Folhetim

Quem quer ser a mãe do João? Cap. 2

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Quem quer ser a mãe do João? Cap. 2

A HORA DE CACHORRO ACORDAR

O João acordou cinco horas da manhã na segunda-feira.

– Mãe, eu quero ir lá pintar o cachorro do Léo. 

A Mãe custou a firmar as vistas na cara do João, pegou os óculos e olhou as horas. 

– Seu tio Léo não tá acordado ainda, João, ninguém tá acordado ainda, meu filho, só você. 

– Você também. 

– Sim, mas eu não queria acordar agora. 

– Por quê?

– Porque não tá na hora de acordar. 

– Por quê?

– João, são cinco da manhã. Cinco e onze da manhã. 

– Mas eu ouvi cachorro latindo, então já tá na hora de cachorro acordar. 

– Mas não tá na hora do tio Léo acordar nem de eu acordar nem de você acordar. Cinco e doze, João. Vai dormir por favor.

João saiu, a mãe tirou os óculos e já estava quase adormecendo de novo.

– Mãe, eu tô com um pouco de fome. 

– Faz um toddy. Come biscoito, sei lá. – A mãe mal conseguia firmar as palavras, não tinha certeza de onde estava entre o sonho e a realidade. Se tivesse voltado a dormir naquele momento teria acordado às 8 sem saber ao certo se o João acordou de fato ou se ela sonhou com isso.  

Em seguida, um barulho na cozinha. Alto, estridente, vidro quebrando. Parecia ter caído de um lugar alto, parecia ter batido em algum lugar antes de cair e quebrar, fez “pá” e em seguida “crash”. Vidro na cozinha, caído de um lugar alto. O pote de biscoito em cima do armário. O JOÃO QUEBROU O POTE. 

Levantou num pulo, num movimento só tirou a coberta, botou os óculos e calçou o chinelo, em dois segundos estava na cozinha. Teve que se apoiar no marco da porta pela tontura da adrenalina. João estava pálido sem reação em pé, em choque. Tinha cortado a mão. 

Se machucar era um imenso gatilho pro João. Ele sentia que estava morrendo quando via sangue, mesmo se fosse o sangue de outra pessoa. Quando a Mãe viu o menino segurando a mão cortada, já sabia que aquele seria um longo dia. 

– Tá tudo bem, deixa eu ver. Só cortou o dedo, não precisa ficar assustado.

– Meu sangue tá saindo, eu vou morrer, mainha. 

– Vai nada, João, vem cá, vamo lavar na pia.

– Eu vou morrer, mainha, meu sangue tá saindo aqui ó. – João chorava lágrimas grossas de pânico puro. A voz já alta demais pro horário, quase um grito.

– Calma, menino, só colocar um band-aid. 

– Mãe, eu amo você, eu não quero morrer. 

A Mãe parou de lavar o dedo do João por um microssegundo e olhou pra ele. Tinha muito tempo que ele não dizia isso. É claro que ela sabia que ele a amava, aliás, era de se esperar que ele a amasse depois de tantos anos vivendo por ele. Mas quando ele dizia a frase tinha outro gosto. Quando o “eu te amo” é em voz alta é como uma agulha de injeção de amor, vem de fora pra dentro. Existe uma diferença entre ser amado e se sentir amado. 

– Você não vai morrer, João. Eu prometo. 

João parou de gritar e começou a chorar baixinho, sentido. Ainda com medo, ainda assustado, mas confiante na promessa da Mãe, ela nunca havia quebrado uma promessa em toda sua vida. Chorou até dormir de novo e só foi acordar depois das onze. Na correria a Mãe até esqueceu de limpar o vidro do chão e acabou cortando o pé. O corte a fez lembrar. Limpou o vidro, sentou na mesa, pegou o caderninho e escreveu: “Hoje meu filho disse que me amava quando pressentiu a morte. Era só um corte no dedo mas eu sei que pra ele isso é quase morte. Se fosse o meu pai teria dado nele um couro, meu velho jamais entenderia que o João quando sente dor ele sente a morte. Talvez eu seja a única pessoa nesse mundo todo que não acha que ele estaria melhor morto, ou que eu estaria melhor se ele estivesse morto. Eu vivo pro João viver, sem mim esse mundo não deixa ele viver.”

João passou o resto do dia amuado vendo desenho e a Mãe ocupada vendendo as coisas pelo WhatsApp. Recebeu uma ou duas mulheres escandalosas pra provar bijuteria. Lavou roupa, fez bolo, tirou um cochilo na cadeira da cozinha mais ou menos lá pras seis, sete horas, sem nem perceber. Acordou com o João gritando. 

– MÃE! Eu não fui no tio Léo e agora já tá na hora de cachorro dormir! – E começou a chorar imediatamente. 

João só foi dormir lá pras 3 da manhã, exausto de tanto chorar. “Léo nem pra responder no WhatsApp pra tranquilizar o menino também”, pensou a Mãe. João pegou no sono e a mãe adormeceu ali, escorada no travesseiro dele, deitada de mau jeito em volta do João feito a casca de um pão de forma. Dormiram cansados até tarde. Não viram quando deu hora de cachorro acordar de novo.

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