Folhetim

Mil manhãs semelhantes – Capítulo 7

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Mil manhãs semelhantes – Capítulo 7

Motta possuía algo de inconfundível, apesar do tipo absolutamente comum: cabelos cortados à máquina, pois já ralos, estatura mediana, a tez morena clara, ainda que fosse o que identificamos como branco, e a voz, sobretudo a voz, que guarda uma certeza amena e não violenta, porém quase impossível de ser contrariada. Motta era o nome do namorado de Suzianne, que nesse momento estava dentro do quarto, vestindo um blusão azul-claro, gola V, calça jeans e um inconfundível sapatênis que mesmo na penumbra era possível ser identificado. Descobriria depois que ele trabalhava em algo obtuso, era um investidor da bolsa, corretor de imóveis e um cidadão sempre em busca de oportunidades. Praticamente surdo do ouvido esquerdo, chegava muito perto para poder falar e ouvir e se posicionava lateralmente, de modo que fosse o lado direito a ficar próximo do ouvinte ou falante. Sem receio algum, sentou-se na cama, como se dotado de algum poder que o imunizasse da doença, pois pelo que dizia a ciência era plenamente possível, de fato bastante provável, que a recontaminação ocorresse. Porém, lá estava ele, destemido e pronto a me oferecer ajuda. Falou-me, em princípio, amenidades, perguntas sobre como eu estava, que ficasse tranquilo, mantivesse a fé no Universo, que se aquilo estava ocorrendo comigo era porque eu podia suportar tal provação, que alguma lição eu deveria tirar da situação. Quando se está doente, com uma febre de queimar a pele e se é o centro das atenções, tudo piora e qualquer conversa ou intervenção parece fazer sentido, até pensei que eu poderia ser menos filho da puta na vida, mas eu não era assim tão filho da puta, não fazia mal a ninguém, eu só pensava coisas ruins sobre as pessoas vez que outra, contudo isso é o mínimo que se pode esperar de alguém normal. Fiquei ouvindo-o sem conseguir responder quase nada ou mesmo sem entender muita coisa do que ele dizia. Talvez eu tenha respondido algo, mas tenho certeza de que ele não ouviu. Tivemos um momento a sós, notei que Roberta e Suzianne haviam saído do quarto, nem a gata havia ficado.

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Motta possuía algo de inconfundível, apesar do tipo absolutamente comum: cabelos cortados à máquina, pois já ralos, estatura mediana, a tez morena clara, ainda que fosse o que identificamos como branco, e a voz, sobretudo a voz, que guarda uma certeza amena e não violenta, porém quase impossível de ser contrariada. Motta era o nome do namorado de Suzianne, que nesse momento estava dentro do quarto, vestindo um blusão azul-claro, gola V, calça jeans e um inconfundível sapatênis que mesmo na penumbra era possível ser identificado. Descobriria depois que ele trabalhava em algo obtuso, era um investidor da bolsa, corretor de imóveis e um cidadão sempre em busca de oportunidades. Praticamente surdo do ouvido esquerdo, chegava muito perto para poder falar e ouvir e se posicionava lateralmente, de modo que fosse o lado direito a ficar próximo do ouvinte ou falante. Sem receio algum, sentou-se na cama, como se dotado de algum poder que o imunizasse da doença, pois pelo que dizia a ciência era plenamente possível, de fato bastante provável, que a recontaminação ocorresse. Porém, lá estava ele, destemido e pronto a me oferecer ajuda. Falou-me, em princípio, amenidades, perguntas sobre como eu estava, que ficasse tranquilo, mantivesse a fé no Universo, que se aquilo estava ocorrendo comigo era porque eu podia suportar tal provação, que alguma lição eu deveria tirar da situação. Quando se está doente, com uma febre de queimar a pele e se é o centro das atenções, tudo piora e qualquer conversa ou intervenção parece fazer sentido, até pensei que eu poderia ser menos filho da puta na vida, mas eu não era assim tão filho da puta, não fazia mal a ninguém, eu só pensava coisas ruins sobre as pessoas vez que outra, contudo isso é o mínimo que se pode esperar de alguém normal. Fiquei ouvindo-o sem conseguir responder quase nada ou mesmo sem entender muita coisa do que ele dizia. Talvez eu tenha respondido algo, mas tenho certeza de que ele não ouviu. Tivemos um momento a sós, notei que Roberta e Suzianne haviam saído do quarto, nem a gata havia ficado.

