Quadrinhos em revista

Alison Bechdel: uma jornada em torno do “eu”

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Alison Bechdel: uma jornada em torno do “eu” Detalhe da tira “The Rule”, de Alison Bechdel

Duas coisas – entre tantas – visivelmente ganharam corpo nos quadrinhos de Alison Bechdel ao longo dos anos: o caráter autobiográfico e as cores. Aos poucos, o predomínio do preto & branco dos seus primeiros trabalhos ganhou o acréscimo de novas tonalidades – um azul acinzentado primeiro, um vermelho um tanto desbotado depois, até chegar num colorido bem mais variado em seu livro mais recente. Da mesma forma, lidar com a experiência pessoal permitiu, cada vez mais, que a autora também se desnudasse, dando mais centralidade à própria figura na medida em que os anos foram passando, fosse na inspiração para criações ficcionais, fosse na memória familiar, até que isso se revelasse definitivamente numa busca mais objetiva em torno da própria identidade.

Página de Fun Home – Uma Tragicomédia em Família, de Alison Bechdel (tradução de André Conti).

Após 40 anos de carreira, Bechdel é, hoje, uma das maiores “estrelas” do mundo dos quadrinhos. The Secret to Superhuman Strength, seu mais recente livro, lançado no último mês de Maio nos Estados Unidos, é a prova disso: a graphic novel recebeu grande visibilidade no meio editorial nos últimos meses – o que não costuma ser tão comum fora do âmbito dos quadrinhos de super-heróis –, com resenhas em diversos veículos; a autora foi chamada para muitas entrevistas, e o lançamento da obra foi recebido cheio de expectativas. Enquanto isso, no Brasil, suas tiras da série Dykes to watch out for, publicadas entre os anos 1980 e os anos 2000, finalmente ganharam tradução e saíram por aqui no último mês de Julho em uma coletânea pela editora Todavia – que também já anunciou o lançamento da edição brasileira The Secret to Superhuman Strength para 2022. Não se trata de um interesse repentino: a grande visibilidade que Bechdel ganhou dentro e fora do mercado editorial se deve, principalmente, a Fun Home, livro que a autora lançou em 2006 e que estabeleceu seu nome em definitivo no mundo das HQs. A obra tornou-se um best seller, foi apontada como “Livro do Ano” da revista Time e virou até peça da Broadway (premiada com o Tony, o principal troféu do teatro estadunidense). Para compreender um pouco do fenômeno que representou essa HQ que catapultou o nome de Alison Bechdel, é importante retomar seu contexto de lançamento. 

Ao longo dos anos 2000, uma enxurrada de quadrinhos autobiográficos invadiu as livrarias de todo o mundo. Esse novo momento das HQs, puxado principalmente pelo sucesso de Persépolis, de Marjane Satrapi, aproximou públicos antes distantes dos quadrinhos, permitindo um contato com as HQs para além das narrativas fantásticas e do humor gráfico, dando novo impulso a esse mercado. O fenômeno, contudo, não era uma novidade, visto que obras declaradamente autobiográficas já circulavam no meio com certo prestígio há um tempo – a “Trilogia do Contrato com Deus e outras graphic novels de Will Eisner produzidas a partir dos anos 1970, bem como Maus – A História de um Sobrevivente, de Art Spielgelman, lançada em 1986, eram os casos mais conhecidos até então. Em seu livro A Novela Gráfica (tradução brasileira de Magda Lopes), o pesquisador espanhol Santiago García afirma que essa tendência gradualmente estabelecida acabou se tornando, ao longo dos anos, um claro e consciente movimento de distinção: “Em maior ou menor grau, o recurso à autobiografia foi fundamental para escapar dos gêneros convencionais, que os quadrinistas alternativos com aspirações identificavam com a velha tradição dos quadrinhos juvenis das grandes editoras. A autobiografia era o ‘antigênero’, definia-se por oposição aos super-heróis como um relato sem fórmulas, absolutamente sincero e pessoal”. 

