Folhetim

Capítulo 5 – Papagaio-charão

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Capítulo 5 – Papagaio-charão

Quando a família desce do carro, Lúpino não consegue assimilar que naquela casinha de madeira pintada de azul mora a avó desconhecida, uma suposta avó que o teria conhecido quando ele era bebê. Fica parado do lado do carro, ainda grudado à porta, sem querer avançar. É preciso que a mãe retorne e o leve pela mão até o portão de ferro. Ela aperta a campainha. O pai – este pai vivo e presente – está um pouco atrás, enquanto Lúpino tenta se esgueirar para o lado na ilusão de desaparecer no meio do canteiro de flores.

Do meio da roseira, ele tenta observar sem ser visto a porta que se abre devagar na casa, e pela qual atravessa uma senhora muito enrugada, tão curvada para a frente que suas costas se arredondam como a casinha de um caracol. Lúpino acha que ela deve ter cem anos, duzentos anos, e olha para a mãe tentando descobrir pelo rosto dela o que ele deveria sentir.

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Quando a família desce do carro, Lúpino não consegue assimilar que naquela casinha de madeira pintada de azul mora a avó desconhecida, uma suposta avó que o teria conhecido quando ele era bebê. Fica parado do lado do carro, ainda grudado à porta, sem querer avançar. É preciso que a mãe retorne e o leve pela mão até o portão de ferro. Ela aperta a campainha. O pai – este pai vivo e presente – está um pouco atrás, enquanto Lúpino tenta se esgueirar para o lado na ilusão de desaparecer no meio do canteiro de flores.

Do meio da roseira, ele tenta observar sem ser visto a porta que se abre devagar na casa, e pela qual atravessa uma senhora muito enrugada, tão curvada para a frente que suas costas se arredondam como a casinha de um caracol. Lúpino acha que ela deve ter cem anos, duzentos anos, e olha para a mãe tentando descobrir pelo rosto dela o que ele deveria sentir.

O portão se abre. Por um segundo, o mundo para de se mover, até que a mãe dá um passo em frente e abraça a senhora-caracol. Depois, como se tivessem ensaiado um movimento síncrono, as duas se viram na direção dele. Lúpino tenta fugir para trás das pernas da mãe, mas ela o empurra delicadamente para a frente. Diz oi pra tua avó, ela assopra no ouvido dele.

Não dá tempo. A senhora já está com as mãos sobre a cabeça dele e gruda um beijo úmido e desagradável sobre sua testa. Então ela diz como tu cresceu ou alguma dessas coisas que os adultos com frequência repetem. O pai se aproxima. É rapidamente apresentado à senhora-caracol enquanto os adultos vão levando Lúpino de arrasto para dentro da casa. Atravessam a sala sem demora e, como se todos já soubessem para onde ir, se espalham pela cozinha ao redor de uma mesa coberta até a metade por uma toalha florida.

A senhora-caracol pede que eles sentem enquanto passa um cafezinho fresco. Lúpino se gruda na mãe. O pai fica na frente deles e deixa a cabeceira livre. A mãe pergunta como a senhora está, diz que a senhora pode contar com ela para qualquer coisa, e pergunta se ele morreu mesmo desse novo vírus. Lúpino escuta tudo enquanto observa paninhos de crochê espalhados por todos os lugares. Um paninho em cima do micro-ondas, outro paninho vestindo o botijão de gás, mais um paninho dependurado na tampa do fogão e ainda um paninho aberto sobre a bancada da pia.

Uma xícara de café com leite aterrissa à sua frente. Ele olha para a mãe. Em casa, só tem permissão para tomar café de manhã, não de tarde e nunca de noite. A mãe o autoriza com um aceno ínfimo de cabeça, mas é um gesto inequívoco. Lúpino gosta quando ele a mãe se comunicam desse modo imperceptível para o resto do mundo. Fica mais tranquilo e consegue enfim olhar com atenção para a senhora-caracol. Ela deixa um prato com biscoitos no meio da mesa, sobre ainda mais um paninho de crochê, e se senta na cabeceira. Tem olhos inchados que fazem Lúpino pensar nas almofadinhas das patas dos gatos, e cabelos pintados de uma cor não humana que Lúpino associa à casca de laranja. Ele demora a se dar conta de que está encarando a senhora e que ela agora o encara de volta.

– Tu era um bebê quando conheceu essa casa – a senhora diz.

Lúpino não sabe o que responder. A mãe faz um carinho no braço dele.

– A gente passou uma semana aqui, filho, antes de voltar para Porto Alegre.

