Crônica, Parêntese

A micronarrativa dos tempos vividos

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A micronarrativa dos tempos vividos

A história de alguém contada através do filtro de vários significantes gráficos que passaram por sua vida, materializados em seus objetos de suporte: a pulseirinha com a identificação do nome no berçário; a embalagem do primeiro bico, marca Lillo, mas só a parte plana de papel, guardada numa caixa de metal por pais conscientes da evanescência da memória; alguns itens decorativos da festa de aniversário de um ano, o prato descartável com o motivo escolhido, a língua de sogra feita de plástico e papel estampado, que ao mínimo sopro se desenrolava, zombeteira; um card retangular, colecionável em papel de boa gramatura, contendo a ilustração de um Tiranossauro Rex, brinde dos chocolates Surpresa; a carteirinha do Inamps, velho sistema de saúde público do país, com a foto 3×4, os dados datilografados e o logotipo minimalista da entidade a encabeçar o documento; um invólucro de Glimiton, suplemento alimentar, na verdade um espesso líquido verde com gosto de funcho velho, destinado “a abrir o apetite” como gostava de dizer a mãe, à época preocupada com a magreza do filho; quatro ou cinco figurinhas do álbum Stamp Color – extraviado numa das mudanças de casa –, que se mostraram repetidas ao abrir os envelopes na tarde chuvosa em que boa parte da mesada foi gasta na Banquinha da Vovó, quando a autonomia de sair à rua com os amigos fora recém-conquistada. Um pouco depois, o segundo capítulo, Adolescência, suas descobertas e transgressões: um rótulo de Brahma Extra, coletado cuidadosamente com a ajuda da unha do indicador, o suor da garrafa e boa dose de paciência; um maço de Gudang Garam planificado, ainda com diminutos resquícios do olor doce e oriental se levado próximo ao nariz, que abrigava cigarros consumidos na frente do Roda Viva, antes de um show do TNT; papéis de carta com mensagens escritas por colegas da escola  – letras de música dos Engenheiros do Hawaii e da Legião Urbana, poemas atribuídos a Fernando Pessoa, provérbios populares –, a ingenuidade das declarações amorosas; um adesivo da grife Vide Bula, brinde na compra da camiseta listrada de algodão e lycra, quatro vezes sem entrada no Carrasco Surf & Shop, usada apenas nas festas de sábado e que logo se transformaria na “camiseta da sorte”, afinal estava no corpo dele na noite em que conheceu Manoela, primeira namorada; o canhoto do ingresso do show dos Paralamas do Sucesso no Teatro de Lona, apresentação feita no dia dos namorados em 1991 e que durou três horas (ele gosta de contar aos amigos mais novos e à filha que na música Lanterna dos Afogados, Herbert Vianna tocou com uma Gibson de dois braços, igual ao do Jimmy Page no clipe de Starway to Heaven, e aquele solo foi umas coisas mais bonitas e intensas que já presenciou); a página do jornal com o nome na lista de aprovados no vestibular, sublinhado com caneta Bic pelo pai orgulhoso; uma das inúmeras passagens de ônibus intermunicipal linha Caxias-POA, partícula daquele tempo dividido entre duas cidades, dois mundos, duas vidas. Na chamada fase adulta ressurgem os rótulos, provando que a adolescência masculina talvez nunca passe por completo, mas agora eles são de cervejas artesanais, de vinhos finos e iguarias compradas em empórios ou lojas de delicatessen. Signos que remetem a festas, a jantares memoráveis em invernos úmidos frente a churrasqueiras, lareiras, ou em restaurantes semi-secretos, bistrôs com cozinhas habitadas por fogões a lenha, palcos de celebrações, rituais, conquistas. Uma certa autonomia financeira, nesse período, trouxe outros itens à coleção: a última folha de um talão de cheques do extinto banco Nacional; uma rescisão de contrato de trabalho; cartões de visita desenhados numa estética obsoleta, flyers diversos, marcadores de página. A capa do manual do proprietário do primeiro automóvel, um Kadett GS 1989, movido à álcool. Ingressos de peças de teatro e shows de dinossauros de rock, com suas megaturnês pelo país; o convite pro casamento de um amigo no Hotel Samuara, hoje desfeito (o casamento, não o hotel).

A micronarrativa dos tempos vividos. 

