Galeria breve, Parêntese

Graça Craidy: Maria, Maria

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Graça Craidy: Maria, Maria Pouca gente sabe, mas Maria Coussirat Camargo (Porto Alegre, 1915-2014), a dedicada esposa do pintor gaúcho Iberê Camargo (Restinga Seca, 1914-1994), abandonou uma quiçá brilhante carreira nas artes depois que casou com ele, tornando-se seu braço direito – desde que não mexesse em tintas e pincéis -, e a maior guardiã do seu acervo, alicerce da futura Fundação Iberê. Aliás, mais que braço direito, Maria foi sua provedora. Durante um bom tempo, como quando moraram no Rio de Janeiro, onde Iberê estudava com Guignard, sua bolsa mal cobria seu material, e quem sustentou a casa como desenhista de arquitetura foi Maria.  Feito Amélia, a mulher de verdade da marchinha de Mário Lago e Ataulfo Alves – modelo feminino da época, em que a mulher é sempre a amantíssima e sorridente coadjuvante do lar -, Maria entendeu que se alguém teria que se sacrificar seria ela. Justificou: “A gente sabe se o trabalho é forte ou não. Eu tinha consciência que o meu não era.” O dela não era. O dele, sim, ponto de exclamação. Sempre a naturalização histórica da superioridade masculina e à mulher o papel de “por trás de um grande homem”, jamais ao lado, menos ainda à frente.  E havia também o problema do dinheiro. Segundo Maria, em entrevista à Paula Ramos para a revista Aplauso, nos anos 90, impossível dois artistas se sustentarem na mesma família. Alguém tinha que cuidar da parte prática: “Eu sou muito realista, sou pé no chão” – ela teria dito. E lá se foi Maria ser droîte na vida – organizadora, catalogadora, secretária -, já que gauche só quem podia ser era Iberê, expressionista visceral. Em vez de governante de sua própria arte, Maria se assumiu – com o perdão da crueza – governanta do marido pintor. Formada pelo Instituto de Belas Artes/ UFRGS (1937-1940), Maria – que vinha de uma família modesta mas culta, todas as mulheres, por exemplo, tocavam piano – possuía um interessante trabalho em retrato e paisagem. Percebe-se em seus retratos o domínio da carnadura, proporção, luz, sombra, volume, a elegante escolha de cores, e se pode farejar ali a influência de João Fahrion, provavelmente seu professor no IBA. A mesma competência no traço, na composição e nas cores, se repete em suas paisagens, com inspirações comparáveis às de seu provável mestre, Angelo Guido, professor do IBA, então. Eu diria até que os quadros dela eram mais vendáveis que os de Iberê, se a questão fosse essa, mesmo. A do dinheiro. E não a do machismo secular, histórico e cultural. Se era por amor, como alegam alguns, por que ele nunca se sacrificou pela arte dela? Com apenas 24 anos, Maria revelava-se uma artista de qualidade, com potencial para continuar (e brilhar) na carreira como suas colegas do IBA Alice Brueggemann, Cristina Balbão, Hilda Goltz. Depois do casamento, sua arte desapareceu. Pelo que se sabe, só houve espaço para a prática de arte ao homem da casa, Iberê Camargo. Testemunhas dão conta de que certa feita, já superadas […]

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Pouca gente sabe, mas Maria Coussirat Camargo (Porto Alegre, 1915-2014), a dedicada esposa do pintor gaúcho Iberê Camargo (Restinga Seca, 1914-1994), abandonou uma quiçá brilhante carreira nas artes depois que casou com ele, tornando-se seu braço direito – desde que não mexesse em tintas e pincéis -, e a maior guardiã do seu acervo, alicerce da futura Fundação Iberê. Aliás, mais que braço direito, Maria foi sua provedora. Durante um bom tempo, como quando moraram no Rio de Janeiro, onde Iberê estudava com Guignard, sua bolsa mal cobria seu material, e quem sustentou a casa como desenhista de arquitetura foi Maria.  Feito Amélia, a mulher de verdade da marchinha de Mário Lago e Ataulfo Alves – modelo feminino da época, em que a mulher é sempre a amantíssima e sorridente coadjuvante do lar -, Maria entendeu que se alguém teria que se sacrificar seria ela. Justificou: “A gente sabe se o trabalho é forte ou não. Eu tinha consciência que o meu não era.” O dela não era. O dele, sim, ponto de exclamação. Sempre a naturalização histórica da superioridade masculina e à mulher o papel de “por trás de um grande homem”, jamais ao lado, menos ainda à frente.  E havia também o problema do dinheiro. Segundo Maria, em entrevista à Paula Ramos para a revista Aplauso, nos anos 90, impossível dois artistas se sustentarem na mesma família. Alguém tinha que cuidar da parte prática: “Eu sou muito realista, sou pé no chão” – ela teria dito. E lá se foi Maria ser droîte na vida – organizadora, catalogadora, secretária -, já que gauche só quem podia ser era Iberê, expressionista visceral. Em vez de governante de sua própria arte, Maria se assumiu – com o perdão da crueza – governanta do marido pintor. Formada pelo Instituto de Belas Artes/ UFRGS (1937-1940), Maria – que vinha de uma família modesta mas culta, todas as mulheres, por exemplo, tocavam piano – possuía um interessante trabalho em retrato e paisagem. Percebe-se em seus retratos o domínio da carnadura, proporção, luz, sombra, volume, a elegante escolha de cores, e se pode farejar ali a influência de João Fahrion, provavelmente seu professor no IBA. A mesma competência no traço, na composição e nas cores, se repete em suas paisagens, com inspirações comparáveis às de seu provável mestre, Angelo Guido, professor do IBA, então. Eu diria até que os quadros dela eram mais vendáveis que os de Iberê, se a questão fosse essa, mesmo. A do dinheiro. E não a do machismo secular, histórico e cultural. Se era por amor, como alegam alguns, por que ele nunca se sacrificou pela arte dela? Com apenas 24 anos, Maria revelava-se uma artista de qualidade, com potencial para continuar (e brilhar) na carreira como suas colegas do IBA Alice Brueggemann, Cristina Balbão, Hilda Goltz. Depois do casamento, sua arte desapareceu. Pelo que se sabe, só houve espaço para a prática de arte ao homem da casa, Iberê Camargo. Testemunhas dão conta de que certa feita, já superadas […]

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