Folhetim

Mil manhãs semelhantes – Capítulo 6

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Mil manhãs semelhantes – Capítulo 6

Acordei como se tivesse dormido muitas horas, talvez dias. Sentia o corpo todo arder, as mãos suadas, e não conseguia montar na cabeça um quadro minimamente organizado do que vinha acontecendo. Sabia apenas que estava deitado na cama, em nosso pequeno quarto azul. Roberta me observava um pouco distante, da soleira da porta, falando ao celular, enquanto a gata, sentada no móvel onde ficava a televisão, me encarava com olhos sinuosos, depois se pôs a lamber as próprias patas e o dorso em movimentos morosos que recendiam a um certo prazer. Ela não falava comigo e eu não conseguia decifrar se, no fundo, regozijava-se de ter tido razão quanto ao perigo que Roberta representava ou se era outra coisa, simples deleite de quem sabe algo que você desconhece.

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Acordei como se tivesse dormido muitas horas, talvez dias. Sentia o corpo todo arder, as mãos suadas, e não conseguia montar na cabeça um quadro minimamente organizado do que vinha acontecendo. Sabia apenas que estava deitado na cama, em nosso pequeno quarto azul. Roberta me observava um pouco distante, da soleira da porta, falando ao celular, enquanto a gata, sentada no móvel onde ficava a televisão, me encarava com olhos sinuosos, depois se pôs a lamber as próprias patas e o dorso em movimentos morosos que recendiam a um certo prazer. Ela não falava comigo e eu não conseguia decifrar se, no fundo, regozijava-se de ter tido razão quanto ao perigo que Roberta representava ou se era outra coisa, simples deleite de quem sabe algo que você desconhece.

Roberta veio até o quarto e disse que era preciso fazer um exame para confirmar se era mesmo a doença, desses testes rápidos de farmácia, porém sua amiga, a Suzianne, tinha quase certeza, pelos sintomas que eu apresentava, de que fora infectado, pois seu namorado já a tivera, mas ela, ao contrário, não contraíra, talvez fosse uma dessas pessoas imunes. O namorado havia sobrevivido sem necessidade de internação e ficara com poucas sequelas; perdeu 50 por cento da audição do ouvido esquerdo e algo do paladar, quase tudo o que comia ficava um pouco com gosto de metal enferrujado, como se engolisse junto com os alimentos um punhado de moedas velhas. Fora isso, vivia normalmente, era um vencedor, nas palavras dela.

Então eu estava doente e Suzianne era a responsável. O abraço, o maldito abraço no corredor do supermercado. Roberta havia nos traído! Roberta era o mal que habitava aquela casa, e tudo que ela fizera até agora fora para se livrar de mim, me jogar na rua como a caixa de um sapato que compramos e conservamos durante certo tempo, fabulando que irá ter alguma serventia, que irá guardar lembrancinhas de viagens, como garrafinhas cheias de areia de Fortaleza ou cartões de natais que ganhamos durante mais de vinte e cinco anos. Mas chega o dia em que nos damos conta que detestamos todos aqueles cartões horrorosos e não faz sentido algum guardar uma garrafa minúscula e ridícula com areia que pode ser de qualquer lugar. E mesmo se fosse de Fortaleza, o que se vai fazer com aquela porra? A caixa vai então para o lixo – não é nem para o reciclável, é direto rasgada, posta num saco preto, e depois é como se nunca tivesse existido. Eu era a caixa de sapatos de Roberta. Meu corpo todo suava e tremia, sentia muita sede. E se eu tivesse os piores sintomas? Se meus órgãos começassem a parar de funcionar? E se eu tivesse de ser intubado como quem fica empalado à beira da estrada? E a gata? Onde ela estava agora? Por que não falava comigo?  

Roberta entrou com uma caixa nas mãos, retirou dela uma haste de plástico com um algodão na ponta, muito similar a um cotonete, e o enterrou no meu nariz como se quisesse alcançar meu cérebro. Tirou-o de lá, foi ao banheiro e retornou falando com a voz mais compassiva e harmoniosa que um dia eu já ouvira saída de seus lábios:

– Testou positivo. Você está com a doença! – ela nem cortou o verbo estar, de modo a utilizá-lo com a informalidade que o afeto produz. Fez questão de dizer “está” ao invés de “tá”.

