Folhetim

Capítulo 1 – Pássaros da cidade

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Capítulo 1 – Pássaros da cidade

Albatroz

Ele tem sete anos de idade e uma curiosidade continental. Está agora escondido no quarto, magoado porque a mãe levantou a voz na cozinha quando ele quis ajudar a limpar as compras do super, mas acabou quebrando um pote de pepinos. Primeiro ele ficou assustado com o barulho estridente, mas em seguida observou a pequena lagoa que se formou no piso, organizando os cacos de vidro e os troços de pepinos num arquipélago sobre ladrilhos vermelhos. Então veio o grito da mãe, que o assustou muito mais, tanto mais que ele não entendeu nada do que ela disse, mas ele logo foi colocado em frente à pia e a mãe esfregava sabão nas suas mãozinhas e nos seus lábios. Os barulhos atraíram o pai, que foi encarregado de tirar o filho dali. Por isso agora ele está no quarto, e escuta as vozes dos adultos de longe, sem entender.

Pega o celular-temporário que os pais lhe entregaram apenas para enquanto durar a pandemia-temporária e envia uma mensagem para a avó. Não conta nada sobre os pepinos. Tem medo que a vó também o repreenda por ter quebrado o vidro ou por ter, sem se dar conta, esfregado os dedos nos lábios enquanto se atentava ao arquipélago em formação sob seus pés. Faz três dias que aprendeu a palavra arquipélago e está apaixonado. Quando ninguém está olhando, se permite brincar com a palavra nos lábios, erguendo e baixando as sílabas como se movesse as cordas de uma marionete: ar-qui-pé-lago. Mantém sempre juntas as duas últimas, pois gosta de pensar que, no meio do caminho, a palavra mergulha o pé dentro de um lago. Pélago é como o apelido do nome Arquipélago.

Agora o celular treme com a chamada da avó. Ela sempre prefere ligar. Lúpino se dá conta de que não pensou em nenhuma desculpa pra falar com ela. Estava só em busca de um abraço-distante, mas não quer mencionar os pepinos. Por sorte, a avó nunca exige motivos, e logo vai contando ao neto da alegria de receber a mensagem dele, e também conta que foi no momento exato, pois ela acaba de tirar um bolo do forno. Como sempre, ela diz, vai congelar um pedaço grande pra ele, pra quando-tudo-isso-passar. De que é o bolo, vovó?, pergunta Lúpino, mesmo sabendo que ela vai responder que é de chocolate, o preferido dele, porque sempre é. Adivinha, ela pede, e ele responde só com uma risada.

Lúpino não sabe quanto tempo faz que não se encontra com a avó. Muito, muito tempo. Ele tem certeza que o congelador da vovó já não tem espaço pra mais nada de tantas fatias de bolo que ela está guardando. Quando sente saudade demais, Lúpino fecha os olhos e imagina o dia em que vai sentar com a avó e comer todo aquele bolo, e pensa que vai pedir pra vovó fazer uma cobertura, e pensa que ela vai comer bem pouquinho, só uma lasca de bolo com uma xícara enorme de café. Ela sempre fala que come que nem passarinho, mas Lúpino acha que a avó não tem nada
de passarinho, ele acha que ela é um passarão. A vó é alta, e fala alto, e quando o pega no colo, ele só não sente medo porque a vó também é muito forte. Na escola aprendeu que o albatroz é o maior pássaro do mundo, e Lúpino passou dias namorando aquela palavra: al-ba-troz. Mas isso foi antes de arquipélago, antes da pandemia-temporária e antes de ser proibido sair de casa.

Me conta alguma coisa do teu quarto – a voz carinhosa rompe a distração de Lúpino. Mas de novo, vó?, ele pergunta. Ela responde: procura alguma coisa que tu não tenha visto antes. Ele olha em volta para agradar a avó. Quando ela começou com esse jogo, Lúpino a princípio não entendeu. A vó conhecia o quarto dele, e ele tinha se oferecido para mandar fotos, mas não era isso: ela queria que ele falasse. A vó explicou o que era uma descrição, e pediu para ele descrever o roupeiro. Depois foi a cama, o ventilador de teto, o marco da janela. Até que a avó parou de dar instruções e, a partir daí, pedia que ele mesmo escolhesse alguma coisa. Então vieram a cadeira azul, a caixa de plástico com toalhas, a prateleira com super-heróis. Agora ela inventa com esse novo desafio: algo que ele não tenha visto antes.

– A ponta do pôster do pterodáctilo!
– Como ela é? – pergunta a avó.

– Tá desgrudando da parede – diz Lúpino, sua voz já desprovida da empolgação anterior e tingida de uma certa melancolia causada por aquele pequeno acontecimento que ele ainda não sabe chamar de decadência.

A avó, de sua parte, não desanima:
– Olha mais de perto. Como é?

