nossos mortos

Vitor Ramil escreve sobre Felipe Elizalde

Change Size Text
Vitor Ramil escreve sobre Felipe Elizalde Felipe Elizalde (Foto: acervo pessoal)

Caros leitores

A pandemia nos deixou a todos muito solitários, não é mesmo? Até os que sempre foram sós estão sentindo os efeitos do distanciamento social. Acho que especialmente os amigos estão fazendo falta, porque em família temos conseguido, de um modo ou de outro, manter algum convívio. Nesse aspecto, graças aos amigos imaginários, as crianças têm levado vantagem sobre os adultos. Seríamos capazes de tirar a máscara da realidade e fazer como elas?

Imaginemos um amigo, um grande amigo, daqueles que colocamos na categoria dos melhores; um amigo que nunca nos falte e a quem jamais faltaremos. Imaginemos um amigo de longa data, se não de toda a vida, quase isso. Uma amizade, digamos, de quarenta anos. Esse velho amigo é quatro anos mais novo que nós. Por ele desenvolvemos um instinto de proteção do tipo que se tem por um irmão menor. Imaginemos que somos compositores e que o primeiro encontro com esse amigo, ainda adolescente, se deu no elevador do Instituto de Artes da UFRGS, onde estudamos, quando ele se apresentou com um comentário generoso sobre uma canção chamada Epílogo, que compusemos quando tínhamos a idade dele. Ele se mostrou sensível e inteligente logo de cara. E ficamos sabendo que também compunha, tocava e cantava.  Era o epílogo de um tempo, o tempo antes de aquele cara existir na nossa vida. Ali mesmo, no elevador que inspirou Elevador, do Almôndegas, nos fizemos amigos, amigos dos que se correspondem por carta morando na mesma cidade. Muito antes das redes sociais, por certo. Papel, caneta, envelope, lambida no selo, caminhada até os correios. Do alto dos nossos 20 anos, brincamos de Rainer Maria Rilke a enviar cartas a um jovem poeta. Das cartas o amigo chegou às canções de sua autoria. E ficamos embasbacados. Como compõe, como escreve, como canta e toca o violão! Damos início a uma colaboração muito próxima. Nos influenciamos mutuamente. Longas são as conversas: ideias sobre ideias e canções; canções sobre canções e ideias. O amigo agora estuda filosofia. É reservado e melancólico ao extremo, como uma exacerbação de nós mesmos. Mas sobe ao palco conosco para participar dos nossos shows. Apresenta suas canções com convicção. Insistimos para que faça seu primeiro show solo, está mais que pronto para isso. Ele reluta, mas termina por concordar. Convidamos alguns dos melhores músicos da cidade para tocar com ele. A estreia é ótima, os músicos incríveis, a performance do amigo é mais do que promissora. Nos emocionamos vislumbrando seu futuro. Mas nem tudo é leveza, e ele sente o peso dos primeiros passos profissionais e recua. Continua a colaborar conosco, a participar dos nossos shows, mas se torna aos poucos arredio à própria persona artística, descrê da possibilidade de chegar às pessoas através de suas canções, de viver da sua criação, que mal começou e já é tão especial. Dedica-se à filosofia, com esporádicas aparições como compositor ou intérprete. Afiado o pensamento, volta e meia traz contribuições fundamentais às nossas ideias, como quando nos apresenta a frase “o frio geometriza as coisas”, supostamente de Alejo Carpentier, mas em boa medida dele mesmo, pois descobrimos depois que o escritor cubano escreveu: “as coisas geometrizadas pelo frio”. Na voz ativa e no fundo de cada reflexão artística ou filosófica flui sempre intacto o afeto do nosso amigo. Imaginemos um amigo de verdade. É ele. Camarada Verdade é o nome de uma de suas canções. Diz a letra: “Nasci no sol do mais propício dia / Cresci na rua e na maior folia / Caí na terra com mil meteoros / E de alegria fui criando olhos”. A certa altura: “De mim brotaram deuses e desejos”. E no refrão, uma pergunta: “Ah, será que sou o fim dos mistérios?”. O poeta é um fingidor etc., disse Fernando Pessoa. Não temos dúvida de que nosso amigo nasceu no mais propício dia e que sente isso, deveras; suas qualidades nos dizem que talvez tenha de fato caído na terra com mil meteoros; deuses e desejos podem ter brotado dele com a maior facilidade. Mas, à revelia do amor que nutrimos por ele, ele é o próprio mistério para nós. E não só para nós. Outros amigos dele sentem o mesmo. Sim, reservado ao extremo, nosso amigo tem muitos outros amigos, gente que também o quer muito e faria de tudo por ele; gente que, mesmo com menos idade, quer cuidar dele com de um irmão menor. Um desses amigos o grava em estúdio, mas ele não fica satisfeito com os resultados e desiste das sessões. Como nós, nosso amigo nunca está satisfeito consigo mesmo, mas num nível que o imobiliza. Tão talentoso, tão amado. Um mistério. Os olhos criados na alegria vão se tornando cada vez mais tristes. E já rimos tanto juntos. A filosofia se aprofunda, mas o amigo passa a duvidar também de sua persona filosófica. “Ele sempre foi um Peter Pan,” nos dirá um dia sua irmã, “que se recusou a crescer”. Os anos passam. Nos vemos menos. Mas como é um amigo verdadeiro, sempre que nos vemos retomamos os assuntos como se tivessem sido interrompidos horas atrás. Os amigos imaginários são super-amigos, só não podem ser super-homens. A amizade se afirma em nossas imperfeições, ou no que entendemos como imperfeições. Por isso, cada vez mais nos afeiçoamos a nosso amigo arredio, que está pobre, sem instrumento, sem música que venha de suas mãos. Damos a ele uma espécie de ultimato amoroso: emprestamos um violão e o instamos a retomar as canções já compostas e compor novas. Depois gravaremos tudo e o ajudaremos a dar início a um novo ciclo. Como mostrou Lou Reed, a capacidade de compor canções nunca nos abandona, por mais que nos apartemos delas. Desafiamos o amigo a fazer essa retomada, argumentando mais uma vez que pode se sustentar e ser feliz com seu talento. Karl Marx aprovaria. A namorada dele nos dirá depois que ele estava animado com a ideia, que iria gravar todo o repertório antigo, que inclusive já compusera novas milongas. Ele nada nos diria. Os amigos não precisamos nos dizer tudo.

