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Quem foi Oliveira Silveira?

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Quem foi Oliveira Silveira? Oliveira Silveira completaria 80 anos no dia 16 de agosto de 2021 (Foto: Tânia Meinerz)

Biógrafa do poeta gaúcho resgata sua trajetória às vésperas do aniversário em que ele completaria 80 anos

Sou a bombacha de santo
Sou o churrasco de Ogum

Nestes versos do poema “Sou”, do livro Pêlo Escuro: poemas afro-gaúchos (1977, p.14), Oliveira Ferreira da Silveira, então membro da agremiação literária Estância da Poesia Crioula, reafirma sua legitimidade em ser afro e ser gaúcho. Ele é do sul das américas, onde tem “churrasco” e “bombacha”. Ele reverencia o “santo” e a espiritualidade de “Ogum”, em referência às também amadas terras africanas.

Em 1941, Oliveira Silveira nasce no Touro Passo. No entorno da Serra do Caverá da cidade gaúcha de Rosário do Sul, em meio ao bioma Pampa que faz parte de territórios fronteiriços do extremo Sul do Brasil. Autodeclarando-se como de “cor mista afro”, por ser filho de Anair (preta) e de Felisberto (branco). Desde a infância sua curiosidade o levou a interessar-se pela “parte negra da família”, como salienta o irmão Amaro Silveira no videodocumentário SOU, dirigido por Andréia Vigo para o Projeto RS Negro

Depois de frequentar Bailes de Campanha com muita dança de bugio e trovas gaúchas, enquanto estudante do Ginásio foi locutor na Rádio Marajá e publicou poemas no Correio de Rosário. Em 1959, já na chegada a Porto Alegre, Oliveira Silveira teve sua Carteira de Trabalho assinada como “Auxiliar de Escritório” pela Editora Globo S.A ao mesmo tempo em que ingressou no Colégio Estadual Júlio de Castilhos.

Nessa época, o ex-presidente do Grêmio do Julinho (1961) e amigo Paulo Luiz apresentou o primeiro livro de Oliveira Silveira. No prefácio de Germinou: poemas (1962) editado por Oliveira Silveira impresso pela Gráfica da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), tal colega do Julinho declara: “nas aulas de Português fomos todos surpreendidos pelo jovem mulato que possuía o dom do bem escrever” (1962, p. 03). Nessa época, Oliveira Silveira iniciava suas aulas no Curso de Letras da UFRGS. Recebeu o título de “Licenciado em Português e Literatura Portuguesa/Língua Francesa e Literatura Francesa” em 21 de dezembro de 1965, casando-se na sequência com a igualmente licenciada Julieta, mãe de Naiara.

Oliveira Silveira torna-se professor e reúne outros poemas antigos no livro Poemas Regionais editado e publicado pelo autor, em 1968. Da última página dessa obra, Haroldo Masi musicou o poema “Gaúcho de côr mateando” escrito entre outubro e novembro do mesmo ano por Oliveira. 

Meu requeimado porongo
Preto aconchego do amargo
sinto em mim quando te afago
velhas raízes de Congo.

Na palma da mão te inflamas
e propicias que eu sinta
a forma quente das mamas
de uma crioula retinta.

Bomba de prata na seiva
de um coração que transborda:
luar gaúcho na reiva,
quase Rio Grande na forma.

Negror de noite de treva
De longes terras de estio;
erva de verde de selva
bomba de leito de rio.

São águas xucras de sanga
troncos de árvores boiando;
são ondas verdes de mar
navio negreiro singrando

Cada gole, cada gôta
tem o sabor de dois mundos.
E vou bebendo a cicuta
De um banzo que vem do fundo.

Este poema enegrece o ritual do chimarrão da gauchada. Herdada dos povos nativos, a preparação dessa espécie de chá típico do sul do Brasil consiste em unir numa cuia partes medicinais da árvore Ilex paraguariensis com água quente a serem degustadas por meio de uma bomba (canudo com filtro na ponta). No livro Pêlo Escuro: poemas afro-gaúchos (1977, p.01), Oliveira Silveira repete a publicação desse poema fazendo algumas adaptações, entre elas o intitulando agora de “Gaúcho Negro Mateando”.

Treze de maio traição
liberdade sem asas
e fome sem pão

Compreendendo a “dupla consciência” conceituada originalmente por William Edward Burghardt Du Bois (1868-1963), entre reivindicações de ser gaúcho e afirmações de suas identidades negras, Oliveira Silveira reafirma ainda mais sua negritude. Em 1969, reunindo poemas como “Treze de maio” – em alusão a lei de abolição do sistema econômico escravista no Brasil –, recebe a Menção Honrosa da União Brasileira de Escritores (UBE). A coletânea enviada à UBE adicionou os poemas “Negrinho do Pastoreio”, “Das Nossas Palavras” e “Um Tiro: Luther King”, publicando a obra Banzo Saudade Negra, em 1970. 

