Folhetim

Capítulo 2 – Pássaros da Cidade

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Capítulo 2 – Pássaros da Cidade

Sabiá

Lúpino ainda tem a mão agarrada às grades do portão do prédio quando ouve um carro passar a mil pela rua. A respiração também está a mil. Ele fecha os olhos e revê o caminho na cabeça. É perto e fácil de ir, mas há o frio e a escuridão. Lúpino aperta o dinossaurinho já quase disforme e se solta do ferrolho que até então o protegia. Olha para a esquina na direção da casa da avó e decide caminhar a passos pequenos, prestando muita atenção em tudo para não errar. Está em frente ao prédio vizinho, passando a mão pelo muro de pedras como quem se firma em meio à vertigem, e ouve aquilo: alguém grita o seu nome. Não é o pai e muito menos a mãe. Incerto sobre se deve sair correndo ou se esconder, Lúpino se vira na direção da voz e dá de cara com o amigo Domingos.

O vigia da rua também sorri ao ver o menino. Fazia meses que eles não se encontravam. Antes, tinham um pequeno ritual quase diário. De segunda a quinta, quando Lúpino era trazido para casa depois das aulas de natação ou de inglês, ele corria para dar um abraço naquele homem grande e carinhoso, e então os dois ensinavam uma coisa nova para o outro. Lúpino ensinou a Domingos os números até twelve e que o nado borboleta também pode ser chamado de golfinho, o que ele achava errado. Domingos ensinou Lúpino a fazer sanduíche de queijo com banana, o
que o menino achou estranho, mas bom, e ensinou letras de músicas que o menino achava difíceis, mas boas, e Domingos insistia que ele precisava aprender, porque o cantor tinha o nome parecido com o dele: se chamava Lupicínio, e tinha sido um homem muito sábio.

É com o entusiasmo de sempre que Lúpino corre na direção de Domingos, os braços só menos abertos do que o coração. Mas, ao contrário de sempre, Domingos não se abaixa para receber Lúpino e depois erguê-lo no ar. Fica parado, e o menino se agarra às pernas dele, enfiando a cara contra sua barriga. A voz de Lúpino sai toda amarrotada enquanto ele tenta dizer a Domingos que está muito feliz e que tem muitas coisas para contar. Então Domingos dá um passo atrás, se enfia na casinha de vigia e sai dali usando uma máscara de tecido. Lúpino vê pelas marquinhas ao lado dos olhos que ele ainda está sorrindo, mas aquela máscara traz de volta tudo de ruim de que ele estava tentando fugir. Domingos nota, pois logo diz:

– É melhor a gente guardar os abraços para quando-tudo-isso-passar.

Lúpino se senta na calçada fria e apoia as costas contra o portão do prédio. Que traição. Os adultos são mesmo muito conspiratórios. Também Domingos foi cooptado pela seita das distâncias. Domingos já não é jovem, e é com algum esforço que se senta também no chão, apoiado, por sua vez, contra a guarita de vigia. As noites vinham sendo paradas ultimamente, por isso a aparição de Lúpino o alegra em dobro: por ver o menino, e por ter um acontecimento bom em meio à madrugada. Ele aponta para a mão cerrada de Lúpino.

– O que tu tem aí, rapazinho?

Lúpino vai abrindo os dedos quase que um por um, até revelar o dinossauro de borracha.

– É um estegossauro.

A voz dele sai desanimada. Domingos não quer criar alarde. Embora não se considere um homem muito estudado, tem amplo conhecimento da psicologia das criaturas da noite. Sabe que não se pode confrontar diretamente um solitário noturno, é preciso deixar que ele mesmo se aproxime.

– E o que tu vai fazer com esse estegossauro?

Lúpino olha para Domingos. Depois olha para os lados, como se temesse que os pais estivessem à espreita para escutar sua confissão.

– Vou levar pra casa da minha vó.

Domingos conhece a vó Lorena. Com frequência era ela que buscava Lúpino nas aulas e o trazia para casa. Não era uma mulher especialmente conversadeira, mas, ao contrário dos pais, que apressavam Lúpino para subir logo, ela sempre deixava que ele ficasse ali na rua o tempo que quisesse.

