nossos mortos

Perda de um amigo do futuro

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Perda de um amigo do futuro Foto: Divulgação

Podemos perder amigos do passado, do presente, mas semana passada perdi um amigo do futuro. Gelson Radaelli me ligou em agosto com um pedido insólito. Nos conhecíamos de vista, não recordo nenhuma conversa direta. Ele pedia uma linhas sobre seu trabalho para o release da sua próxima exposição. 

Não costumo escrever sobre artes plásticas, aprecio mas não tenho palavras, nem as procuro, para o efeito que me causam. Vá saber por que aceitei o desafio. Talvez de teimoso, a pandemia nos entocando em casa e uma vontade de reagir.

De fato conhecia a obra de Radaelli, e esse era o problema. Não foi difícil escrever sobre ela: difícil foi sim apresentar minha leitura ao artista. Poucas obras são tão eloquentes sobre a angústia depressiva. Como dizer a ele que sua obra me evoca um compêndio plástico de psicopatologia, uma representação de graves transtornos melancólicos?

Mas o final foi feliz. Ele entendeu que talvez ele próprio não seja um desses espectros depressivos que pinta, justamente porque os pinta. Gostou da minha interpretação sobre o que movia seu pincel. Conversamos bastante sobre o seu trabalho e ficamos de nos encontrar presencialmente quando a epidemia acabasse. Ele insistia em me presentear como uma das obras pelo meu texto. Eu achava que deveria não cobrar — queria algo muito mais valioso, sua amizade — e estávamos nessa.

Durante os dias da exposição ligou renovando o convite. Incluiu também a Diana para conhecer seu atelier e tomarmos um vinho quando fosse possível. Mas não haverá visita às obras em andamento, nem vinho, nem se cumprirá a promessa de amizade que se esboçou nos telefonemas. Às vezes, a morte deixa-nos lidando com um passado que não parte com ela. Às vezes, ela produz um buraco insuportável no presente, quando nos rouba uma companhia imprescindível. Desta vez, um enfarte levou meu amigo do futuro.

Seguem, abaixo, as linhas com que descrevi sua última exposição.

Cores em Preto e Branco

A pele não é a nudez: ela veste nossa verdade, ou, ainda, podemos dizer que a oculta. Radaelli a revela, e em suas pinturas deixa-nos à mostra. Ficamos translúcidos, como um exame de imagem faria. Suas pinceladas não se diluem uma na outra, vão esculpindo, de modo que as cores não se misturam, superpõem-se,  e combinadas resultam em uma espécie de tomografia da subjetividade.

Há uma síntese impossível, mais do que nesta obra, na vida: somos seres de uma unidade inconclusa, mal enjambrados enquanto indivíduos. Passamos uma vida inteira tagarelando em busca de uma lógica, de uma amarração que dê conteúdo ao nome e aos propósitos que carregamos. Em Radaelli reaparece o fantasma da dificuldade da construção de um desses aspectos da nossa unidade, a imagem corporal. Se não é um corpo decaído, ele pinta rostos que são como máscaras multifacetadas do desespero.

Há algo mais nestes seres espectrais que ele cria. Não se trata da fragmentação do corpo, mas de uma síntese em versão melancólica. Há uma angústia depressiva que perpassa suas telas. O pintor teve uma fase em preto e branco que segue, como subtexto, presente na sua fase atual e, talvez, de sua obra. 

Observe que às vezes a cor, ainda que pura e dominante, não escapa da aura do corpo decaído que representa. Como se a cor voltasse ao cinza da depressão, que é o pano de fundo. Como se o tema da imagem do corpo, sempre em uma inclinação depressiva, submissa, derrotada, contaminasse a cor e a anulasse de alguma forma, a cor estando a serviço do preto e branco da tristeza. A melancolia se faz ver em ação, no próprio ato de engolir as cores. 

Obviamente, seus corpos são deserotizados. O que pulsa é a fragilidade, a queda, o atrito amargo do vir a ser. Mesmo pintando nossa negatividade, aquilo que nos amassa, a dor de existir, quem diria, podemos nos ver sofridamente belos. Domar as pulsões agressivas e autodestrutivas que temos é a missão de cada sujeito. Radaelli nos mostra a sua doma, o seu processo.


Mário Corso é psicanalista e escritor, autor de O lacaniano de Passo Fundo (Arquipélago) e, com Diana Corso, de Fadas no divã – Psicanálise nas histórias infantis (Artmed), entre outros.

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