Diferentes de outros exemplos que já circulavam, as várias publicações desse tipo que surgiriam na virada para o século XXI apresentariam certo frescor em relação à representatividade: contextos socioculturais diversos e questões identitárias até então deixadas de lado na história das histórias em quadrinhos passariam, então, a ganhar protagonismo, tornando esse novo momento do autobiografismo um tanto particular – algo que seria possível ver, igualmente, na literatura produzida a partir desse período. Foi nesse sentido que Fun Home, de Alison Bechdel, tornou-se uma obra fundamental para compreender a nova guinada que se mostrava no campo dos quadrinhos, especialmente pela abordagem que a autora fazia das questões de gênero e sexualidade. Lésbica e com uma história familiar atravessada por controvérsias, Alison chamou atenção imediatamente por analisar sua própria trajetória e as de seus pais com uma honestidade cortante e com um olhar a um só tempo irônico, cínico e trágico. O próprio título já evocava isso: “fun home”, que pode ser traduzido como “casa divertida”, escondia um trocadilho que dizia respeito ao trabalho que o pai da quadrinista herdara ao administrar a “funeral home” da família, ou seja, a “casa funerária” fundada pelo bisavô da autora.

O quadrinho, de fato, foi um acontecimento à época. Bechdel demonstrava enorme talento não apenas para contar a história que propunha, mas também pela incrível capacidade em construir personagens. Na obra, sua própria saga de formação era apresentada em paralelo com a do personagem que de fato motivava a produção do livro: o pai da autora. Bechdel ia, assim, tecendo o fio de uma memória por vezes vaga, incompleta e fragmentada, construindo uma figura paterna ao mesmo tempo indefinida e intrigante, sofisticada e arrogante, odiável enquanto ser humano e sedutora enquanto peça de ficção. Fun Home – Uma Tragicomédia em Família foi a tentativa de Alison Bechdel de entender os mistérios que rondavam tal figura, um homem que escondia sua homossexualidade e que, na visão da filha, supostamente teria cometido suicídio; um homem com quem Alison cresceu e que lhe deu grande parte de seu refinamento intelectual, mas cujo distanciamento emocional impediu que laços mais fortes acabassem se construindo, transformando-se num total enigma especialmente após sua morte.

Para além de Fun Home, a relação com a autobiografia acabaria se tornando um elemento determinante na obra de Alison Bechdel daí para diante. Sua obra posterior, Você é minha mãe? Um drama em quadrinhos, seria lançada em 2012, evidenciando alguns dos mesmos procedimentos adotados anteriormente. Mais uma vez, Bechdel mergulhava na memória familiar e numa composição ficcional cheia de referências bibliográficas que ancoravam as digressões em torno de si e dos outros; mais uma vez, igualmente, a relação parental era o aparente motivo que levava à produção do livro, mas que aqui ia ganhando contornos mais complexos: agora, a quadrinista se mostrava mais, centralizava a narrativa com maior frequência sobre a própria figura e se afastava um pouco do humor e de uma visão um tanto cínica, demonstrando uma clara disposição para encontrar mais respostas do que perguntas (ainda que o título evocasse um questionamento).

 Em artigo do livro Enquadrando o real – Ensaios sobre quadrinhos (auto)biográficos, históricos e jornalísticos, a pesquisadora e quadrinista brasileira Aline Zouvi defende que o procedimento adotado por Alison Bechdel nessas graphic novels consiste numa busca de si pelo caminho da alteridade – um paradoxo em termos, mas que faz todo o sentido ao longo das leituras dessas obras. Aline – que também é uma referência contemporânea entre quadrinistas nacionais – identifica que a saída da “auto-obsessão” da autora consigo mesma nessas obras “pode ser encontrada no momento em que a vida de Bechdel, como mulher e lésbica, se identifica com a vida de outros”, constituindo uma alternância e um espelhamento constantes entre autobiografia e biografia – trazendo ora o pai, ora a mãe. Mergulhando nesse processo de figurações que se confundem, ainda há o enorme cabedal de referências intelectuais e artísticas que se manifestam nos dois livros, alternando também as figuras familiares biografadas com comentários biográficos de escritores e pensadores que servem de base para orientar as reflexões que vão se apresentando – Marcel Proust e Albert Camus no primeiro livro, por exemplo, Virginia Woolf, Freud e Winnicott no segundo.

Página de Fun Home – Uma Tragicomédia em Família, de Alison Bechdel (tradução de André Conti).