– Eu não sabia que a tua vó gostava de dinossauros.

Lúpino ainda olha para os lados.

– A minha vó fez um bolo pra mim.
– Um bolo de quê?
– Chocolate. É sempre de chocolate – ele diz e agora relaxa um pouco a cara franzida.
– Eu nunca comi bolo a essa hora da noite – Domingos responde, buscando com seus olhos os olhos do menino.
Lúpino cede.

– Ela não sabe que eu tô indo agora mas é que a vovó nunca briga comigo e na minha casa todo mundo briga comigo e é verdade que ela tem um monte de bolo de chocolate e ela sempre diz que eu posso falar com ela a qualquer hora.

Domingos entende. Diz isso ao menino: eu te entendo. Também Domingos está morto de saudade do neto dele. Lúpino já sabia que ele tem um neto? Pois sim, e Domingos conta sobre o netinho, pouco mais que um bebê, que ele via todo final de semana, mas que agora está fechado em casa com a mãe dele, sua filha Maíra. Lúpino fica fascinado com toda aquela vida secreta do amigo. Um assombro descobrir que ele tem idade para ter um neto. Lúpino achava que só pessoas de cabelo branco podiam ter netos.

– Domingos, se o teu neto fosse na tua casa a essa hora, tu ia gostar, não ia?

É uma boa armadilha, essa. Domingos precisa ser inteligente, mas sobretudo, sincero. É sempre inútil mentir para uma criança.

– Tudo que eu mais quero é ver o meu neto, rapazinho. Mas eu ia ficar com medo por ele. Essa doença que tá no ar, esse bichinho da doença, a gente nunca sabe onde ele pode estar.

Lúpino enche os olhos de lágrimas e é dolorido para os dois ficarem longe um do outro. A noite silenciosa oferece espaço para a tristeza. As árvores da rua calma do Bom Fim parecem cochichar para não atrapalhar a conversa. Domingos observa o menino à sua frente com a saudade que sente do próprio neto. Conhece Lúpino desde que ele tinha dois anos, quando vieram morar no prédio. Primeiro eram apenas a mãe e ele. Depois começou a aparecer o novo namorado da mãe, que vinha e ficava cada vez mais tempo. Domingos não lembra quantos meses se passaram até
que o namorado viesse de mudança, mas nessa época o menino já se referia a ele como pai.

Um sabiá canta perto da esquina. Domingos não sabe onde Lorena mora, mas sabe que é perto. Pergunta a Lúpino se ele conhece bem o caminho. Lúpino balança a cabeça em sinal de sim. O sabiá continua cantarolando logo em frente. Antes que os olhos de Lúpino se encham de uma esperança excessiva, Domingos apresenta sua proposta: caminhariam juntos até a frente da casa da avó. Lúpino poderia olhar para o edifício e matar um pouquinho da saudade, mas sem entrar. Está bom assim? Lúpino concorda. Seria como quando quebrou o braço aos seis anos. Não podia jogar bola, mas gostava de ver os colegas jogando. Ficava mais fácil de sentir só a parte boa de sentir vontade e não poder.

Domingos se levanta massageando os joelhos. Lúpino já está de pé e estende uma mão para Domingos, exibindo orgulhoso na outra a sua lanterna. Domingos mais uma vez entra na guarita e sai esfregando álcool em gel nas mãos. Passa também nos dedinhos de Lúpino. E então eles começam sua aventura de mãos dadas. Não passam carros nem gente, apenas uma barata desorientada atravessa correndo a calçada irregular. Lúpino guia Domingos pela Castro Alves, atravessam a primeira rua sob o barulho do sabiá. Lúpino está muito concentrado, mas ainda assim pergunta a Domingos por que os passarinhos estão cantando a essa hora.

