P, de Poesia | Parêntese

Pequena madrugada antes da meia-noite,

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Pequena madrugada antes da meia-noite, Desde Fim das coisas velhas, publicado em 2009 e agraciado com o Prêmio Açorianos de Literatura em 2010, nas categorias Poesia e Livro do Ano, Marco de Menezes (Uruguaiana, 1968) ocupa um lugar muito especial entre as minhas leituras de autores contemporâneos. Permanência e perda, infância e presente, memória e assombro, futuros do pretérito; se esses termos ajudam muito pouco a explicar o que acontece na sua poesia, ao menos ajudam a situar o universo – um universo possível – em que o poeta se desloca. Pequena madrugada antes da meia-noite (Modelo de Nuvem, 2016, 104 p.) dá continuidade a esse projeto estético, uma continuidade, como costuma ser a dos grandes poetas, feita de desvios e aprofundamentos. Desde o título encontramos um eco, com o vetor no sentido contrário, da obra anterior: do “fim das coisas velhas” à “pequena madrugada antes da meia-noite” estamos diante do mesmo problema, mas de um ângulo diferente. Esse problema, é claro, é o tempo. minha infância é um bêbado chamado Galateia que caiu sobre uma faca de serrinha e uma criança ligando um televisor com o fio fora da tomada parece pouco mas não é Esse curto poema sem título, que aparece logo no início de Pequena madrugada…, é uma boa porta de entrada para o livro: aqui temos a abordagem em primeira pessoa, a visão do passado como presente (a infância que é, e não que foi), a visão de pequenos fragmentos, descontínuos, nebulosos apesar nítidos e específicos (o nome do bêbado, o tipo de faca, a afirmação sobre o fio desligado), tudo isso emoldurado no jogo entre o é do primeiro verso e o não é do último – afirmação e negação, rotina e espanto. Outro ponto característico é a presença constante de lugares e pessoas, que vão do local/pessoal (a Uruguaiana, bairros de Caxias do Sul, a casa da infância, tios, amigos de adolescência, personagens interioranos, muitas vezes nomeados) ao distante/mítico (África, Manchúria, Borges, Bruce Chatwin, heróis de HQs). O poema, para Marco de Menezes, funciona como um espaço de convivência, onde se encontram memória e invenção, permanência e deslocamento, cotidiano e transcendência. sobre certas práticas místicas de fronteira o menino de quem roubei uma figurinha difícil morreu afogado no Cavalinho e não voltou no início das aulas a menina a quem dediquei uma historinha do Super-Homem em Atlântida me ignorou tristemente na fila da turma levei uma bolada na cara com uma bola de handebol num jogo de voleibol em que só eu jogava basquete guardava meu time campeão na caixa de digoxina do meu vô o Ferro levou 14 do Inter eu era Cova, mas meu amor mesmo era a Ilha do Marduque Libres era minha Londres na placa dizia: “no se adelante, o el centinela abrirá fuego” Há momentos, ainda que não sejam a tônica, de brevidade radical, em que um flash se desprende do tempo: um naco de passado passando a durar infinitamente. É o caso deste poema de verso único, que pode, aliás, ser lido como […]

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Desde Fim das coisas velhas, publicado em 2009 e agraciado com o Prêmio Açorianos de Literatura em 2010, nas categorias Poesia e Livro do Ano, Marco de Menezes (Uruguaiana, 1968) ocupa um lugar muito especial entre as minhas leituras de autores contemporâneos. Permanência e perda, infância e presente, memória e assombro, futuros do pretérito; se esses termos ajudam muito pouco a explicar o que acontece na sua poesia, ao menos ajudam a situar o universo – um universo possível – em que o poeta se desloca. Pequena madrugada antes da meia-noite (Modelo de Nuvem, 2016, 104 p.) dá continuidade a esse projeto estético, uma continuidade, como costuma ser a dos grandes poetas, feita de desvios e aprofundamentos. Desde o título encontramos um eco, com o vetor no sentido contrário, da obra anterior: do “fim das coisas velhas” à “pequena madrugada antes da meia-noite” estamos diante do mesmo problema, mas de um ângulo diferente. Esse problema, é claro, é o tempo. minha infância é um bêbado chamado Galateia que caiu sobre uma faca de serrinha e uma criança ligando um televisor com o fio fora da tomada parece pouco mas não é Esse curto poema sem título, que aparece logo no início de Pequena madrugada…, é uma boa porta de entrada para o livro: aqui temos a abordagem em primeira pessoa, a visão do passado como presente (a infância que é, e não que foi), a visão de pequenos fragmentos, descontínuos, nebulosos apesar nítidos e específicos (o nome do bêbado, o tipo de faca, a afirmação sobre o fio desligado), tudo isso emoldurado no jogo entre o é do primeiro verso e o não é do último – afirmação e negação, rotina e espanto. Outro ponto característico é a presença constante de lugares e pessoas, que vão do local/pessoal (a Uruguaiana, bairros de Caxias do Sul, a casa da infância, tios, amigos de adolescência, personagens interioranos, muitas vezes nomeados) ao distante/mítico (África, Manchúria, Borges, Bruce Chatwin, heróis de HQs). O poema, para Marco de Menezes, funciona como um espaço de convivência, onde se encontram memória e invenção, permanência e deslocamento, cotidiano e transcendência. sobre certas práticas místicas de fronteira o menino de quem roubei uma figurinha difícil morreu afogado no Cavalinho e não voltou no início das aulas a menina a quem dediquei uma historinha do Super-Homem em Atlântida me ignorou tristemente na fila da turma levei uma bolada na cara com uma bola de handebol num jogo de voleibol em que só eu jogava basquete guardava meu time campeão na caixa de digoxina do meu vô o Ferro levou 14 do Inter eu era Cova, mas meu amor mesmo era a Ilha do Marduque Libres era minha Londres na placa dizia: “no se adelante, o el centinela abrirá fuego” Há momentos, ainda que não sejam a tônica, de brevidade radical, em que um flash se desprende do tempo: um naco de passado passando a durar infinitamente. É o caso deste poema de verso único, que pode, aliás, ser lido como […]

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