A linha do tempo da própria vida nunca foi muito clara para Lúpino. Ele sabe que nasceu em Porto Alegre, numa tarde de um sábado de sol, e sabe que a família morou por algum tempo na Serra e sabe que só ele e a mãe se mudaram de volta para a capital. Mas não sabe nada sobre essa outra avó e muito menos sobre essa casa. Ao redor da mesa, todos os olhos estão sobre ele. Cria coragem e se dirige à nova avó:

– Posso comer um biscoito?

Ela sorri. Claro que pode, ela diz empurrando o prato mais para perto dele. Lúpino agarra um dos tijolinhos amanteigados e mergulha no café com leite. Essa simples ação parece devolver os adultos ao seu mundo de adultos. Escuta a avó-caracol dizer que não tem confirmação do diagnóstico, mas que a pneumonia foi muito rápida. Lúpino não consegue entender a diferença entre velório – que não vai acontecer – e enterro – que vai ser só com a família. O enterro está marcado para o final da tarde. Até lá, eles podem descansar um pouco.

Terminados os cafés, a avó sugere à mãe de Lúpino que mostre a casa para os outros, afinal, ela ainda deve se lembrar da casa, não é? A mãe confirma e se levanta estendendo a mão para o filho. O pai diz que prefere esperar por eles no jardim. Lúpino e a mãe retornam para a sala, e a mãe explica que eles dormiram ali antes de ir embora para Porto Alegre.

– Por que a gente ficou aqui, mãe, a gente não tinha casa?

A mãe demora a responder e começa a falar sem olhar para o filho. Conta que eles tinham casa, sim. Eles tinham vindo de Porto Alegre com o primeiro pai, porque essa era a cidade dele, e aqui ele tinha conseguido um emprego melhor. Mas logo o pai começou a ficar doente. Era uma doença escondida, que fazia o pai ficar muito irritado, e ele começou a ficar muito brabo em casa. Lúpino não se lembra, mas a mãe diz que aquele pai tinha se transformado numa pessoa que brigava muito. Em geral com ela, mas depois ele começou a brigar com o Lúpino também. Ele não lembra e nem sequer entende como pode ser isso de brigar com um bebê, mas presta atenção na mãe. Ela conta ter decidido sair de casa com Lúpino, mas precisava de um lugar para ficar até conseguir uma passagem para Porto Alegre. Foi assim que eles acabaram ali, porque a mãe não conhecia quase ninguém na cidade, e ficaram até o pai de antes se convencer a assinar a autorização de viagem para o filho.

– A tua avó foi muito importante, Lúpino. Só ela conseguia fazer teu pai mudar de ideia. Ela queria que a gente ficasse morando com ela de vez. Mas também entendeu que era melhor a gente voltar pra nossa cidade e ficar perto da minha mãe.

A avó-albatroz! Que alívio a entrada de uma personagem conhecida na história de vida deles. Lúpino tem vontade de fazer muitas perguntas sobre o que lhe soa como uma fuga, mas a mãe já está avançando mais para dentro da casa e espera que ele a siga. Não demoram em ver tudo: um banheiro pequeno, no qual os paninhos de crochê cobrem a tampa da privada, e o quarto da avó, onde o crochê se esparrama sobre as duas mesinhas de cabeceira.

– A melhor parte dessa casa é mesmo lá fora, Lúpino. Quer ver a horta?

No jardim, a avó desconhecida e o pai vivo estão olhando os pés de couve. Assim que os vê, a senhora-caracol se aproxima e pergunta à mãe de Lúpino se elas podem conversar na cozinha. As duas se retiram e o menino vai para perto das couves. O pai cavouca na terra sem explicar nada a Lúpino, até que mostra entre os dedos em pinça uma pequena bolinha marrom.

– Tu já tinha visto um tatu-bola?

Lúpino acha que não e aproxima a cara da coisinha na mão do pai. Ele abre a palma mantendo a bolinha equilibrada sobre a linha da vida. Fica bem quietinho, pede o pai, e aos poucos a bolinha começa a se desenrolar até adquirir um formato de bicho. Depois de dar minúsculos passos com suas infinitas perninhas, o pai diz para Lúpino aproximar o dedo. Lúpino com cuidado levanta o braço e, com toda a concentração do mundo, estica o indicador. Quando está a milímetros de distância, o tatu-bola volta a sem embolotar e Lúpino encosta o dedo na carapuça dura e fechada do animal.

– Como ele faz isso?

Antes que o pai responda, a mãe grita por eles da porta da casa. Ela se aproxima falando alto, num tom que Lúpino só vê ela usar com este pai e que, no geral, anuncia decisões que ela tomou na hora, mas finge estarem combinadas desde sempre.