– Eu não sei – diz Domingos – mas eu acho que eles sofrem de insônia.
– De quê?
– Insônia. É quando a gente quer, mas não consegue dormir.
Acabam de atravessar a segunda rua e Lúpino interrompe um passo no meio e olha para cima, para o rosto de Domingos.
– Eu tenho isso – ele diz. – Eu tenho insônia.
– Faz muito tempo? – pergunta Domingos, e Lúpino não entende ainda, mas é isso o que ele mais gosta no amigo, o fato de que ele nunca duvida e jamais disse que as crianças não têm isso ou não sentem aquilo ou não têm idade para tal coisa.

Lúpino pensa um pouco, mas não sabe. Tinha começado durante a pandemia-temporária, mas quanto tempo era isso? Eles agora dobram à direita e começam a descer uma nova rua. A cidade aqui parece maior porque, lá pra baixo da lomba, se adivinham mais luzes e movimento. Lúpino se sente feliz de poder apertar a mão do amigo. Percebendo que o menino está em apuros com seus pensamentos, Domingos continua:

– Não importa. A coisa é que a gente tem insônia quando fica muito preocupado, mas é normal.

– Eu tô muito preocupado, Domingos?
– Todos nós estamos, rapazinho.
Lúpino para de caminhar e aponta para um prédio do outro lado da rua.
– É ali que a vovó mora.

Eles atravessam. Aqui não há vigia nem porteiro. Lúpino se aproxima das grades e olho para o alto. Conta a Domingos que a avó mora no oitavo andar. Eles ficam um pouco ali, quietos, sempre de mãos dadas. Lúpino ainda está com o pescoço esticado para cima e pergunta a Domingos se ele conhece o albatroz.

– É o maior pássaro do mundo, não é?
– Sim – o menino confirma.
– E onde ele mora?
– Isso eu não sei – Lúpino sacode a cabeça. – Mas eu acho que é num lugar alto que nem o oitavo andar.

O menino se abaixa. Arranca de uma fresta na calçada um pequeno trevo. Comum, de três folhas.
– Eu já tô pronto, Domingos. E tu?
Eles percorrem o caminho de volta com a impressão universal de ser mais rápido voltar do que ir. Na Ramiro Barcelos, um coletor de recicláveis passa por eles vagaroso como um cadáver, e Domingos chega a fazer o sinal da cruz. Lúpino recolhe um resto de papel que caiu do carrinho e ficou pra trás.

– Como é a palavra? De não conseguir dormir.
– Insônia.
O menino fica quieto.
– Quando tu não conseguir dormir – continua Domingos – pode ir pra janela e ouvir os sabiás. Os sabiás cantam pra fazer companhia pra todo mundo que tem insônia. É como uma grande confraria.

Lúpino precisa de mais explicações sobre a palavra confraria, que considera até melhor do que insônia, mas não tão boa quanto arquipélago. De volta na frente do prédio, Domingos questiona se Lúpino consegue subir sozinho. Ele confirma que sim. Com os olhos úmidos mais uma vez, pergunta se não podem mesmo se dar um abraço. Fazem um novo trato: Domingos vai se abaixar, cada um vai virar a cabeça para um lado, eles vão prender a respiração bem firme e se dar um abraço contando só até três. Lúpino aproveita os três segundos com toda a sua capacidade de
concentração.

Agora precisa subir. Daqui a pouco, Domingos também precisa atravessar a cidade para chegar à sua casa. Lúpino pergunta se Domingos também tem insônia, e ele responde que para ele é diferente, porque trabalha de noite, mas promete que vai explicar melhor na próxima vez que se encontrarem. Lúpino abre o portão, sente uma certa tranquilidade em pensar que pode visitar o amigo mais vezes. Abana para ele da porta do prédio e se enfia no elevador quase contente. Abre a porta de casa sem fazer barulho. Passa a chave e corre para a cama. Os sabiás ainda cantam lá fora. Lúpino adormece logo antes de o toque do telefone invadir a alvorada e acordar os pais no quarto ao lado.


Julia Dantas é porto-alegrense, editora, tradutora e doutoranda em Escrita Criativa pela PUCRS. É autora de Ruína y leveza (Não Editora, 2015) e organizadora de Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade (Dublinense, 2020).

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