Folhetim

Quem quer ser a mãe do João? Cap. 4

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Quem quer ser a mãe do João? Cap. 4 Insuportável A Mãe acordou e instantaneamente suas costas ficaram insuportáveis. Tinha dormido de mau jeito e amanheceu toda travada. Adormeceu no sofá com o celular na mão, o pescoço todo torto de deitar no braço duro já com a madeira quase exposta. Tentou esticar o corpo e foi pior. Pegou o celular e viu que ele passou a noite inteira fora do carregador, o que era fantástico de saber depois de dormir no sofá só pra poder usar o celular perto da tomada. Imediatamente o dia ficou insuportável. A boca seca, os olhos inchados, dor de cabeça. Seu corpo inteiro estava insuportável. Não sabia onde estava a merda do óculos, não estava enxergando nada. Honestamente, ela estava apática, não aguentava mais sofrer, não aguentava mais chorar, fisicamente mesmo. Mas aí a casa ficou insuportável.  Tudo na casa tinha mancha de tinta, tudo quanto é textura de tinta. João brincava com qualquer coisa que pintasse, tinta de cabelo, beterraba, urucum, borra de café, ele dizia que gostava de tirar cor das coisas. Não passava nem 15 minutos limpo, todas as suas roupas eram manchadas, ele às vezes gostava só de pegar um pincel e cobrir, com muito cuidado, toda a superfície da palma da própria mão de azul. As contas das cortinas de miçanga que tinha no lugar de quase todas as portas no barraco tinham manchas de tinta e de sujeira do João. A Mãe tinha pavor delas geralmente, mas naquele dia cada mancha na parede trazia mais dor.  Os espelhos sempre cobertos com panos, os bilhetinhos que o lembravam de escovar os dentes, de colocar as coisas no lugar, de tomar os remédios, as rotinas, os hábitos. O quê que tinha naquela casa sem o menino? Até ela parecia parte da mobília daquele aparato que cercava o filho, não conseguia se localizar na casa. Não achou o cigarro pra fumar, o óculos pra por na cara, nada. Sentou no sofá e parou dois minutos pra tentar não sentir nada. Foi interrompida pelo barulho do Léo abrindo o portão pela gambiarra não eram nem sete e meia ainda. Quase sentiu alívio ao ver o irmão entrar na casa, mas ele foi mais rápido. – O povo já ligou pra saber do João? Sem “oi, fulana”, sem “bom dia”, sem nada antes. Trouxe uma sacola de pão, que botou na mesa da cozinha, que na verdade ficava na sala porque a casa não tinha muitos cômodos. A mãe olhou e pensou “que estranho essa mesa na sala”. Abaixou a cabeça e começou a chorar não sabendo o motivo mais.  – Ou! Cê tá me ouvindo? Cê tá passando mal? Quer que leva ocê na UPA? – Eles não ligaram ainda não, tô esperando.  – Cê tomou o remédio da pressão hoje, doida?  – Tomei – mentiu a mãe. Léo não disse mais nada e foi passando um braço tímido por cima do ombro da irmã, que desabou em choro.  – Eles vão achar o Joãozim, Deus é pai. Fica assim não. […]

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Insuportável A Mãe acordou e instantaneamente suas costas ficaram insuportáveis. Tinha dormido de mau jeito e amanheceu toda travada. Adormeceu no sofá com o celular na mão, o pescoço todo torto de deitar no braço duro já com a madeira quase exposta. Tentou esticar o corpo e foi pior. Pegou o celular e viu que ele passou a noite inteira fora do carregador, o que era fantástico de saber depois de dormir no sofá só pra poder usar o celular perto da tomada. Imediatamente o dia ficou insuportável. A boca seca, os olhos inchados, dor de cabeça. Seu corpo inteiro estava insuportável. Não sabia onde estava a merda do óculos, não estava enxergando nada. Honestamente, ela estava apática, não aguentava mais sofrer, não aguentava mais chorar, fisicamente mesmo. Mas aí a casa ficou insuportável.  Tudo na casa tinha mancha de tinta, tudo quanto é textura de tinta. João brincava com qualquer coisa que pintasse, tinta de cabelo, beterraba, urucum, borra de café, ele dizia que gostava de tirar cor das coisas. Não passava nem 15 minutos limpo, todas as suas roupas eram manchadas, ele às vezes gostava só de pegar um pincel e cobrir, com muito cuidado, toda a superfície da palma da própria mão de azul. As contas das cortinas de miçanga que tinha no lugar de quase todas as portas no barraco tinham manchas de tinta e de sujeira do João. A Mãe tinha pavor delas geralmente, mas naquele dia cada mancha na parede trazia mais dor.  Os espelhos sempre cobertos com panos, os bilhetinhos que o lembravam de escovar os dentes, de colocar as coisas no lugar, de tomar os remédios, as rotinas, os hábitos. O quê que tinha naquela casa sem o menino? Até ela parecia parte da mobília daquele aparato que cercava o filho, não conseguia se localizar na casa. Não achou o cigarro pra fumar, o óculos pra por na cara, nada. Sentou no sofá e parou dois minutos pra tentar não sentir nada. Foi interrompida pelo barulho do Léo abrindo o portão pela gambiarra não eram nem sete e meia ainda. Quase sentiu alívio ao ver o irmão entrar na casa, mas ele foi mais rápido. – O povo já ligou pra saber do João? Sem “oi, fulana”, sem “bom dia”, sem nada antes. Trouxe uma sacola de pão, que botou na mesa da cozinha, que na verdade ficava na sala porque a casa não tinha muitos cômodos. A mãe olhou e pensou “que estranho essa mesa na sala”. Abaixou a cabeça e começou a chorar não sabendo o motivo mais.  – Ou! Cê tá me ouvindo? Cê tá passando mal? Quer que leva ocê na UPA? – Eles não ligaram ainda não, tô esperando.  – Cê tomou o remédio da pressão hoje, doida?  – Tomei – mentiu a mãe. Léo não disse mais nada e foi passando um braço tímido por cima do ombro da irmã, que desabou em choro.  – Eles vão achar o Joãozim, Deus é pai. Fica assim não. […]

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