Depois Suzianne entrou no quarto acompanhada de Roberta, também sentou-se na cama e colocou minhas mãos entre as suas. Roberta ficou mais atrás, perto da porta. Motta estava na sala. Eu nunca havia reparado em Suzianne com atenção. Tinha olhos miúdos para o rosto largo, que a mim sugeriam algo indecifrável, um terror que vive lá no fundo, como quem pudesse arrancar as unhas de uma criança de seis anos se achasse necessário. Ela era colega de escola de Roberta, não sabia se professora de química ou matemática, talvez fosse química, coisa de quem é capaz de passar a vida inteira ensinando pessoas a olharem uma tabela colorida que não faz sentido algum, ela me parecia esse tipo de pessoa. Também me disse que mantivesse a fé e que fizesse tudo que me fosse sugerido, e essas orientações viriam deles, que já haviam passado, com sucesso, por esse problema. Essa doença não é nada de mais, arrematou sorrindo um sorriso que mostrava um canino quebrado, coisa que eu também jamais havia notado. Ela fora bastante enfática, um tanto enérgica quando falou da importância de seguir as orientações que eles me dariam. Apertou-me a mão com determinação. Vestia um blusão gola V e uma saia verde musgo. Apesar da confusão em que minha cabeça havia entrado, como se tivesse tomado uma garrafa de cachaça Sete Campos com 24 comprimidos de diazepam, quando fui deixado sozinho para descansar passei imediatamente a me questionar da onde Roberta conhecia aquela gente. Como havia se tornado amiga de pessoas como daquelas e por que eles estavam ali, ao invés de médicos ou de algum amigo médico ou enfermeiro. Definitivamente não pareciam as pessoas mais adequadas para lidar com a situação.

Tentei sair do quarto para, pelo menos, comer na sala, caminhar um pouco pelo apartamento. Nisso fui logo interrompido por Roberta, Suzianne e Motta, que estavam sentados no sofá da sala e se levantaram para me reconduzir à cama, afirmando que, nesse período crítico, o isolamento de quinze dias, eu deveria me mover o mínimo possível, de preferência fazer as refeições no quarto e tomar banho, talvez, de dois em dois dias. Agora era fundamental poupar energia, como se recarregasse a bateria de um aparelho eletrônico. A janela do quarto quase não foi aberta, muita luz ou vento também me prejudicariam. Comi uma canja sentado na cama assistindo um programa qualquer na televisão, acho que era um filme de vikings ou de pessoas que trabalham em um hospital; fosse um ou outro, era horrível de qualquer forma. Depois acabei dormindo novamente.

Suzianne entrou no quarto, sozinha, e disse que estava preocupada comigo, porém muito também com Roberta. Perguntei se desconfiava que ela estivesse contaminada; Suzianne disse que não, não era esse o problema. Roberta era imune, ela tinha certeza. A doença, essa doença, era também uma espécie de enfermidade moral que acometia as pessoas, que Roberta era uma pessoa muito boa, muito especial, porém andava um tanto perdida, descrente da vida e do que a vida é. Roberta não tinha filhos, não tinha família, não tinha um propósito, andava por aí me arrastando como um peso, um saco de latinhas de cervejas vazias. Mas que eu, assim como as latinhas, podia ser reciclado, melhorado, era sobre isso os novos tempos que se apresentavam. Não se tratava de me curar, mas, sim, de salvar Roberta. A voz de Suzianne tinha um tom grave, quase metálico, e era como se soasse dentro de mim, como um eco na cabeça e não um som que eu captasse pelos ouvidos. Não consegui responder nada a ela, apenas fiquei encarando-a, como se de alguma maneira eu já houvesse vivido aquilo. 

Depois Roberta entrou no quarto junto com a gata, que logo pulou na cama e foi se aninhando em mim. Roberta perguntou como eu estava, se já sentia alguma melhora, que a presença de Motta e Suzianne ali tinha sido muito positiva e que eles se propuseram a ficar no apartamento, dormir na sala, até que eu estivesse curado. Ela acreditava, aliás, eles acreditavam que assim eu poderia sobreviver.

– Eles vão ficar aqui com a gente, Roberta? – perguntei engasgando um pouco.

– Sim! Vai ser bem melhor. Além de me fazerem companhia eles vão poder te ajudar.

– Eles são estranhos. Tu não notou que tem alguma coisa de errado com essa gente?

– Eu sabia, eu sabia que tu ia falar isso, que ia entrar em negação. Isso faz parte da doença, essa confusão. A Suzianne me disse que seria assim.

Então Roberta se levantou da cama e bateu a porta do quarto. Depois voltou a abrir e disse:

– Eles vão ficar. O Motta já foi lá buscar as roupas deles.

E atrás de Roberta pude ver Suzianne, seus olhos pétreos e impávidos como que brilhando na penumbra do apartamento, que acusava o início da noite. Antes que a gata pulasse da cama a segurei pelas patas traseiras com força e agarrei sua cabeça. Ela apenas me encarou sem temor algum, ou raiva, e sacudiu todo o corpo antes de sair pelo vão da porta entreaberta.


Marcelo Martins Silva é escritor, professor de Português e percussionista (repinique) no carnaval. Lançou “A matéria inacabada das coisas”, poesia, pela editora Diadorim. 

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