Forma e Função

O prédio como organismo vivo: como Porto Alegre se relaciona com seu patrimônio histórico

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O prédio como organismo vivo: como Porto Alegre se relaciona com seu patrimônio histórico Foto: Ferragem Gerhardt/Divulgação

Três exemplos de como a capital gaúcha lida com a memória das suas edificações

Na fachada bordô do número 120 da rua Voluntários da Pátria, aparecem dois letreiros. Em alto relevo e camuflado com a mesma cor do resto do imóvel, está o da Sociedade Maisonnave Representações, que carrega uma longa história de investimentos no sistema bancário de Porto Alegre. Em contraste, destacado em branco, vemos o letreiro da Ferragem Gerhardt, empreendimento de quase cem anos que deixará de existir em breve.

A família Gerhardt não pretende seguir no ramo. Segundo Neudi Barilli, gerente do local, o fechamento está previsto para o fim de agosto, e não se sabe qual destino será dado ao andar térreo da antiga sociedade. Os letreiros externos mostram promoções que vão de utensílios de aço inox a escadas, chuveiros e torneiras. O espaço, de quase 900 metros quadrados, deverá ser dividido em várias lojas para facilitar o aluguel, segundo a colunista de GZH Giane Guerra.

O que se sabe é que o imóvel está listado como patrimônio histórico da Capital, como um bem de estruturação. Segundo a Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, isso significa que o casarão é considerado um elemento significativo da paisagem cultural da Voluntários da Pátria, e, portanto, não pode ser destruído. Chamada de Caminho Novo no século XIX, a rua hospedou os trilhos ferroviários da estrada que ligava Porto Alegre a São Leopoldo a partir de 1874. Os sobrados se transformaram em grandes armazéns de atacado, mais próximos ao Centro, e de indústrias, perto do Quarto Distrito. 

O prédio é um dos 5,2 mil imóveis inventariados como patrimônio cultural de Porto Alegre, dos quais mais de 1,1 mil estão no Centro Histórico. Em Porto Alegre, uma edificação pode ser legalmente protegida por inventário, tombamento ou área de interesse cultural. O prédio tombado tem que ser preservado na íntegra, com todas as suas características. Já o inventariado, como no caso do casarão onde está a ferragem, pode ser reformado internamente, mas as características externas precisam ser preservadas. 

Qualquer pessoa física ou jurídica, proprietário ou não, pode solicitar a preservação de bens culturais em Porto Alegre. Para tanto, é necessário enviar à Epahc (Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural) uma correspondência indicando o endereço do imóvel, o nome e o endereço do interessado e, se possível, quem é o proprietário e dados históricos, desenhos e fotos sobre o bem. Segundo a prefeitura, esses dados facilitam a avaliação dos pedidos.

O entendimento da importância do patrimônio é fundamental para a compreensão da cidade e da sua história, destaca Lucas Volpatto, professor, arquiteto e presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural (Compahc). Para ele, “a preservação é um benefício”, mas nem sempre é vista assim pelos proprietários de imóveis, especialmente daqueles tombados. “O que falta é informação. A pessoa que tem um imóvel tombado ou inventariado não pode se sentir punida”, diz. Volpatto reconhece que há limitações para quem possui um bem tombado ou inventariado, mas afirma que também existem benefícios. Os imóveis que fazem parte do inventário da cidade, por exemplo, podem ficar isentos do pagamento de IPTU e de taxas referentes aos processos de intervenções físicas, desde que o imóvel seja conservado. 

Para o arquiteto, é preciso estimular o sentimento de pertencimento em quem possui imóveis de valor cultural ou histórico para a cidade. “Assim como a gente veste uma camiseta do Grêmio e do Inter e se sente pertencente ao Rio Grande do Sul. Falta a gente gostar das cidades. As cidades estão relacionadas com a autoestima dos seus cidadãos. Talvez a nossa autoestima esteja baixa”, observa.

Fãs mobilizados contra demolição da antiga casa de Caio Fernando (Foto: Isabelle Rieger)

A casa de Caio Fernando Abreu

Na tarde do dia 18 de julho de 2022, um sobrado neocolonial na rua Oscar Bittencourt, bairro Menino Deus, foi demolido. Do lado de fora, pessoas lamentavam a ação das máquinas e levavam consigo tijolos como lembrança. A casa hospedou, por alguns anos, Caio Fernando Abreu, um dos maiores escritores do Rio Grande do Sul. Parte dessa história foi contada pelo jornalista Carlos André Moreira.

