Nossos Mortos

Meu primo Adolfo Gerchmann

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Meu primo Adolfo Gerchmann Foto de Adolfo Gerchmann
* A foto que acompanha este texto fez parte de um ensaio de Adolfo Gerchmann na Parêntese 103 Sabe aquelas pessoas criativas que transformam tudo em arte e transitam em diferentes manifestações com o mesmo talento? Assim era meu primo Adolfo Gerchmann, falecido no último dia 19 em razão de complicações pela Covid. O Adolfo, como repórter fotográfico, enxergava o ângulo da imagem que justificava a notícia. É o básico para um jornalista, você dirá. Mas creia que essa sensibilidade atende a uma régua que dá gradação aos talentos. Ora, o cara que vê a Elis confundida com o microfone numa justa simbiose atingiu o grau máximo de sensibilidade ao captar ali toda uma biografia, numa única imagem, da nossa artista maior e do nosso canto de amor à vida. E esse tipo de flagrante no palco também mostra o Adolfo amante da cultura em geral e da boa música muito em especial. Mas o Adolfo fotógrafo não era só o do fato. Era também o da plasticidade. Como ele enxergava o belo! Como era capaz de esperar o momento exato de perenizar a lindeza do firmamento temporário, em céus azuis, laranjas e pretos contrastados com a rudeza dos prédios perfilados no concreto inóspito. Esse era o Adolfo fotógrafo. Mas não pense que fica nisso a destreza desse grande artista. O Adolfo levou a veia artística para a culinária. A Orquestra de Panelas, no Theatro São Pedro e depois em outras paragens, tinha até nome inspirado: era uma orquestra de panelas no principal teatro do Estado, no nosso Colón. Muita gente ia ao TSP para se reunir no restaurante e saborear aqueles pratos que ele fazia como fotografava: com a arte de saber o ponto exato em que o sabor de cada elemento da receita se destacaria e se misturaria aos demais ingredientes. Você pensa que isso é fácil? Voltarei a falar sobre a régua de talentos. E preciso muito lembrar os pais do Adolfo, aqueles que, para mim, serão sempre o Tio Bóris (irmão do meu pai) e a Tia Clara. O Tio Bóris (Bernardo Gerchmann, na verdade) marcou a minha vida pelo companheirismo meio molecão e pelo humor inocente que todo guri adora. E a Tia Clara era uma torta de alma recheada com leite condensado. Parece ficção se eu disser pra vocês que eles tinham uma confeitaria chamada Doçura. E eu provo que isso é a mais pura verdade. Digo mais, até: a personalidade doce do Adolfo tinha a ver com isso. Buenas, chegamos à personalidade do Adolfo, então. E eu, como primo-irmão, entro fundo agora neste texto, pra falar da estirpe dos primos mais velhos que admiramos (me vem à memória o Adolfo dizendo “muito fodido!” pra se referir a algo muito bom. E digo: ele era “muito foda!”). A nossa diferença de idade era relevante num determinado momento da vida. Quase 12 anos. Mas chega a fase em que isso se limita aos números do calendário. A proximidade que tivemos, principalmente nos anos recentes, atende […]

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