Operação Piglia

Ricardo Piglia, entre diário e sem tempo

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Ricardo Piglia, entre diário e sem tempo

1. Nos últimos anos de sua vida, Ricardo Piglia (1940-2017) repassou um conjunto de – !!! – 327 cadernos de anotações, cadernos sempre iguais no formato, material que veio acumulando pela vida afora, desde seus 17 anos. Resultou dessa revisão uma nova obra, Os diários de Emilio Renzi, em três alentados volumes, cujos dois primeiros saíram já em português, pela editora Todavia, com tradução de Sérgio Molina (em 2017 saiu o volume Os anos de formação, que compreende os anos até 1967, e em 2019 veio à luz o volume Os anos felizes, que cobre o tempo entre 1968 e 1975). Emilio Renzi é Ricardo Piglia, como ninguém desconhece: no sentido metafórico, porque esses diários foram sendo escritos por RP, mas são editados sob o nome de ER; e o nome completo do escritor, como está nos registros, é Ricardo Emilio Piglia Renzi.

2. São então diários os textos que lemos no livro? Sim e não. Como nos diários inocentes, há relatos de cenas banais, encontros em bares, tempos perdidos em trens, faltas e presenças variadas da vida de um jovem, namoros, leituras, pendengas familiares. Mas como nos ensaios de um escritor maduro, há reflexões sofisticadas, exigentes resenhas de leituras, minucioso processamento de ideias, que podem ter mesmo sido coisa feita no calor da hora, quando Piglia estudava e começava a dar aulas de História e se preparava para ser escritor – “Ganho a vida como historiador, mas vivo como um escritor potencial”, diz ele a certa altura do primeiro volume, mas bem podem ser o resultado da mastigação do senhor de 60 e tantos anos. 

3. Isso quer dizer que na prática é indecidível a data do que vamos lendo, malgrado a notação que por vezes acompanha o texto. Talvez o jovem de 20 anos, estudando Faulkner, lendo Marx, Sartre e Wittgenstein e admirando Borges, tivesse já a consciência sutil e a forma elegante que expressam agora as palavras impressas. Mas pode ser que não. Talvez essa dúvida seja mesmo irrelevante. A menos que alguém quisesse ler Piglia, aqui, como um detetive busca pistas concretas de ações do passado, é secundário no fim das contas saber se a consciência e a frase que lemos é de 1960 ou de 2015. Estamos falando de literatura de Piglia e, mais genericamente, de literatura argentina, realizações artísticas acostumadas a oscilar entre passado e futuro, ou como ele diz em certa passagem, entre anacronismo e utopia, quando não a ver coexistirem vários tempos num agora interminável.

4. A literatura argentina, também por causa de Piglia, se move desde a metade do século 19 num espaço impreciso entre os fatos e as ficções, entre o relato preciso e o delírio criativo, entre ensaio crítico e invenção fabulosa. Como o próprio Piglia pensou e praticou, a fronteira entre esses dois polos é movediça e, como é mesmo que se diz?, lábil, permeável. Nisso está uma de suas supremas virtudes. 

5. A leitura, em si, como ato no presente, desses diários, não tem regra ou exigência estrita. Acostumado a pensar a partir do chão da história, eu preferi ler na ordem cronológica, sem antecipar trechos ou postergar passagens. Terei com isso tido uma compreensão melhor do que outra, por exemplo a que passasse correndo, salteando, borboleteando entre os tempos? Não creio. Uma tese de Piglia sobre Macedônio Fernandez diz que com a ficção desta figura ímpar se inaugura o romance salteado.

6. Piglia se notabilizou por conferir protagonismo a autores menos visíveis de seu país. Sua formação de leitor é aberta, cosmopolita, e seu leque de referências não tem nada de nacionalista, vício fácil para os latino-americanos. Mesmo assim, ele produziu textos (como vou qualificá-los adequadamente: relatos? ensaios? ficções ensaísticas?) que dão passos em alguma direção vanguardista – passos que, diria o mesmo Piglia, nada têm de vanguarda se confrontados com Cervantes ou Facundo ou o Martín Fierro –, mas recuperam escritores de pouco prestígio ou vítimas de ardilosos mal-entendidos do passado. O caso mais notável é Roberto Arlt. Filho de imigrantes germânicos e nórdicos (Piglia é neto de imigrantes italianos), Arlt escreveu numa linguagem suja, suada, cotidiana, sendo contemporâneo de um requintado aristocrata local como Borges. De Arlt, basta lembrar o livro de Piglia chamado Nome falso, que narra, em tom detetivesco, a busca bem-sucedida por um original perdido de Arlt. Uma narrativa com todos os apetrechos ficcionais, com elementos inverossímeis que são no entanto rigorosamente verdadeiros (como aquele de que Arlt tinha tentado patentear um método de produzir meias femininas, na altura de 1940, que não corressem o fio, este sendo o grande drama as meias de nylon daqueles tempos). (É verdade.)