Imagino essa possibilidade de se contar uma história e seu formato – um conto, um ensaio, uma novela, o roteiro de um curta? – porque senti na carne a perda de uma pequena coleção de significantes gráficos que guardava na garagem da casa dos meus pais: duas portas de um armário de roupas feito em cerejeira, cujas superfícies estavam cheias por completo de adesivos, rótulos, ingressos, cartões, desenhos, embalagens, decalques, letrasets etc, foram colocadas inadvertidamente no lixo por minha irmã e meu cunhado. As portas foram o que deixei a salvo quando abandonei, de forma tardia, a casa dos meus pais, e me mudei pra um apartamento. Eu ia transformar as portas em prateleiras ou mesas, talvez quadros. Ainda não havia decidido. Elas faziam parte do conjunto de móveis do meu quarto, presente de aniversário quando fiz oito anos. Naquele tempo, meu pai trabalhava numa loja chamada Móveis Sérgio e lá mesmo, em várias parcelas, com boa parte do salário e comissões, comprou o quarto. A cerejeira foi, naqueles anos de 1980, a madeira em voga. Na casa onde nasci, sobre as portas do armário, fui colando testemunhas aleatórias da minha história pessoal: um adesivo da Mad Dogs, empresa local de roupas que fez sucesso no período, lembrança do meu primeiro emprego, quando fui ajudante de serigrafia; outro adesivo (eram vários) relacionado a roupas, mas esse da marca Hang Loose, brinde quando comprávamos bermudas da marca; um pequeno esboço de uma paisagem feito com lápis 6B, quando estava na quarta série; a data, 4/12/87, decalcada em Letraset (letras transferíveis à seco, que vinham em cartelas) no verso de uma das portas, registrando o dia que ganhei o Toby, filhote de perdigueiro; rótulos de cervejas bebidas com amigos, o ingresso do show do Rush no estádio Olímpico em 2002 etc. O leitor já sacou as diversas alternativas particulares que uma lista assim pode conter. E contar. 

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Talvez esses pequenos gestos de acumulação socialmente aceitáveis (é impossível evitar uma interpretação psicanalítica) tenham o efeito ilusório de aplicarmos um pequeno drible no tempo, entidade tão misteriosa quanto cruel que desafia físicos, poetas e historiadores, e destrói tudo como um grande biodigestor.

Se, como afirmou Winnicot, tudo começa em casa, guardar objetos para que funcionem como lembranças não deixa de ser uma reverência a essa segunda esfera afetiva (a primeira é o útero), a casa, suas vozes, cantos e encantos, habitáculo da vida e da formação da nossa identidade. O crescer e seus objetos transicionais. O outro que fomos ainda está em cada um deles. Porque nesse caminho de crescimento e autodescoberta é inevitável o encontro com as perdas, e com elas o processo de luto.

Foi o que aconteceu comigo.

Quando soube que as portas adesivadas do meu velho armário jaziam irrecuperavelmente mortas, destruídas em algum lixo desconhecido há quase uma semana, fui assaltado por uma espécie de associação livre, uma conexão inconsciente de ordem primária: lembrei do dia em que fui no crematório buscar as cinzas do corpo do meu pai. Ele falecera dois meses antes, vítima da pandemia. Junto com minha mulher, fui conduzido pela funcionária a uma sala com iluminação dimerizada, velas acesas e música ambiente new age. A urna em pedra, contendo um adesivo com o nome do meu pai, repousava silenciosamente sobre um pequeno altar. Então houve um episódio lacrimal, a sensação de vazio, o traumático da perda. Movido por uma mistura de curiosidade e reverência, removi a pequena tampa da urna. Ali estavam as cinzas do corpo do meu pai, misturadas com as cinzas da madeira do caixão, decorrência do processo de queima no forno crematório. Ao contrário do que eu imaginava, as cinzas não eram da cor cinza. Eram cor de cerejeira. As cinzas eram da cor dos móveis do meu quarto, da cor das portas adesivadas, da cor do meu presente de aniversário de oito anos.

Horas depois, tomando café no meu apartamento, descobri que ainda pratico o entesouramento das lembranças gráficas. A proximidade, às vezes, tem esse efeito: torna invisível o que está na cara, silencioso o que permanece arraigado em nosso sangue. Desde os primeiros dias na nova casa eu passara a colar rótulos de vinhos, cervejas, fumos de cachimbo, marcadores de página e adesivos em geral na parede da cozinha. Outra micronarrativa se iniciava ali, performática, contingente, imprevisível. Como toda boa história tem que ser.

Ou talvez eu seja apenas um acumulador em estágio inicial de compulsão, vítima de algum fetiche narcisista, alguém com transtorno obsessivo-compulsivo querendo justificar, através das tintas simbólicas da escrita, sua patologia.

Tiago Sozo Marcon, T.S. Marcon, nasceu em Caxias do Sul em 1975. Em 1999 tornou-se arquiteto pela UFRGS. Em 2015 fez parte da turma de 30 anos da Oficina de Escrita Criativa da PUC, ministrada pelo professor Assis Brasil. É autor do livro de crônicas Deus veste legging, lançado no mesmo ano. Já participou de diversas antologias de contos, entre elas Onisciente Contemporâneo, Translações Singulares e Não Culpe o Narrador. Como fotógrafo, obteve menções honrosas em Bienais de Arte Fotográfica Brasileira. É um dos organizadores do grupo Órbita Literária. Atualmente cozinha em fogo brando seu primeiro romance.

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