Folhetim

A vida e a vida de Áurea – Capítulo 5

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A vida e a vida de Áurea – Capítulo 5 Foto: Theo Tajes

Só as mães são felizes?

No capítulo anterior: Depois de um dia inteiro se divertindo com a amiga Wanda para comemorar suas Bodas de Prata, a Áurea já se via deitada no sofá da sala, rainha do controle remoto, quando um ‘Parabéns a Você’ inesperado a fez voltar à realidade. Vindo da Serra com dois quilos de capeletti, o Larry a esperava com os filhos Miro e Paulinho. Fazendo a sopa enquanto os três assistiam a um jogo qualquer na sala, a Áurea pensou que sim, foi bom enquanto durou. O domingo ou o casamento? 

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A essa altura do campeonato, a vida de Áurea dá um salto e chega ao fatídico ano de 2022, que encontrou o Grêmio disputando a série B pela terceira vez em sua história.

Dá um salto porque muita coisa aconteceu nesse tempo, mas quase nada relacionado ao sentimento tricolor que ameaçou renascer no coração da Áurea. Ela bem que pensou em ter outros domingos livres como o da comemoração das Bodas de Prata, mas então os dias foram se passando, o Larry estava tão atencioso, o Paulinho foi demitido do Marketing do Inter e voltou a morar na casa dos pais, a Dete, namorada do Miro, engravidou da Carolina, a dona Ruth conheceu a bisneta e faleceu logo em seguida. A vida foi sendo vida e todo mundo sabe o quanto viver ocupa a gente.

Em 2022, depois de um Bolsonaro e uma pandemia, a Áurea estava conformada com o que o destino havia reservado à ela. Às vezes se arrependia da aposentadoria. Tivesse continuado no banco por mais tempo e, além de rendimentos maiores, talvez tivesse emoções maiores também. Tratar com o público era uma caixinha de surpresas, acontecia de tudo. De tédio não se morria. E os movimentos por salários mais justos? Ela não furou sequer um em seus 30 anos de Banrisul. Quando as influencers de pouco mais de 40 anos começaram com o papo do etarismo, a Áurea se deu conta dos seus 59. Idade não é limite para nada, toda mulher é linda em qualquer fase, viva a maturidade. Em lugar de concordar com essas bandeiras, a Áurea se sentia velha.

Overdose de positividade cansa a minha beleza, explicava.

A morte da Wanda em agosto por sequelas da Covid foi um baque. As duas eram amigas desde o colégio. Brigaram, desbrigaram, brigaram de novo e, depois disso, nunca mais se desgrudaram. Sem a Wanda, um pedaço da história da Áurea se ia também. Ela nunca tinha reparado no quanto as pessoas ficam sozinhas sem um pedaço da sua história. 

Veio novembro e o Grêmio subiu para a série A. O Larry secou o quanto deu, mas não adiantou. A Áurea, que tinha mais o que fazer — o que incluía cuidar todas as tardes dos netos Carolina e Theodoro para a Dete, há muito separada do Miro e agora uma boa amiga da ex-sogra, fazia de conta que não se importava. O segredo de um casamento é fazer de conta, ela falava. O Larry ria, mas ficava encasquetado. 

Fazer de conta o quê?

O ano estava terminando com boatos de que o Grêmio contrataria um grande atacante, um dos maiores ainda em atividade. Pronto, o Larry deitou e rolou. Disse para a Áurea pendurar uma meia bem grande na lareira, uma em que coubesse um homem inteiro. Que lareira, que meia, retrucou a Áurea sem paciência, até porque sempre quis ter uma lareira em casa, de latão, que fosse, e há 34 anos o Larry falava que era frescura. Meia pendurada, então, era um hábito do norte do mundo que jamais tinha frequentado os natais dos Soares Rios.

Pois já era 31 de dezembro e a Áurea nem lembrava da flauta do Larry quando entrou o plantão da RBS na TV. O centroavante Luís Suárez, aquele que era do Barcelona, tinha sido contratado pelo Grêmio por dois anos. O Larry não se mexeu. A Áurea levantou como se houvesse algo de urgente para fazer na cozinha e saiu cantarolando a música que surgiu do nada na cabeça dela.

Você nunca ouviu falar em maldição
Nunca viu um milagre
Nunca chorou sozinha num banheiro sujo
Nem nunca quis ver a face de Deus.

– Áurea?

–  Oi?

– Tu tá cantando Só As Mães São Felizes?

– Não sei. Será? Nem percebi. 

Quando ela voltou para a sala, o Larry já tinha ido dormir.

No próximo capítulo: Terapia do joelhaço para casais


Claudia Tajes é escritora e roteirista.

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