Folhetim

Capítulo 5: O apagão

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Capítulo 5: O apagão
Enfim, ar livre! Existe vida além da monotonia branca! O ar, a terra, o céu. A cidade que não é mais a minha, mas é liberdade. É difícil acreditar que estou aqui fora, quando até pouco tempo atrás eu estava temendo e desejando a minha morte, em mais uma longa noite presa. A noite em um cárcere é deprimente, e acho que é assim em qualquer lugar e em qualquer tempo. As pessoas têm um ar de derrota, de inevitabilidade. Menos Laira. A minha vizinha de cela sempre se manteve inquieta e vivaz. Desde o início suas palavras me deram pistas de que ela não era apenas mais um espécime de estudo lá dentro. Agora estamos aqui segurando a mão uma da outra enquanto olhamos para os morros da cidade. Estou livre, ainda assim assustada com a imensa vulnerabilidade que vivi. A companhia de Laira me dá alguma segurança, e não estamos sozinhas, temos dois inusitados companheiros de fuga. Eu poderia ter imaginado que aquela mulher, a primeira a falar comigo, a que me acalmou com seu hálito e sua voz quando minha tortura estava apenas começando, não era parte do Clarão da Morte, e não só pela cor escura de sua pele, mas porque, apesar de tudo, tinha uma delicadeza sutil em seus movimentos. Eu poderia ter imaginado, e percebo agora, que Laira tentou me avisar e eu não entendi, tudo o que eu sabia é que aquela mulher também me tocava contra minha vontade. Fui muito ferida, não só em meu corpo, também na minha alma.  Estava deitada no chão da cela esperando a manhã chegar, mesmo sabendo que não faria diferença alguma. O chão era minha cama, eu me recusava a dormir na plataforma fria. Então, escutei um barulho e depois a escuridão. A alteração súbita me assustou. Zero luminosidade. Tentei forçar os olhos para enxergar alguma coisa, mas só escutei a voz de Laira me mandando ficar pronta. Apesar do apagão, as luzes nos vidros estavam ativas e frenéticas, frases e símbolos passavam rápido demais e indicavam que algo diferente estava acontecendo no Clarão da Morte. Ela apareceu em meio a escuridão, se aproximou do vidro de minha cela e a luminosidade do movimento das palavras em tela se projetaram sobre o seu corpo negro. A imagem parecia sobrenatural. Pela primeira vez tinha uma expressão dura em seu rosto; eu me encolhi em um canto e em um movimento automático protegi meus braços na altura das aplicações que ela fez. Mesmo quando nenhum aparelho mais me vasculhava, ela continuou machucando minha pele. “Dessa vez não estou aqui pra te vacinar, estou aqui pra te levar.” Permaneci parada, sem reação, então ela me segurou pelo braço e me arrastou para perto de si.  “Pra te tirar daqui eu precisei fazer algumas alterações imunológicas no teu organismo. Vacinas, entende?” A urgência do momento não me permitia pensar muito, mas escutar a palavra vacina organizou meu raciocínio. Para meu espanto percebi que Laira estava com ela, não vi minha […]

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