Memória

Lugares da classe trabalhadora em Porto Alegre 3: Sociedade Elena di Montenegro

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Lugares da classe trabalhadora em Porto Alegre 3: Sociedade Elena di Montenegro Foto: Arquivo pessoal

Quem caminha pelo Bom Fim encontra na rua General João Telles esquina com a avenida Cauduro um imponente edifício que pertence à Sociedade Italiana do Rio Grande do Sul. Em sua fachada se destaca o busto de uma mulher, Helena de Montenegro, que foi Rainha da Itália entre 1940 e 1946. No passado esse edifício pertenceu a uma das principais sociedades beneficentes italianas de Porto Alegre, a Società Italiana di Beneficenza e Istruzione Principessa Elena di Montenegro, que foi também um dos lugares mais importantes de reunião e de mobilização da classe trabalhadora na capital gaúcha. 

A Sociedade surgiu com o nome de Bella Aurora no ano de 1893, adotando o nome de Elena di Montenegro em 1896; sua finalidade era oferecer educação aos filhos de imigrantes italianos que viviam em Porto Alegre. Naquela época existiam poucas escolas públicas, e as comunidades imigrantes tinham de organizar suas próprias instituições de ensino para suprir a demanda por educação. Sua primeira sede funcionava em uma casa no arrabalde da Floresta, na rua Coronel Carvalho (atual rua André Puente). Em 1908 foi concluída a construção de sua sede própria em um prédio amplo e confortável na região do Bom Fim, na rua General João Telles, n.37 C (atualmente n. 317). 

A Sociedade Elena di Montenegro, além de ser uma instituição educacional, também servia como local de reuniões para a população do bairro por conta da qualidade de suas instalações. A inauguração do edifício coincidiu com um momento de mudanças dentro do movimento operário de Porto Alegre, quando a hegemonia sindical passou dos social-democratas para os anarquistas, o que foi acompanhado por uma mudança territorial, com o arrabalde do Bom Fim se tornando centro da agitação operária na capital gaúcha. Em novembro de 1909, os salões da sociedade receberam as primeiras homenagens consagradas ao educador Francisco Ferrer, recém-executado pelas forças de repressão da monarquia espanhola. Nos anos seguintes o local receberia peças teatrais do Grêmio Dramático de Cultura Social, organizado por operários anarquistas, além de reuniões sindicais. 



Outro elemento que ajudou a tornar a Sociedade Elena di Montenegro um importante ponto de referência foi sua proximidade da Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS), que durante a década de 1910 ficava na rua Santo Antônio. No agitado período das greves de 1917 e 1918, a sociedade abriu seus salões para reuniões do Sindicato dos Alfaiates, da Liga de Defesa Popular e da União Geral dos Trabalhadores. No início dos anos 1920, o movimento operário sofreu uma retração das suas atividades, mas a Elena di Montenegro permaneceu um lugar relevante. Em fevereiro de 1922, ela recebeu uma peça teatral apresentada por atores judeus de origem russa para arrecadar donativos para os flagelados do Volga depois da Guerra Civil Russa. Em 1929, foi local de fundação do Sindicato dos Trabalhadores em Tecido, criado majoritariamente por alfaiates judeus que viviam na região. 

Como indiquei no início do texto, nos dias de hoje o prédio da Sociedade Elena di Montenegro abriga a sede da Sociedade Italiana do Rio Grande do Sul. O local ainda funciona como centro de atividades culturais, abrigando também um restaurante e uma escola que oferece cursos de língua italiana, mostrando que sua vocação educacional permanece presente. Por conta de sua história, o edifício deve ser considerado também como um lugar de memória da classe trabalhadora, pois foi um espaço de encontros, de lutas e de demonstrações de solidariedade operária. Na próxima edição dessa série vamos falar da Sociedade Florida, o antigo Bürgerklub, localizado na rua Comendador Azevedo no bairro Floresta, mais um lugar de memória operária na capital gaúcha.

  • Além de acompanhar os textos aqui publicados, visitem e curtam a página de facebook dos Caminhos Operários em Porto Alegre, para saber um pouco mais sobre essa história. 

Frederico Bartz é mestre e doutor em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e trabalha como técnico em assuntos educacionais nessa mesma universidade, onde coordena o curso de extensão Caminhos Operários em Porto Alegre.

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