Folhetim

A vida e a vida de Áurea – capítulo 1

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A vida e a vida de Áurea – capítulo 1 Foto: Theo Tajes

Pau que nasce torto

Era gremista desde criancinha, sempre foi. Filha única, foi tratada desde que nasceu como um zagueiro, e isso significa que não faltou à ela um pingo de amor durante a infância e a adolescência. Para o seu pai, Osvaldo, a zaga era a alma de qualquer time, muito mais que o melhor meio de campo ou um ataque dos sonhos. Sem a zaga, ele dizia, o resto todo não chega a lugar nenhum. Até o seu nome, Áurea, era homenagem ao zagueiro do heptacampeonato gaúcho do Grêmio nos anos 60. Áurea Vitória, Osvaldo disse para o funcionário do cartório, orgulhoso, quando registrou a menina numa segunda-feira de 1963, um dia depois do bicampeonato estadual do Tricolor.

Até a festa de 15 anos dela foi toda decorada nas cores do Grêmio. O vestido de cetim, obviamente, azul. Muitos anos depois, já doente, o pai lembraria dessa noite como o maior erro da vida dele. Por que, em lugar do festão que custou os olhos da cara, não deram para a filha uma jóia de ouro com a imagem de Eurico Lara, a bola tantas vezes defendida pelo goleiro imortal cravejada de brilhantes? 

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Foi na sua festa de 15 anos que a Áurea conheceu o Larry, que entrou de penetra. Bonitão, falante, um ano mais velho. Filho do dono de um mercadinho da Zona Sul que já tinha duas filiais. O Larry, assim chamado em homenagem ao artilheiro campeão gaúcho pelo Internacional em 1961.

Proibir o namoro estava fora de questão. A Áurea se apaixonou de um jeito que ameaçou fugir de casa se a impedissem de sair com o rapaz. Entre idas e vindas, foram dez anos até que o pai entregasse sua pequena zagueira – como ele carinhosamente a chamava – a um noivo de gravata vermelha no altar da Igreja de Nossa Senhora das Graças, na Tristeza. 

Nunca um bairro de Porto Alegre traduziu tão bem o sentimento de um pai.

E viveram felizes para sempre, desde que o Larry não falasse de futebol com o sogro.

A Áurea e o Larry tiveram dois meninos, Paulo Roberto e Claudiomiro. Os nomes são autoexplicativos. Ruth, a mãe da Áurea, acha que a doença do marido começou aí. Parecia que o Larry tinha feito de propósito. Cada vez que o Osvaldo falava Paulinho ou Miro, a lembrança dos gols sofridos pelo Grêmio nos anos 70 era como que uma agulha espetando seu coração. Não havia Losartana Potássica que resolvesse. O jeito foi a ponte de safena.

É preciso dizer que o Osvaldo foi o melhor dos avôs para os meninos. Conseguia separar direitinho o DNA da Áurea dos genes vindos do lado do Larry. O Miro, inclusive, chegou a treinar escondido na Escolinha do Grêmio e já ia subir de categoria quando o genro descobriu e acabou com a alegria. Depois disso o menino foi fazer Street Dance e pegou aversão a futebol.

O Osvaldo ainda viu o Grêmio voltar a ser campeão gaúcho antes de morrer, em 2018. O Larry tentou reclamar da capela decorada com bandeiras e flâmulas tricolores, mas a Áurea não aceitou palpite. Era a despedida do pai dela. Ia ser do jeito dela. 

E a vida foi seguindo, como sói acontecer.

A viúva foi morar com a filha. A Áurea se aposentou do Banrisul. O Larry quase que nem ia mais aos mercadinhos, agora supervisionados pelo Miro – que não fazia mais Street Dance. O Paulinho trabalhava há anos no Departamento de Marketing do Inter. O futebol continuava a pautar os assuntos e os horários da família, tudo organizado em função dos jogos do Internacional. Às vezes a Áurea brincava, com uma ou outra visita, que o Larry preferia ser traído a saber que ela, internamente, continuava tão gremista quanto antes. Mas ele não precisava se preocupar – nem com um caso, nem com o outro. Depois de tantos anos de casamento, o Grêmio era só uma saudade para ela. E nem sempre das melhores.

Quando aconteceu, o Larry botou a culpa na aposentadoria, que tirou as preocupações da mulher. E na menopausa, todo mundo sabe que a falta de hormônio mexe com o comportamento e a cabeça. Fato é que a Áurea estava tomando o café da manhã quando viu no jornal que Luis Suárez havia sido contratado pelo Grêmio. Não era mais um alarme falso, como aquele das caixas de som, até hoje motivo das piadas do Larry. Luisito, El Pistolero ou como quer que o chamassem seria apresentado em um grande evento dali a alguns dias, na Arena do Grêmio. 

A Áurea tirou os olhos do jornal, encarou o Larry e disse: eu vou.

No próximo capítulo: Cenas de um Casamento.


Claudia Tajes é escritora e roteirista.

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