Folhetim

Duas Vanusas – Capítulo 9: O passado

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Duas Vanusas – Capítulo 9: O passado

Eu vou dar o nome dela de Verônica.

Verônica é muito feio. Chama ela de Anita.

Você quer que eu chame a minha boneca com um nome que parece o seu, Ana.

Claro, meu nome é lindo.

Não. Eu prefiro Verônica, é um nome muito mais grande e bonito.

Verônica é feio igual a tia do Paulinho. Sua boneca é feia igual ela.

Ana, não fala assim, por que você sempre briga comigo, minha boneca não é feia nada.

Sua boneca é feia sim, igual você e esse seu nome estranho.

As duas meninas passavam quase todo o tempo juntas, brincando no pátio, construindo casinhas que logo se transformariam em bombonieres para venda dos mais variados doces para suas clientes bonecas, e em seguida em uma escola onde davam aulas e faziam gincanas com seus alunos ursos de pelúcia. Seu mundo de fantasia avançava as horas dos dias, que pareciam sempre o mesmo, mais um punhado de tempo disponível para brincar.

Assim que Vanusa nasceu, o leite de sua mãe secou e ela foi jogada na distância das crianças que cresceram sendo nutridas por mamadeira. Ana já andava e voltou a engatinhar. Umas mulheres do bairro disseram que era normal, a criança mais velha sente a presença do recém-nascido como uma ameaça, seu espaço de mundo, que era a sua casa, agora tem de ser dividido com outro ser. Dividir não é uma tarefa fácil de aprender por um cérebro imaturo. Dividir não foi uma tarefa fácil nem quando elas cresceram.

Me dá!

Não, eu tô brincando com ele agora.

Não! Me dá, Vanusa! Não é teu. É meu!

Não é nada, é nosso.

Me dá! Eu quero!

Para, Ana, tá me machucando.

Vanusa cresceu trocando de brincadeira. Se pegava uma boneca, logo Ana queria. Se construía uma ponte, depressa Ana corria para derrubá-la. Se lia um livro. Se aprendia a fazer um bolo. Se ganhava interesse em geografia. Se pedia para ir visitar a casa da vó. Sabe o que acontece com um comportamento repetido infinitas vezes, em diversos contextos? Ceder suas escolhas para Ana e readaptar-se, aos poucos, sem que ninguém tomasse consciência, tornou-se algo natural. Quem sabe a vida era isso, fazer as escolhas da sua própria irmã.

Quando Paulo beijou-a depois da aula, ela ficou tão confusa que não conseguiu dizer nada. Só saiu correndo para casa e se trancou numa nuvem de silêncio. Alguma coisa tinha acontecido que ninguém poderia lhe tirar. Um beijo. Só um beijo e o mundo estava diferente. Um beijo e o mundo podia ser um lugar onde ela não precisava mais fazer as escolhas de sua irmã. Um lugar chamado segredo podia lhe proteger e fazer possível pela primeira vez uma escolha só de Vanusa e mais ninguém.

O namoro escondido ganhava espaço na mesma proporção da ausência de Vanusa na rotina de Ana. A irmã mais velha não estava mais acostumada à sua própria presença, fazia muito tempo que eram as duas, tanto tempo que todas as suas lembranças eram manchadas pela presença de Vanusa. Onde sua irmã estava agora? Na escola? De novo tendo aula de reforço em Geografia? Que história era aquela? Não demorou para a solidão tornar-se insuportável para Ana. Não demorou para ela descobrir o som que faziam os lábios de Paulo e Vanusa quando se aproximavam e se distanciavam dando espaço para uma respiração e depois se encontrarem de novo.

Não é que Vanusa não quisesse contar para Ana como estava apaixonada e como Paulo a fazia feliz. Ela queria. Queria muito. Não é que Ana quisesse destruir a felicidade que via no rosto da irmã quando esta voltava das aulas de reforço de geografia. Ela não queria. Não queria mesmo. Não é como se elas soubessem exatamente o que estavam fazendo. Era só que Paulo parecia um presente tão bom e frágil na rotina de Vanusa, a sua única impressão era que ao proferir a primeira palavra… Não: ao imaginar proferir a primeira palavra, todas as paredes da casa colidiriam e elas seriam esmagadas imediatamente após o pensamento que pudesse um dia dar origem à palavra. Então, cada vez que deixava Paulo, caminhava os poucos metros até em casa se convencendo de contar tudo à sua irmã e cruzava o portão de casa decidida a guardar silêncio.

Não é que Ana não tivesse tentado. Ela tentou. Passou longas semanas sentada esperando Vanusa chegar e contar tudo. Esperou a hora certa de fazer parte de novo da vida de sua irmã. Sentada imaginava os lábios de Vanusa se aproximando dos lábios do namorado, o som que faziam ao se distanciar para que os dois respirassem e se aproximavam de novo. Aquele som ecoava por toda a casa, dia após dia, dentro daquelas paredes, dentro de cada cômodo, dentro dela própria. Tentou em vão pensar em outra coisa, mas só de não querer que o pensamento nascesse ela o pariu. O som já a povoava, mas que gosto será que tem? Qual seria a sensação que a língua de Vanusa estava vivendo durante todos aqueles dias? Será que estava dentro da boca dele naquele exato momento? Será que ela e sua irmã nunca mais voltariam a ser parte uma da outra de novo? Emudeceu ao assombro daquela dúvida.

Nada pode ser mais corrosivo que uma dúvida. Nem existe algo mais incandescente que um segredo. O tempo não era exato, nem os dias regulares. O mundo havia mudado e as duas não puderam evitar a colisão das paredes que as esmagariam. Cada fio de cabelo, olho, perna, ombro, costela. Esmagando cada sorriso, cada lembrança compartilhada, cada mão, dedos entrelaçados no amor que construíram uma pela outra. Para tudo desmoronar só é necessário o silêncio de línguas que não se encontram mais. Para o fim só é necessário um beijo. Vanusa sentiu isso no som que fazia a aproximação dos lábios de Ana e Paulo, sem nem respirarem.  


Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica vacinadora, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre. Lançou “Aqui dentro” pela editora Venas Abiertas. Disponível pelo Instagram da própria autora: @nathalliaprotazio.escritora

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