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Portas Porto Alegre 5: Gorgonzola – um choque de 110 volts

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Portas Porto Alegre 5: Gorgonzola – um choque de 110 volts
Aprendeu rapidinho que quanto maior a letra, menor a chance de ilegibilidade: escrever miúdo numa caderneta de bolso era lastro pra garranchos às vezes indecifráveis produzidos a bordo do minhocão da Bento até o terminal de integração e em seguida no Agronomia ou ao voltar com o da Carris até o Mercado pra feira a caminho de casa.  Ao devolver ao papel a dobra das cartas, lidas sempre a caminho do campus, deixava-se tomar pelas notícias vindas de longe e eventualmente anotava frases-chave pra sua resposta na pequena caderneta sacada do bolso. Fosse pra isso, pros itens de supermercado, pras tarefas que envolviam deslocamento ou pra qualquer outra anotação que julgava importante, um pouco a cada dia ia riscando na caderneta seu mapa passageiro nos lugares de Porto Alegre por onde já se arriscava.  Mas ainda que ilegível, a nota precedida de data, hora e do nome da rua transversal ou de um ponto de referência já conhecido – o maior supermercado que já vira, o HPS, a boutique chique com o nome dela na Oswaldo Aranha – em geral lhe devolvia as informações que ajudavam a decifrar as feias letras, bastando retomar as notas datadas. E apenas uma vez a anotação na caderneta, apesar de bem legível, se tornou obsoleta em curtíssimo prazo.  Lida do ônibus em movimento, a fachada da loja Dias&Dias conserto de eletros escapou-lhe da vista num átimo, mas rápida espichou o pescoço e o olho a tempo de memorizar o número do telefone antes de puxar do bolso a caderneta de emergência pra situações como essa. Herdara da família um três-em-um 220. Bastava mudar a voltagem pra 110, disseram, e sem nunca antes ter trocado uma lâmpada, deduziu que precisaria de um serviço especializado pra poder usar na capital o aparelho de som, luxo herdado da família. “Má-nó, tchó”, esclareceu o pai a tempo de ela não sair carregando o trambolhão a tiracolo e não pagar o mico dos Dias, Partenon acima e por toda a vida.  Desse ela se safou, mas não de um outro, tão vergonhoso quanto iniciático. Foi devolver seu primeiro gorgonzola confiante na civilidade e cortesia dos atendentes no Zaffari e certa de que sua reclamação seria acolhida sem percalços.  Mas a notícia reiterada primeiro pelo atendente, depois pelo gerente e enfim por outros clientes, progressivamente amontoados ao seu redor quanto mais Úrsula baixava o tom e os olhos, não lhe deixava outra saída a não ser enfim resignar-se: o queijo, “fate furba!!!”, não estava estragado.  Recolheu as curtas asas e perambulou entre as gôndolas disfarçando a vergonha até se assegurar de que as testemunhas do seu mico gourmet já estavam no caixa, a poucos metros da calçada na Fernando Machado. Voltou então ao balcão dos queijos e demorou-se ali, cheirando e apalpando um pedaço de cada preço, disparates os quais, ainda que fracionados, não cabiam no seu bolso. Úrsula decidiu que queijos eram seu outro destino a conhecer em Porto Alegre e passou a escolher um deles diferente a cada […]

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