7. Fico tentado a encontrar casos homólogos a Piglia no Brasil. Não há irmãos óbvios, mas há muitos primos, mais e menos remotos. Faço uma pequena enumeração aqui. 

Professor de literatura (em Princeton), ensaísta criativo, conferencista e escritor de ficção envolvendo o patrimônio literário de seu país, uma tentação óbvia é cotejá-lo com Silviano Santiago (nascido no interior de Minas em 36, também com trânsito internacional notável), que tem as mesmas quatro marcas. Mas SS não tem a força sintética de RP, muito menos o alcance de suas criações, no ensaio ou na ficção. 

O ensaísta RP de vez em quando lembra Roberto Schwarz. Nascido na Áustria em 1938, com a família emigrada para o Brasil em 39, Schwarz é autor de alguns ensaios de grande impacto na cultura letrada superior, tendo até mesmo uma frase de efeito que até agora ainda encontra eco – a tese das “ideias fora do lugar”. Para dar um exemplo de proximidade, Schwarz falava no “torcicolo cultural” que era a identidade brasileira, sempre atenta aos movimentos das capitais culturais estrangeiras da moda, como Paris ou Nova York, em busca de encontrar o rumo para si; Piglia fala da “perspectiva estrábica” como a verdadeira tradição nacional argentina, num sentido bem próximo. 

Quando li A cidade ausente, romance de RP lançado em 1992, anotei nas margens do livro que ele se parecia com Carlos Sussekind (carioca, nascido em 1933, também com formação cosmopolita, ficcionista sutil e tradutor do inglês): os dois são muito afeiçoados a narrativas especulares, a metaliteratura (relatos que remetem a outros relatos, narrativas que se desdobram em outras), a livros que acumulam vários planos de relação entre fato e ficção, assim como entre ficções e outras ficções. Sussekind produziu livros de grande criatividade como Armadilha para Lamartine (1975), assinado por Carlos & Carlos Sussekind, que aproveita os diários reais de seu pai real, ambos de fato chamados Carlos, para compor um quadro da formação do personagem ficcional, que por sua vez é muito parecido com o autor ele mesmo) e Que pensam vocês que ele fez (1994), outro romance metaliterário em que um filho do autor de um diário obsessivo e quase infinito (mais cheio de planos do que o anterior) ganha uma bolsa de trabalho, da Inglaterra, para editar esses diários. RP, bem, faz do embaralhamento entre diário, ensaio e invenção a matéria-prima de sua literatura – exemplarmente no romance Respiração artificial, de 1980.

Mas há mais. Nos romances – Respiração artificial é talvez o ponto mais alto dessa tendência –, RP arma situações nas quais personagens (ia dizer “de carne e osso”, mas não seria uma boa descrição) se atormentam em estudar o passado da Argentina, as mazelas de viver num subúrbio do Ocidente, os imperativos do localismo versus os atrativos do mundo elegante da metrópole, e não raro discutem e pensam por escrito, de tal modo que o que lemos ali é, sem tirar nem por, uma reflexão de crítica literária em seu grau mais elevado, sofisticado, não com jargão acadêmico – nem o Piglia professor era dado a jargões –, mas com a linguagem do ensaio mesmo. No Brasil, um caso parecido foi o de Paulo Francis (Rio, 1930 – 1997), outro sul-americano que viveu grande parte da vida adulta nos EUA. Grande ensaísta, no fim da vida um reacionário político insuportável mas antes uma mente brilhante a faiscar ideias sobre o Brasil, Francis tentou o romance de ideias, em uma trilogia inconclusa de Cabeça de papel (1977), Cabeça de negro (1979) e, postumamente, Carne viva (2007), mas sem sucesso: sua ficção é ilegível, uma selva de alusões e referências sem respiração adequada e com personagens sem qualquer autonomia, que o leitor desiste de enfrentar logo – bem ao contrário de Piglia, que, mesmo sendo também cifrado e dependendo de referências culturais prévias, plana acima desse problema, talvez pelo cuidado maior com a construção narrativa, talvez pelo humor, talvez pela ausência de ressentimento, que comanda a ficção de Francis.

Outra aproximação cabível será com Luis Fernando Verissimo, nascido em Porto Alegre, em 1936, outro cosmopolita de formação e vida. Na ficção de RP, bem como em seu ensaios, se lê, nas entrelinhas e nos enunciados, um à-vontade conceitual, uma liberdade grande de transitar entre alta cultura e cultura de massas (não com a cultura popular de base oral e tradicional, nenhum dos dois), de citar Shakespeare ou Faulkner em linha com um expoente do jazz, um cineasta de sucesso ou um autor de quadrinhos – coisa absolutamente paralela ao que se lê em Verissimo, tanto em ensaios disfarçados de crônicas quanto na ficção mais longa. Aliás, nos romances RP e LFV se mostram leitores e admiradores da narrativa policial, ainda que com fins diversos, Piglia para estudar as variações do complô (que em ensaio famoso ele considerou uma das formas elementares do relato em geral e da Argentina como país) e Verissimo para efeitos satíricos. 