Lúpino puxa a cadeira azul para perto do pôster. Segura com uma mão o celular; com a outra, se agarra ao encosto da cadeira e se puxa para cima. De pé sobre o assento, firma o equilíbrio antes de aproximar o rosto da pontinha do pôster que se curva para baixo.
– Tá dobrado como uma orelha de burro num livro, vó.
– E como é?
– Por baixo é azul porque é o céu atrás do pterodáctilo, e atrás é branco, mas
um branco sujo, e tem uma teia de aranha.
A avó agora solta um gritinho de emoção. Quer saber mais sobre a aranha.
Mas Lúpino corrige:
– Não, vovó, é só a teia. E é pequena.
– Então a aranha era pequena?
– Vovó, eu já disse que não tem aranha, presta atenção.
– Me ajuda a imaginar, Lúpino. Uma aranha pequena.
Ele pensa um pouco.
– Eu acho que ela era azul. E veio aqui pra se camuflar com o azul do céu do
pterodáctilo.
– Uhum.
– Ou então ela era vermelha, e achou que o céu do pôster era de verdade e
achou que aqui ia ter muitos insetos voando.
– Uhum.
– Ou então ela quis fazer uma toca atrás do pôster.
– Uhum – mas Lúpino para de ouvir porque atrás de si a voz do pai entra no quarto como um trovão mandando-o descer da cadeira agora mesmo.
Os olhos de Lúpino se enchem d’água. Ele não está acostumado a que gritem com ele dentro de casa, e levar bronca da mãe e do pai no mesmo dia é um evento inédito. Não consegue falar. A cara do pai se desmancha e ele se aproxima devagarinho. Lúpino tem os lábios trêmulos. O pai se abaixa e o abraça, pega-o no colo se fosse um nenê e o filho começa a chorar como se fosse um nenê.

– Desculpe, filho, mas se tu caísse podia se machucar.
O resto do dia passa quietinho. Lúpino brinca um pouco com as peças de Lego. Pede pra ver Patrulha canina na televisão, mas a mãe não deixa. Lúpino não entende por que a mãe anda tão insatisfeita com ele. Primeiro veio essa grande conspiração dos adultos proibindo todo mundo de sair de casa. Os pais dele não deixam ele sair de casa; a avó não sai de casa; a professora, quando aparece no quadradinho da tela do computador, diz pra todo mundo ficar em casa. O que mais aborrece Lúpino é a falta de organização da conspiração dos adultos: ninguém sabe quando ela vai acabar. Eles falam o tempo todo em quando-tudo-isso-passar, mas nunca dizem se vai ser antes das férias de verão.

Lúpino vai dormir mais cedo que o normal. Na verdade, isso é o que ele diz aos pais, mas já faz semanas que, quando deita na cama, Lúpino fica olhando para a janela, tentando adivinhar na luz fraca que vem da rua algum sinal do mundo lá de fora. Tem acordado no meio da noite sem saber o porquê, mas nunca conta para os pais. Não sabe como contar. Ele tem sete anos de idade, uma curiosidade continental, mas ainda não aprendeu a palavra angústia. Às vezes, de madrugada, se levanta e caminha sozinho pela casa. É novidade para ele isso de ficar sozinho. Lúpino olha para os objetos da sala e tem esperança de que, como em Toy Story, as coisas comecem a conversar com ele, mas elas não conversam. Às vezes, ele vai até a
porta do quarto dos pais e olha para os dois dormindo. Foi já durante a pandemia-temporária que, pela primeira vez, ele viu os pais dormindo. Sentiu muito medo quando descobriu que os pais dormiam. Por isso de vez em quando ele volta ali, porque a vó lhe disse que os medos só passam quando a gente os enfrenta. Então ele fica na porta do quarto deles, observa como dormem, sente medo, enrosca uma mão na outra e volta correndo pra cama.

Mas hoje é diferente. Hoje a noite está mais comprida e, quando Lúpino se joga de volta no travesseiro, cheio de medo e de enfrentamento, entende que não é só a mãe que está braba. Lúpino também está. Brabo, triste, o coração cheio da revolta dos injustiçados. Sabe que só existe uma pessoa no mundo que o entenderia: a avó. Precisa se encontrar com a avó-albatroz, se enfiar dentro das suas grandes asas. Lúpino pensa um pouco e sai da cama de novo. Ele conhece o caminho para a casa dela. É tão perto. Quando eles vão – ou iam, antes – visitar a vovó, só atravessavam três ruas e só faziam uma curva. Lúpino sabe o caminho e sabe onde ficam as chaves de casa e do portão do prédio. As palavras da avó ressoam na sua
cabeça: os corajosos não são os que não sentem medo, mas os que enfrentam o medo. Ele veste um blusão de lã, coloca os tênis e agarra um dos dinossauros de borracha na caixa de brinquedos. Antes de sair do quarto, lembra de pegar também uma lanterna. Ter lembrado da lanterna lhe dá a confiança de um homem preparado para uma missão. Vai em silêncio até a porta de saída. Precisa ficar na ponta dos pés para alcançar as chaves. Abre a porta e vai em frente. Entra no elevador com os braços cruzados sobre o peito. Ele não percebe, mas faz tanta força que o dinossaurinho de borracha está deixando marcas sobre a pele. Lúpino chega ao térreo com a coragem de quem chega à lua. A porta do prédio fica sempre aberta e a
chave verde é a do portão. Ele sabe, já viu os pais fazerem isso mil vezes. Sente o ar frio da noite e, em vez de sentir medo, já pode sentir o cheiro dos bolos da avó. A chave verde gira fácil, ele sai para a calçada e fecha o portão atrás de si.


Julia Dantas é porto-alegrense, editora, tradutora e doutoranda em Escrita Criativa pela PUCRS. É autora de Ruína y leveza (Não Editora, 2015) e organizadora de Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade (Dublinense, 2020).

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