Caio morreu em 1996 e o imóvel foi perdido pela família. Em 2006, o sobrado foi arrematado em leilão por um corretor, e passou a ser oferecido para venda ou aluguel. Isso mobilizou fãs, amigos e leitores de Caio Fernando Abreu a preservar o imóvel, descrito muitas vezes pelo escritor nas suas obras. Foi lançado um site chamado “Salvem a Casa do Caio Fernando Abreu”, liderado por Andréa Beheregaray, segundo conta Liana Farias, jornalista, produtora cultural e presidente da associação dos amigos do escritor. 

“Começamos uma movimentação. Na ocasião, contatamos o departamento de arquitetura da PUCRS. Fizeram uma visita técnica, iniciamos o desenho de um projeto. Imaginamos que aquilo poderia ser um centro cultural. Rapidamente a casa foi vendida. Contatamos os donos, que entenderam a importância do espaço, se comprometeram a não descaracterizar a fachada e aceitaram a ideia de colocar uma placa. Andréa contatou a Secretaria de Cultura na época, mas por essas coisas de mudança de governo, isso não foi concretizado”, relembra Farias.

Desenho do sobrado onde morou Caio Fernando Abreu (Foto: Leandro Selister)

O terreno virou objeto de desejo por parte do mercado imobiliário. Após anos de desocupação, o sobrado teve autorizada a demolição em abril deste ano, e em julho começou a ser demolido – o que foi revelado pelo Sul21 no dia 16. A notícia causou comoção não só entre os fãs do escritor, mas no meio cultural do Brasil: colunistas do UOL, da Zero Hora e da Carta Capital criticaram o ato. A condenação do imóvel foi sumária: dois dias depois da publicação da reportagem, a edificação estava no chão, sob protestos de dezenas de pessoas que foram ao local.

O muro do sobrado continua de pé (Foto: Leandro Selister)

“A gente não soube a tempo. Entramos com uma ação pública logo após a primeira matéria do Sul21, mas antes da resposta, a casa já estava abaixo. Nós, da associação, ainda buscamos uma retratação disso. Vão construir o que lá? Seja o que for, que tenha uma placa, um monumento, que tenha uma memória. Muito para além dos muros, o jardim ficou, a palmeira ficou. Queremos que a secretaria de Cultura nos apoie, que reconheça a importância disso para a cidade e o País também, uma vez que Caio é um dos autores mais importantes do Brasil”, afirma Farias.

Para Volpatto, a demolição é um exemplo do quanto precisa ser melhorada a relação da cidade com o seu patrimônio histórico. “É absurdo você demolir uma casa neocolonial como aquela no Menino Deus. Por que ela tem valor no Petrópolis e não ali? E ainda tinha o vulto do Caio Fernando Abreu, um gênio que talvez seja o escritor gaúcho mais importante depois de Mário Quintana. Isso mostra que a nossa lei é frágil e que Porto Alegre não tem uma política efetiva de preservação”, diz o arquiteto.

No bairro Petrópolis, aproximadamente 300 imóveis foram incluídos no inventário em 2014, após uma mobilização de moradores do bairro, o que causou polêmica e disputa judicial que se estendeu até 2019. Entre os imóveis preservados estão sobrados com característica neocolonial espanhola e californiana, que são interpretações atualizadas das arquiteturas espanholas e portuguesas. Entre os atributos que destacam os sobrados neocoloniais, como a casa demolida onde morou Caio Fernando Abreu, estão a frente curva com rebocos encrespados, varandas e paredes com tijolos aparentes.

O início do processo de restauração da sede do IAB/RS (Foto: IAB/RS)

O solar do Conde de Porto Alegre

São necessários 12 minutos de carro e algumas centenas de anos de história para sair da casa de Caio Fernando Abreu e chegar ao imóvel localizado na esquina das ruas Riachuelo e General Canabarro, no Centro Histórico da Capital. Ali fica localizado o solar do Conde de Porto Alegre, título dado a Manuel Marques de Sousa, conhecido por liderar a resistência imperial contra os revolucionários farroupilhas na atual capital gaúcha. 