O poeta gaúcho Mário Quintana (1906-1994) acompanhou a trajetória de Oliveira participando de lançamentos de algumas obras do poeta afro-gaúcho. Mas foi a poetisa carioca Stella Leonardos (1923-2019) quem alegrou Oliveira Silveira. Ela é autora da peça “Palmares”, que incluiu na encenação a participação especial do Teatro Experimental do Negro (TNE) em 1944, sob direção de Abdias do Nascimento (1914-2011). A alegria de Oliveira Silveira estava relacionada à contracapa de um de seus livros onde, em 1970, Stella Leonardos escreve: “BANZO, SAUDADE NEGRA – … traz a contribuição de um Langston Hughes nacional. Livro muito bom, de poeta mesmo.” (grifos da poetisa). Foi uma comparação grandiosa com o poeta James Mercer Langston Hughes (1902-1967) do movimento Renascimento do Harlem do bairro de Manhattan de  Nova York, que deu visibilidade ao jazz. Tal movimento inspirou-se em muitas resistências negras como, por exemplo, a Revolução do Haiti (1791-1804). E também dialogou com o movimento literário afro-franco-caribenho conhecido como Movimento Négritude que teve início na década de 1930. Esse último movimento foi determinante na construção da consciência negra do poeta Oliveira Silveira. Para além do Négritude, Oliveira manteve-se atento a toda a rede intelectual mantida pelos povos africanos e pela diáspora negra ao longo de sua vida. 

Dia vinte de novembro
entre mensagens do Palmar
tambores de orgulho e brio

“Escritos entre 1970 e 1972, recebendo revisões até 1981”, segundo o próprio Oliveira Silveira nos conta, Roteiro dos Tantas (1981) nos traz o percurso poético que o autor faz pelo globo. Revela a rica movimentação da diáspora africana e inclui o poema “Vinte de Novembro” (1981, p. 27). Muitos poemas dessa obra dialogam com as temáticas clubemotivadoras da criação do Ano Internacional para Ações de Combate ao Racismo e a Discriminação Racial, institucionalizado pela ONU em 1971. Tanto é que a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos produziu um selo em 31 de março de 1971 em alusão ao ano, em resposta às reivindicações mundiais por igualdade da década de 1960.

Assim, depois de muitas reflexões sobre o deslocamento do 13 de maio para o 20 de novembro, Oliveira Silveira foi um dos proponentes, enquanto membro do Grupo Palmares de Porto Alegre, do primeiro ato evocativo ao 20 de novembro realizado no Clube Náutico Marcílio Dias da capital do Rio Grande do Sul, em 1971. Foi a coroação do percurso intelectual (e compromisso intelectual) de Oliveira Silveira com a equidade étnico-racial no Brasil. Depois disso, ele não mediu esforços para motivar a realização de vários eventos anuais no 20 de novembro para a “conscientização” da importância das culturas negras para a humanidade. Então, em 1978, depois do Grupo Palmares de Porto Alegre migrar para o GT Palmares do Rio Grande do Sul no Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR – atual MNU), o 20 de novembro tornou-se o Dia da Consciência Negra e o 13 de maio foi transformado no Dia de Denúncia contra o Racismo.

Oliveira Silveira nos conta a trajetória do Grupo Palmares, incluindo a importante contribuição das mulheres negras nessa caminhada, no capítulo Vinte de Novembro: história e conteúdo (2003, p. 21-42) do livro Educação e ações afirmativas: entre a injustiça simbólica e a injustiça econômica, organizado pela professora Petronilha Silva e o professor Valter Silvério para o Inep.

Já em 1987, Oliveira Silveira resume muitos de seus pensamentos na estrofe “Palmares não é Palmares,/Palmares é Angola Janga./Nem é só Zumbi ou Ganga/Zumba, senhores. Palmares/não é só um, são milhares.”, publicada na contracapa do livro Poema sobre Palmares.