Luis Augusto Fischer, editor da Parêntese, me convidou para escrever sobre Felipe Elizalde, amigo querido e compositor admirado, falecido recentemente, de infarto, aos 54 anos. Achei que não poderia aceitar o convite desse outro amigo verdadeiro. Estou devastado com o acontecido. Além disso, o inadmirável mundo novo das redes sociais, através do qual os afetos passaram a ser medidos pela mesma régua que mede as aparências, tem me tornado cada vez mais resistente a manifestações públicas, ainda mais se dizem respeito à minha intimidade. Mas, mais que nada, eu não queria escrever outro epílogo, o epílogo do tempo em que o Felipe Elizalde existiu em minha vida. Por isso, para não faltar com o Fischer, decidi propor a vocês, leitores, este desafio de criar um amigo imaginário. Vamos fazer como as crianças e viver essa amizade intensamente. O mundo já está triste demais. Sem nosso amigo, seria intolerável.


Vitor Hugo Alves Ramil, mais conhecido como Vitor Ramil, é compositor, cantor e escritor de Pelotas. Começou sua carreira nos anos 80. Na música, lançou onze álbuns. É autor dos livros Pequod (1995), A Estética do Frio (2004), Satolep (2008) e A primavera da pontuação (2014).

RELACIONADAS
marca-parentese

Abra um parêntese no seu fim de semana com jornalismo e boas histórias. Deixe seu email e receba toda semana as newsletters da revista Parêntese.

Receba de segunda a sexta a Matinal News, a newsletter que traz as principais notícias e eventos de Porto Alegre e do RS.