Nossos Mortos

Ao amigo Adão Monquelat

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Ao amigo Adão Monquelat

In memoriam

Jamais pensaria em escrever este breve testemunho sobre alguém que admirava como pesquisador, livreiro e cidadão nestas circunstâncias de imensa tristeza. Monquelat foi decisivo na construção de uma memória histórica comprometida com aqueles que, em um dos seus livros, ele designou como “os excluídos” – livro que, como outros de sua lavra, reverberou sua radicalidade republicana. Como poucos ele sabia que a escravidão negra constituiu as fundações de Pelotas e do Brasil. 

Mas qual escravidão? O modo como ela se reinventou no século XIX em tempos do estado nacional independente (e das mutações advindas do estado industrial emergente) era parte de nossas infindáveis conversações em seu sebo. Estas conversas, aliás, estão no coração do livro pelo qual ele constantemente perguntava (…pois é, querido amigo, eu faltei contigo, ao não ter publicado há tempo este livro que seria dedicado também a ti…). Quantos papos, chimarrões e risadas, e agora quanta saudade. Quantos a ti devem informações, dicas e a lucidez ferina de quem não fazia concessões? 

Tínhamos muito ainda que conversar sobre esta Pelotas de sambas e batuques, do nosso Xavante e sobre (e em meio a) os espectros da escravidão atlântica. Mas partiste antes do combinado, deixando, para além da saudade, uma obra importante em termos da reflexão histórica sobre esta senhora, a nossa Pelotas do “Senhor prefeito / que fracasso / a enchente levou tudo que era meu”, como diziam Bola de Neve e Zé da Cuica no memorável samba “Sr. Prefeito”. 

Senhores da Carne: podemos apontar como a obra maior de Monquelat, um marco na historiografia sul-riograndense, apresentando o cerne escravista não só de uma elite, como da formação social subjacente a Pelotas e ao Rio Grande do Sul do século XIX. Sem falar do achado marcante relacionado à Divina Pastora, o segundo romance publicado no Brasil, de José Antônio do Valle Caldre e Fião, do ano de 1847. É bom lembrar também do excelente memorialista, capaz de emocionar-nos ao evocar a sua infância e o seu cão, ou por ter visto o grande Zizinho jogar no estádio do Pelotas. 

Adão Monquelat são muitas sendas. Neste breve testemunho evoquei algumas deste amigo que, com sua partida, deixa uma lacuna não só para aqueles que o conheceram, como para a cultura sul-rio-grandense.


Jarbas Lazzari – Filósofo. É autor, dentre outros, do ensaio “Pelotas, os espectros da escravidão e o mundo atlântico” (Almanaque do Bicentenário de Pelotas. Santa Maria: Pró-Cultura-RS/Gráfica e Editora Pallotti, 2012-2014) e do livro Espectros da escravidão (no Prelo).

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