– Acho que tá na hora de ir tomar um banho no hotel, e depois vamos direto pro cemitério.

O pai também deve entender o significado desse tom de voz, porque ele imediatamente concorda, joga o tatu-bola de volta para a terra e se levanta. Após gestos apressados que Lúpino mal consegue acompanhar, ele de repente já se vê de novo dentro do carro. Agora é o pai que está ao volante: antes de dar a partida, ele estica o braço pro lado, deixa uma mão cair sobre a perna da mãe. Tudo bem?, ele pergunta, e ela responde com um sorriso esquisito.

Chegando no quarto de um hotel pequeno e mofado, entregam para ele o celular-temporário e nem sequer o cobrem de advertências e restrições. Lúpino sente medo mais uma vez. Os pais ficam de pé olhando para fora da janela. Lúpino não consegue ver muito da mãe porque ela está contra o parapeito, e o pai a abraça pelas costas. Lúpino escuta que eles conversam, mas não identifica as palavras.

Pensa em telefonar para a avó, mas não sabe o que dizer. O hotel é estranho, os pais estão estranhos. Ele se deixa absorver por um joguinho no celular, um dos fáceis e previsíveis e, portanto, tranquilizantes. Não sabe quanto tempo depois ele é convocado pelos pais a trocar de roupa.

Vestido em cores cinzas, Lúpino é guiado pela primeira vez na vida para dentro de um cemitério. Estão ao ar livre. A nova avó está ali também, mas não vem falar com eles. Outras pessoas estão perto dela, e olham para os recém-chegados com expressões de distância. Lúpino puxa o braço do pai.

– A gente pode ir embora já?

O pai se abaixa. Explica que eles vieram ver o enterro. Que é a última chance que o Lúpino vai ter de se despedir do outro pai.

Barulhos no topo das araucárias chamam a atenção de Lúpino. Ele ergue o rosto contra o sol e enxerga um par de pássaros verdes. São papagaios, diz a voz do pai ainda agachado ao lado dele. Lúpino nunca viu papagaios assim. Por que eles têm a cara vermelha?, pergunta. O pai já está de pé e dá de ombros: nem todos os papagaios são iguais. Lúpino olha para a senhora-caracol. As avós também não são todas iguais. Imagina a nova avó com a cara vermelha como a do papagaio. É uma coisa que viu uma vez num filme de terror que não era para a idade dele: os rostos das pessoas iam se tingindo de sangue até elas colapsarem mortas no chão.

Mas a avó não se tinge de sangue. Em vez disso, dois homens uniformizados os chamam para dentro de uma sala. Sem que ele peça, o pai pega Lúpino no colo. Uma vez lá dentro, a mãe chora baixinho. Um caixão de madeira escura guarda um saco preto. Lúpino tinha sido avisado que seria assim, que ele não ia poder enxergar o pai, mas ainda se surpreende. O caixão é fechado e aparafusado, e os homens de uniforme começam a empurrar o carrinho para fora. Lúpino é colocado de volta no chão, e todos seguem os funcionários até uma gaveta cinza, numa parede cinza, onde colocam o caixão e fecham com tijolos e cimentos. E então é hora de ir embora. Lúpino não consegue entender. Vieram olhar para um saco preto?

– Mãe – ele chama – quando eu vou me despedir do outro pai?

Ela olha para ele com lágrimas empoçadas.

– Já acabou, Lúpino, essa foi a nossa despedida.

O pai se aproxima e vai de novo pegá-lo no colo, mas Lúpino se afasta.

– A gente ainda não fez nada – ele fala mais alto.

A mãe olha para o grupo de pessoas que ainda não se dispersou. O pai chama o nome dele com a voz firme. É o código para o fim da conversa, mas Lúpino sente a ferida dos traídos. Fizeram tanta coisa para nada. Não quer sair dali antes de afinal se despedir. Não conhece as palavras para se explicar, mas tem esperança de que, se o deixarem se despedir, ele vai enfim entender alguma coisa.

O pai estende a mão. Lúpino dá um passo para trás. O pai se abaixa. O olhar está fixo, mas macio. Ele pede: vamos embora, filho. Mas Lúpino não consegue, e grita a frase que na boca dele soa especialmente precoce e duramente sentida: eu não vou com vocês eu vou ficar e falar com o meu pai morto.

E este pai vivo, ainda que agora combalido, não faz mais do que abaixar a cabeça e se afastar.


Julia Dantas é porto-alegrense, editora, tradutora e doutoranda em Escrita Criativa pela PUCRS. É autora de Ruína y leveza (Não Editora, 2015) e organizadora de Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade (Dublinense, 2020).

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