Folhetim

Quem quer ser a mãe do João? Cap. 1

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Quem quer ser a mãe do João? Cap. 1

– Não gosto mais de pintar quadro. 

João tava lá sentado no meio do quarto, tinta pra todo lado, papel rasgado, tudo pelo chão. Tinha destruído tudo. A bagunça do material de pintura contrastava com o quarto que era estranho de tão organizado. Na verdade o quarto não era tão organizado assim, era do jeito do João. Pra qualquer um de fora que visse parecia até levemente bagunçado, ninguém entendia o porquê de certos objetos ficarem tão fora do lugar enquanto outros nunca se moviam. A única coisa que sempre esteve exatamente no mesmo lugar desde o primeiro dia era o material de pintura, que agora jazia no chão em frangalhos. 

– O quê que te deu, João? E o quadro do cachorro do Léo que cê falou que ia fazer, ele tá esperando.

– Não gosto e não vou mais pintar quadro nenhum. 

Era uma cena até meio ridícula. João era um menino comprido de quase 12 anos de idade, todo bonitinho, o cabelo trançadinho pra trás estilo basquete. No entanto ali estava ele no chão, cheio de tinta a óleo nas canelas, a roupa toda suja, tentando em vão limpar uma mancha azul ciano do chão de taco com um pedaço de folha canson que não limpa nada. 

– Tudo bem, João, não precisa. Mas vamo pelo menos limpar essa bagunça? 

– Eu vou limpar, eu já tava limpando, ó.

– Eu não acho que esse papel seja bom pra isso, João, vamo passar outra coisa. 

– Eu vou conseguir sozinho. 

– Eu sei que sim. Mas você deixa a mãe ajudar?

– NÃO!

João estava com a macaca. Em dias assim é até perigoso pra Mãe, coitada, com seus um metro e cinquenta e poucos de altura. Em dias como esse às vezes ele ficava agressivo, às vezes queria colo. A Mãe não dava conta de nenhuma das duas coisas mais. “Quem pariu João que balance”, pensou ela. 

A Mãe deixou o João no quarto esfregando o pedaço de papel canson caríssimo rasgado na tinta a óleo em cima do chão de taco sabendo que ia manchar. Ela tava cansada. Resolveu ir olhar o feijão no fogo e responder o whatsapp, tentar vender uma lingerie pra filha da vizinha a todo custo. Tinha mais o que fazer.

O telefone tocou, a Mãe só limpou a mão no pano de prato e atendeu com a ponta do dedo, encaixou o telefone no ombro e disse “alô”. Em seguida precisou sentar antes que a pressão baixasse. 

– Ô das Dores, eu tô sentindo falta do João – disse a voz do Pai em prantos.

– Agora, Zé? Só agora? – E desligou na cara dele. 

Voltou a fazer o almoço dessa vez mais agitada, mexia as panelas com agonia, encostava nas beiradas quentes sem muito cuidado, batia as tampas com uma certa raiva, fazendo o máximo de barulho. “Saudade do João”, pensou. “Saudade uma ova! Isso sim. Nunca prestou pra nada, aquele vagabundo cachaceiro, aquilo ali é um cracudo, isso sim. Um nóia”. 

– Mãe 

– Quê que foi, João?

– Era meu pai no telefone?

– Era não, era engano. Lava a mão pra almoçar. 

Serviu o prato do menino e pôs na mesa. Pegou um cigarro e foi acender no quintal. A Mãe até tremia um pouco, de tanta raiva. Não quis deixar o menino ver o olho dela encher de água, mas queria gritar. Dentro daquela casa ali era sempre ela e João, João e ela, 24 horas por dia, desde sempre, ninguém nunca deu um puto, ninguém nunca ajudou. Ninguém queria saber do filho dela, muito menos o pai. O que era aquilo agora? O Pai tava com a mania de encher a cara de cachaça e ligar chorando falando que sentia saudades do menino, que queria casar com ela. “Mas é nunca”, ela pensava. 

O menino almoçava em paz na cozinha com as canelas ainda cheias de tinta. A Mãe puxou do bolso e abriu o caderninho que estava fazendo de diário há uns tempos por recomendação do psiquiatra, tirou uma caneta bic do cabelo e escreveu “Querer ser pai 12 anos depois é fácil, quem quer ser a mãe do João?” e fechou.

Passou o resto do dia respondendo whatsapp, vendendo Avon, Natura, lingerie, Mary Key. Eventualmente limpou o quarto do João, conseguiu salvar umas duas folhas de canson, mas não conseguiu tirar o azul do chão de taco. Tomou um banho e foi ver novela. Ninguém queria ser a mãe do João, nem ela.


Pieta Poeta – é professor, escritor, artista cênico e músico de Belo Horizonte, campeão mundial de poesia falada. Publicou 4 livros pela editora Venas Abiertas e 16 zines de produção independente.

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