Lendo agora os diários de Emilio Renzi me ocorreu outra analogia, parcial como as anteriores, mas sólida: crítico do populismo peronista (seu pai era peronista) mas também das posições do Partido Comunista naquela divisão de águas que foi a denúncia dos crimes de Stálin em meados dos anos 1950, heterodoxo, com gosto pelo atrito entre níveis e sentidos opostos – interior e capital, campo e cidade, tradição literária gauchesca e a grande literatura ocidental, fidelidade costumbrista e invenção delirante, literatura trivial e alta literatura –, Piglia tem parentesco com Caetano Veloso (baiano, nascido em 1942, com uma importante temporada em Londres) e o Tropicalismo brasileiro. Afasta-os uma circunstância-chave, entre outras, que é a vitalidade de Caetano, que como cancionista e perfórmer tem uma fonte ainda inesgotada de energia na cultura popular brasileira, ao passo que Piglia, lidando com literatura e transitando no frio mundo da academia, é um argentino, quer dizer, filho de uma cultura popular sem a mesma intensidade e variedade da brasileira. Mas os dois se aproximam em algo decisivo, para a geração: nenhum deles tem o vezo, de matriz marxista (antes hegeliana, depois lukacsiana e adorniana), de tentar encontrar a síntese, a etapa supostamente superior do conflito entre forças antagônicas. Tanto RP quando CV se comprazem no enunciado, elegante ou estridente, das oposições, das tensões, das forças em choque, de vez em quando brincando de embaralhar tudo mas no fim mostrando, com gosto, que a tensão é da vida, enquanto a síntese pertence ao pensamento.

8. Os diários de Emilio Renzi ajudam a viajar para longe das contingências brasileiras imediatas, mas também por isso têm a virtude de ensejar ao leitor daqui um tipo de retorno privilegiado. Se lá, na Argentina, um “baby-boomer” como Piglia sabe que antes de si houve Sarmiento, Macedônio Fernandez, Jorge Luis Borges e Roberto Arlt, paradigmas diversos e nem sempre convergentes de criação literária e de pensamento crítico, aqui se trata de pensar nas linhas de força da literatura brasileira e ver figuras de outro corte e estilo, mas de força equivalente para a cultura letrada – Machado de Assis, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Drummond, João Cabral. A Argentina, como aliás diz o Emilio Renzi que protagoniza Respiração artificial, não teve século 18, ao passo que o Brasil, mal ou bem, teve até o padre Vieira no 17!

9. Mas é certo que com Borges e Piglia a Argentina legou ao leitor um modelo de produção intelectual inovador e muito promissor, esse que funde ensaio e ficção sem perder os ganhos de cada uma das duas modalidades de texto e mantendo o encanto da invenção – papel que no Brasil, para encontrar algo análogo, talvez seja desempenhado mais pela canção (e pelo cinema e até pela telenarrativa, em casos particulares) do que pela literatura de livro: nós, na obra de Noel Rosa, Caetano, Gil, Chico, Paulinho da Viola e uma penca de outros, encontramos diversão e pensamento, ficção e realidade. 

10. Tese lateral final sobre os diários de Emilio Renzi: com todas as similaridades que se pode reconhecer entre Piglia e Borges, há uma diferença de fundo que me parece central ao mesmo tempo para a compreensão de sua obra e para a diferenciação entre os dois. É que nos diários se evidencia, por motivos de clareza empírica, o tanto que há em Piglia de débito para com os imigrantes europeus recentes, em especial os italianos. Me parece que há sempre esse ruído de fundo, nascido do atrito entre o recém-chegado e as elites locais tradicionais, das quais Borges é a representação mais completa e mais bem-sucedida, em seu país. Piglia é cosmopolita e atualizado, flutua bem entre citações, artifícios, duplos, atribuições falsas, plágios, cadeias de citações, autorias equivocadas, tudo na superfície lembrando traços que Borges consagrou e que foram a matéria-prima de sua consagração mundial, a partir do pós-Segunda Guerra; mas mesmo essa destreza, em Piglia, não esconde (mas talvez tente esconder) um ligeiro desconforto do cara que não foi exatamente convidado para aquela festa, mas fez jus a ela. Dito de outro modo, Piglia repõe as cartas literárias em jogo, as mesmas cartas que o patrício criollo Borges havia disposto na mesa, mas agora reconfiguradas para contar e para velar outra história, outra experiência histórica.

Para proveito do leitor, fica a sugestão de ouvir Piglia falar e pensar de viva voz:

** Aulas de Piglia sobre Borges no youtube, da TPA, televisão pública argentina, em 2013

** Filme sobre Macedónio Fernández, 1995, de Ricardo Piglia e Andrés di Tello, para a Secretaria de Cultura da Argentina


Luís Augusto Fischer é professor de Literatura na UFRGS, autor de, entre outros, “Dicionário de porto-alegrês” e “Literatura brasileira: modos de usar”, ambos pela L&PM . É curador da revista Parêntese.

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