Nesse caminho, em torno de “Palmares” muitos projetos foram sendo impulsionados como, por exemplo: 

1) criação, no âmbito do Governo Federal Brasileiro, da Fundação Cultural Palmares para a “promoção e preservação dos valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”, em 1988 (Lei Nº 7.668, de 22 de agosto); 

2) realização da Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e pela Vida em alusão aos 300 anos de assassinato de Zumbi dos Palmares, em Brasília/1995; 

3) inclusão de Zumbi e da quilombola Dandara no panteão do Livro de Aço dos Heróis e das Heroínas Nacionais, desde 1996 (Lei Federal N° 9.315 de 20 de novembro); 

4) inserção do 20 de novembro no calendário da rede de ensino brasileira como Dia Nacional da Consciência Negra, em 2003 (Lei Federal Nº 10.639); 5) mobilização em torno das Marchas “Zumbi + 10 anos – Contra o Racismo, pela Igualdade e a Vida”, em Brasília/2005; 

5) inauguração do Parque Histórico Nacional – Memorial Zumbi/Quilombo dos Palmares na Serra da Barriga em União de Palmares/Maceió/Alagoas, em 2007; 6) institucionalização do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, em 2011 (Lei Federal Nº 12.519 em 10 de novembro) e reunião de lideranças nacionais na “Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver”, em Brasília/2015. 

Produzida pela Rede de Historiadoras Negras e de Historiadores Negros em parceria com Geledés – Instituto da Mulher Negra e o Acervo Cultne, muitos desses registros foram reunidos na Exposição Virtual “20 de Novembro – Dia Nacional da Consciência Negra” na Plataforma do Google Arts & Culture, nas salas Relembrando Palmares: do quilombo histórico à memória do povo negro; 1960 – 1970: Grupo Palmares de Porto Alegre e a afirmação do Dia da Consciência Negra; 1970 – 1980: Nacionalização do Dia da Consciência Negra no Brasil, e 1990 – 2000: Palmares revive em Brasília

Vale destacar ainda que, Oliveira Silveira foi reconhecido por seu notório saber e nomeado membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) vinculado à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), no período de 2004 a 2008. E ainda que, a Biblioteca da Fundação Cultural Palmares (FCP) criada pelo Governo Federal em 1998, recebeu o nome de “Biblioteca Oliveira Silveira” em 2011. A Biblioteca objetiva “resgatar, preservar e divulgar a cultura negra e a história da Diáspora Africana”. Na mesma linha, desde 2015, a FCP fomenta publicações de obras literárias relacionadas às culturas afro-brasileiras por meio do “Prêmio Oliveira Silveira”.

Encontrei minhas origens
em velhos arquivos/livros

No Dia Nacional da Consciência Negra de 2009, ano da morte de Oliveira Silveira, a Caixa Econômica Federal debruçou-se sobre a obra desse poeta para homenagear suas funcionárias e seus funcionários. Inúmeras vezes declamado pela atriz Ruth de Souza (1921-2019), o poema “Encontrei minhas origens”, publicado no livro Roteiro dos Tantas (1981), foi o escolhido. Na ocasião, quando o texto foi declamado pelo gerente da CEF Délio Martins, a agência Nova S/B Comunicações adaptou o poema de Oliveira Silveira para a linguagem audiovisual, sob direção de Heitor Dhalla.

Muitos “arquivos/livros” referendados no poema de Oliveira Silveira fazem parte do acervo pessoal do poeta. Na coleção, é possível também resgatar outras ações impulsionadas por Oliveira Silveira ao longo de sua trajetória. Encontra-se no acervo original da Revista Tição de 1978 e 1979, bem como a edição do Jornal Tição, de 1980, fruto do trabalho do Grupo Tição criado em 1977. Outros vários registros sobre o Grupo Semba, o Grupo Razão Negra, o movimento clubista negro, reflexões sobre os lanceiros negros na Revolução Farroupilha, originais do livro “O Negro no Rio Grande do Sul” escrito por Oliveira Silveira, entre outros originais. 

De toda sorte, Oliveira Silveira ainda precisa ser revelado mesmo que muitos estudos emergentes já estejam compondo sua fortuna crítica. Numa parceria entre a Associação Negra de Cultura (ANdC – criada por Oliveira Silveira e gerida pela sua filha, Naiara), o Grupo de Pesquisa CriaNegra/CNPq da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), vários/as parceiros/as da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entre outros apoiadores, o Portal “Oliveira Silveira” está sendo alimentado enquanto repositório universitário de produção de conhecimento. O portal oferece informações sobre projetos em andamento que pretendem resgatar um pouco da história e conteúdo das culturas afro-gaúchas por meio dos feitos de Oliveira Silveira.


Biógrafa de Oliveira Silveira, Sátira Machado é também jornalista, mestre em letras, doutora e pós-doutora em comunicação, professora da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e líder do Grupo de Pesquisa CriaNegra/CNPq.

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