O prédio foi erguido em 1855, ano em que Souza se casou com Bernardina Paiva – que recebeu o solar como presente de casamento – e deixou o serviço militar a fim de iniciar uma carreira política. No ano seguinte, ele conseguiu se aposentar como tenente-general, na época a segunda mais alta patente do Exército brasileiro, prêmio por ter combatido em prol do império brasileiro nas guerras contra Artigas, da Cisplatina, do Prata e dos Farrapos. 

Sua estada no Solar não durou muito: em 1866, deixou o posto para combater na Guerra do Paraguai. Retornou a Porto Alegre, onde liderou uma sociedade pela libertação de crianças escravas, mas foi eleito deputado federal em 1871 e se mudou para o Rio de Janeiro, onde morreu quatro anos depois. 

A monarquia caiu e levou consigo os louros dados ao conde: no início do século XX, já de posse de novos proprietários, o solar começou a se deteriorar e foi vendido pelo governo do Estado nos anos 1930. A gestão estadual transformou o prédio em quartel policial. Durante a ditadura militar, foi denominado de “calabouço do rato branco” e transformado em centro de detenções temporárias e tortura de opositores políticos do regime, segundo relato de Félix da Rosa a Raul Ellwanger.

Hoje as marcas de dor  são invisíveis no sobrado tombado pelo município em 1998: o primeiro andar hospeda o centro cultural onde habita o Grupo Cerco, responsável por oficinas de teatro e ensaios de peças multitudinárias como Arena Selvagem. O segundo é a sede do departamento gaúcho do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RS) desde os anos 1990. Além de eventos, oficinas e do bar do IAB, o prédio ainda preserva a memória da arquitetura gaúcha, possível graças ao patrocínio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Estado.

Mantida em seu estilo neoclássico – que “já se encontra consolidado no imaginário de Porto Alegre”, segundo cita Ediolanda Liedke ao site do IAB-RS –, a fachada do solar está em reforma e não será pintada de branco, a cor original da construção. Adotará o tom coral que marcou a tomada da edificação como símbolo da arquitetura gaúcha. “Vamos deixar a cor mais semelhante ao que foi pintada no início dos anos 2000. Ele é um novo organismo, não é mais o solar do Conde, ele é o solar do IAB. Quando ele é restabelecido, ele vira um ponto de cultura, que agrega a classe dos arquitetos”, destaca Volpatto, que está envolvido no projeto de restauro do imóvel.

“É uma ressignificação. Assim se transforma a cidade, mas a gente não nota isso. O Hotel Majestic, que vira Casa de Cultura, a Usina, que vira símbolo de resistência… Esses significados que são absorvidos pela população surgem da iniciativa de alguém, normalmente, um trabalho dos arquitetos. A gente pensa a cidade de um ponto de vista técnico – complementa Volpatto.

Restauração do espaço interno (Foto: IAB/RS)

A ressignificação é o caminho que a Associação dos Amigos de Caio Fernando Abreu pretende tomar para manter o legado do escritor vivo no espaço público. A organização busca apoio da Secretaria de Cultura de Porto Alegre na preservação da memória de Caio, após a derrubada do sobrado neocolonial. Uma liminar na Justiça suspendeu outros atos de demolição no local, como eventuais retiradas dos muros e de outros bens que estão no terreno. 

Liana Farias cita como um exemplo o trabalho da Secretaria Municipal de Cultura de Santiago, onde nasceu não apenas Caio, mas outros nomes fulcrais da cultura gaúcha, como Aureliano de Figueiredo Pinto, Túlio Piva e Adelmo Genro. Com base em memórias sensoriais, a prefeitura local tenta mostrar aos turistas os caminhos percorridos pelos poetas e a sua relação com a cidade. 

Para Farias, há uma alternativa para que a memória histórica da cidade seja preservada. “Se trabalharmos de forma organizada e nos mobilizarmos para inscrever projetos e buscar recursos que possam alcançar esse objetivo comum, vamos chegar lá. Caio queria ser amado pelo que escreveu, e ele é”, afirma Farias, que chama a sociedade a apoiar a associação e se engajar nos projetos que estão por vir, entre eles, a preservação do trabalho feito em Santiago, para que novas histórias sejam construídas com a memória.

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