– Eu preciso ir para o hospital – respondi com a aflição comendo o ar das palavras.

– Não, não! – disse Roberta. – Só se apresentar sintomas gravíssimos, algum tipo de insuficiência respiratória ou algo do tipo. Por enquanto é observação e isolamento.

Nesse momento a gata saiu do quarto junto com Roberta. “Eu testei negativo”, arrematou, e fecharam a porta.

Lembrei novamente o soldado norte-americano dizendo que a guerra era como usar drogas: eletrizante, porém podia lhe custar a vida. Sentia-me apenas na escuridão da selva, como em um buraco. O que eu não havia entendido? Onde perdera-me na trilha? Havia seguido todos os protocolos de segurança existentes, fui cauteloso e também humano. Estive atento a todos os sinais, ouvi o sobrenatural, me comuniquei com a natureza. Teria tudo então sido apenas uma armadilha, uma conspiração anterior? A gata e Roberta, na verdade, sempre estiveram juntas? Meus pensamentos foram abortados de súbito pelo recorte de luz que se formou pela abertura da porta. A gata entrou pelo vão e pulou na cama, ficou circulando até encontrar um assento em meu braço e se aninhar. Antes de adormecer junto com ela, pude ver Roberta numa espécie de contraluz, soltando lentamente a fumaça do cigarro. Vestia ainda a camiseta do Beastie Boys.

Pensei ouvir, como vindo lá de fora, o barulho fino da chuva, depois o vento. Os sons do corredor pareciam com os de um intestino. Era como se eu estivesse dentro de um grande corpo que era o edifício, e essa vida estivesse dentro de um outro organismo que era a cidade, e assim sucessivamente até chegar ao núcleo da terra, e eu deveria sentir que tudo isso seguia uma ordem, que estava tudo bem. Era isso que a gata tentava me dizer – estava tudo bem. No entanto, ao mesmo tempo sentia que era apenas um sonho distante dentro de minha cabeça, quando como sentimos que não temos um corpo, não sentimos o peso de o arrastar. O quarto dormia a portas fechadas, a gata continuava ali aninhada de olhos semicerrados; se eu pudesse, também pularia da sacada como ela, lá fora, sem medo de rachar meu tórax na calçada. Todavia, não posso voar, e a crença nesse fato científico me mantém vivo. Então sigo acordado, ou talvez dormindo, de boca fechada, atento aos planos de fuga, observando a gata que me olha.

Desperto com o barulho da campainha da porta do apartamento, como se ele tivesse vindo de um eco longínquo até tornar-se uma vibração presente a poucos metros. Ouço o som das chaves, vozes, saudações. Uma movimentação estranha de passos feitos por sapatos, depois um andar leve, quase silencioso. Há pessoas sentando-se em nossas poucas cadeiras e no sofá. “Como ele está?” alguém pergunta. Não consigo ouvir a resposta. Serão médicos? Cientistas que vieram me resgatar, levar para um laboratório? Um tremor como de um terremoto me sacode o corpo, parece que há ferro em meus ossos. Encharcado de suor, procuro a gata, que não está mais na cama ao meu lado. Então, como na noite anterior – ou era tarde aquilo? –, a porta se abre fazendo um recorte de luz que vai inundando o quarto até me alcançar.

– Como vai, querido? – pergunta uma voz.

Atrás dessa silhueta que distingo ser de uma mulher, e que não é Roberta, um homem vai entrando também, falando com um misto de voz de radialista e técnico de futebol infantil:

– Como é que tá, campeão?

E diante meus olhos turvos posso agora identificar Suzianne e seu namorado, ambos parados aos pés da cama. Tudo pode sempre piorar. 


Marcelo Martins Silva é escritor, professor de Português e percussionista (repinique) no carnaval. Lançou “A matéria inacabada das coisas”, poesia, pela editora Diadorim. 

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