Por mais parecidas que sejam, há diferenças formais interessantes entre as duas obras. Em Fun Home, as cores e uma constante circularidade imagética evocam o mistério e a frieza entre pai e filha; além disso, a sobreposição de referências permite que o leitor construa conexões mais subjetivas com as características das figuras retratadas. Já Você é minha mãe? aponta para direções igualmente sofisticadas no quesito estético, em que as imagens memorialísticas também têm caráter repetitivo e circular, mas com uma intencionalidade ligeiramente diferente – mais didática talvez.

Ainda que o “outro” seja uma constante nas duas obras, Você é minha mãe? escancara a autorreferencialidade pelo menos de duas maneiras: vemos Alison se desenhando como a autora de quadrinhos que conhecemos (que desmistifica seu processo criativo e aponta para a metalinguagem nos quadrinhos) e também como a mulher que busca a compreensão de si e de suas questões familiares no consultório das duas psicanalistas que a acompanham na vida adulta. Vemos constantemente as sessões de terapia da protagonista, além de ilustrações de cenas ligadas às trajetórias dos teóricos cujas ideias vão sendo costuradas junto com a narrativa. Essa relação com a psicanálise permite que Você é minha mãe? seja eventualmente invadida por imagens oníricas e suas interpretações, além de novas formas de olhar imagens já vistas em Fun Home. Assim, Você é minha mãe? mostra-se mais claramente como um mergulho no “eu”: uma revisão em busca do autoconhecimento, de fato. 

Mas se os dois livros mais famosos de Alison Bechdel mergulhavam no entendimento parental para “disfarçar” (por assim dizer) a auto-análise, a obra mais recente da autora, a já citada The Secret to Superhuman Strength, parece já “virar essa página”, desta vez focando de fato em sua própria figura e contando com um enfoque inusitado: sua relação com a prática de atividades físicas. Antes dessa guinada autobiográfica, porém, Alison publicou por mais de 20 anos a série de tiras Dykes to watch out for. Diferentemente das graphic novels que viriam depois, aqui o universo era puramente ficcional, ainda que as tiras circundassem temas conectados com a vida particular da autora – em especial, as temáticas ligadas ao universo LGBTQIA+. 

A série é um marco dos quadrinhos justamente por isso: ao tratar as vivências cotidianas de personagens lésbicas como Monica (ou Mo), Lois e Clarice e suas relações afetivas com total naturalidade, Alison trouxe visibilidade a figuras quase sempre marginais nas HQs (que tradicionalmente espelham, no mundo ficcional, o apelo de grande parte de seu público consumidor: heteronormativo, cheio de idealizações masculinas e comumente misógino). Ainda que a tira tenha circulado durante um bom tempo em publicações alternativas, Dykes to watch out for se tornou um fenômeno, destacando-se também pela sua permanência: nada menos do que 25 anos (de 1983 a 2008) e publicações em cerca de 50 veículos diferentes.

Em Dykes, Alison exercita toda sua verve, explorando a temática da homossexualidade com muito humor e auto-paródia, fazendo com que os episódios também sirvam como uma espécie de crônica da vida política norte-americana. A experiência de leitura das tiras a partir de coletâneas se mostra curiosa nesse sentido: por tratar dos temas que trata, Dykes to watch out for constitui-se, naturalmente, como uma obra de caráter político atemporal, entretanto, na medida em que assistimos a uma espécie de saga de um grande grupo de personagens, também acompanhamos, ao longo dos anos, episódios da história recente dos EUA – algo que costuma acontecer com grande parte das tiras veiculadas em jornais por muito tempo; soma-se a isso a perceptível evolução do traço de Bechdel, que vai se tornando mais seguro e preciso, aproximando-se de um estilo sutilmente cartunesco que lhe dá leveza e fluidez e que auxilia, igualmente, na construção do humor.

pagina em preto e branco com quadrinhos mostram mulheres abraçadas nuas na cama

Trecho de uma tira de 1990 de Alison Bechdel da série Dykes to watch out for – inserida na coletânea O Essencial de Perigosas Sapatas, recentemente lançada no Brasil pela editora Todavia (tradução de Carol Bensimon).

