás que eu nem vejo mais de tanto que andei percorrendo de lá pra cá. E chegar até aqui é uma trabalheira, ixe!, chegar nesse lugar que estou agora é parte desse movimento todo, dessa andança de tempo que vim fazendo pra tentar mudar. E mudei. Sim, eu vim sendo eu mesma e me percebendo a cada dia diferente, a cada dia renovada de quem eu era. Queria sair pra conhecer mais, pra ver gente, pra saber me virar num mundo longe daquele de onde eu vim. Como é esse negócio de sair, de ir? Pois eu te digo que vim bem faceira, vim mesmo. Só que agora é outro momento, já ando mais cansada. E pra saber lá de trás, o que foi e onde foi, é preciso fazer um esforço dos grandes que nem sempre a gente alcança na cabeça, o tempo vai apagando e apagando. Só sei que de onde eu saí não tinha essa maluquice toda de gente, esse movimento que é Porto Alegre, essa loucura que se vê no mundaréu de trabalhador que chega e sai daqui desse Centro. No meu passado o caminho que eu vejo era de estrada de chão, de campo de um lado a outro. Estrada em que se caminhava naquele cascalho miudinho e que dava um barulhinho bom de ouvir no meio do nada. Ah, disso eu me lembro bem. E daquele som meio mascado e seco, debaixo do sol forte e do vento fresco, eu caminhava bem nova, uma guriazinha, pra ir longe, longe. E lá naquele tempo tinha rio, tinha pasto, tinha as histórias de gente que desaparecia, tinha afogamento de parente, tinha aquelas contações de que cavalo corria a noite toda sem parar por conta de assombração. É, a gente aqui, hoje, acha mesmo uma graça, ri meio sem querer rir. Mas lá dava um medo danado, dava uma dúvida, dava uma vontade de não acreditar. Então a gente fica acreditando do contrário, pensando que não, não e não. Faz uma força bem grande. Porque não pode ser, né? E ao mesmo tempo tinha a realidade que a gente via e que também assustava, tinha aquele horror de matar os bichos pra comer, aqueles gritos, aquela falta de piedade, aquela fome que faz matar. Nem fome era, era matança mesmo. Coisa difícil que eu precisava o tempo todo ver. Ver sem querer ver, sabe? Era outra vida, que […]

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