E é justamente de Dykes to watch out for que vem uma das criações mais emblemáticas de Bechdel: uma tira de 1985 intitulada “The Rule”. Foi justamente nessa tira que se originou o chamado “Teste de Bechdel” – uma ferramenta de análise simples e sem muito método para avaliar qualitativamente a representatividade feminina na ficção. Para quem nunca ouviu falar, o teste é simples e, em sua versão original, serve para observar obras cinematográficas; para efetivá-lo, você deve considerar os filmes que viu recentemente e se perguntar: eles têm mais de uma personagem feminina? Se têm, essas mulheres conversam entre si? Se conversam, elas falam sobre algum assunto que não seja “homens”? 

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A tira “The Rule”, de Alison Bechdel, publicada em 1985 – de onde veio o chamado “Teste de Bechdel”.

Apesar de aparecer num trabalho de 1985, o “Teste de Bechdel” só ganhou notoriedade após o nome de Alison adquirir maior projeção com suas graphic novels autobiográficas – e sem que sua autora reivindicasse qualquer pioneirismo ou protagonismo nesse sentido. Em entrevista ao site Hypeness (em matéria assinada por Caio Delcolli), a autora afirmou, por exemplo, que não criara o tal teste “para declará-lo como uma métrica que as pessoas deveriam usar”: “Foi meio que uma piada entre mim e minhas amigas nos anos 1980. As feministas com quem eu saía naquela época e eu nos sentíamos ignoradas pela cultura, porque ela era dedicada a homens brancos e héteros. E nós fazíamos piadas a respeito de como não tínhamos filmes com mulheres que se parecessem com pessoas verdadeiras, que falassem umas com as outras. Parecia ser impossível. Foi uma piada que sumiria, se não fosse por algumas estudantes feministas de cinema, mais ou menos 20 anos depois, que a encontraram e acharam que expressava bem as dificuldades delas para contarem histórias sobre a vida delas. E aí, quando surgiu a internet, começou essa tração. Vinte anos depois de ter sido feita, tornou-se essa coisa”.

Ainda que a autora não reconheça totalmente seu grande papel nesse processo, Alison Bechdel tornou-se referência no tratamento de personagens no que diz respeito a questões de gênero e sexualidade, sendo igualmente responsável por um despertar dessa consciência na ficção contemporânea – não só nos quadrinhos, mas também na literatura e no audiovisual. Sobre isso, há que se destacar uma passagem de Você é minha mãe? em que a personagem-autora recorre a uma citação do psicanalista inglês Donald Woods Winnicott, que reformula a clássica frase de René Descartes “Penso, logo existo” para “Quando vejo que sou visto, é então que existo”. 

A quadrinista Aline Zouvi também se refere a esse enunciado para observar o quanto ele revela sobre a relação entre o “eu” e o “outro” nos trabalhos de Bechdel – em sua proposta conceitual e nos quadrinhos autobiográficos como um todo. Acredito, no entanto, que tal frase também nos serve para compreendermos as criações da autora enquanto fenômenos políticos na arte: “ser visto para que se exista” é algo que também diz respeito à representividade, afinal de contas; trata-se de uma potência que não pode ser deixada de lado na medida em que se analisa uma obra tão significativa no que despeito às temáticas LGBTQIA+. Nesse sentido, o processo de “visibilizar” impulsiona o aparecimento da diversidade e de muitas vozes antes silenciadas no campo ficcional (campo esse que muitas vezes acaba por refletir a realidade empírica). A figura de Alison Bechdel já seria política por si só, portanto, pelo simples fato dela existir enquanto artista de destaque no mundo contemporâneo; contudo, se quisermos ficar apenas com suas obras, tudo bem, pois suas HQs já falam bastante por ela mesma, na medida em que ambas – obra e autora – estão incontornavelmente indissociadas.


Vinícius Rodrigues é professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela UFRGS, sempre estudando quadrinhos e humor gráfico. Sua tese de doutorado venceu, em 2020, o Troféu HQMIX, o prêmio mais importante do segmento dos quadrinhos no Brasil. É autor de diversos artigos e contribuições em livros, em revistas acadêmicas e na imprensa. [email protected]

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