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Marcas, símbolos e cicatrizes: os quadrinhos de Marcelo D’Salete

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Marcas, símbolos e cicatrizes: os quadrinhos de Marcelo D’Salete

Há situações em que o pesar pode transcender a melancolia e se converter em potência. A morte recente do ator Chadwick Boseman, por exemplo, reacendeu a discussão sobre representatividade que vem atravessando o debate cultural nos últimos anos. A importância de sua figura e a comoção em torno de seu falecimento deixam claro, inclusive, que tal debate já vinha gerando frutos importantes, afinal, sua presença marcante no meio artístico se dava, principalmente, pelo protagonismo que vinha sendo exercido pelo personagem Pantera Negra, que Chadwick interpretou em 4 filmes recentes do universo cinematográfico da editora Marvel Comics, que transpôs vários de seus heróis dos quadrinhos para a tela grande na última década. Criado por Stan Lee e Jack Kirby nos anos 1960, Pantera Negra antecipou super-heróis negros que seriam criados por outros autores e também em outras editoras nas décadas seguintes, como Falcão, Luke Cage, Misty Knight, Tempestade, Blade, o Homem-Aranha de Miles Morales, Spawn, Raio Negro e John Stewart (o afro-americano que vestiu o manto de Lanterna Verde). Se o protagonismo de algumas dessas criações, contudo, demorou a se disseminar de fato na cultura pop com a mesma ênfase que ícones como Capitão América, Batman ou Super-Homem, isso acabou por finalmente dar sinais significativos num contexto em que a busca por representatividade passou a ser não mais necessária apenas, mas também urgente. A representatividade, porém, não se constrói apenas por meio das criações ficcionais, mas também por quem as cria. Sem que a diversidade se faça notar em quem produz arte, os objetos artísticos continuarão, então, a repetir as mesmas figurações de sempre. Indo contra esse sistema de representações que apenas reproduz desigualdades, apagamentos e silenciamentos, temos muitas produções de escritores e artistas negros, como é o caso de Marcelo D’Salete – um dos poucos brasileiros a ganhar o Prêmio Eisner, um dos troféus mais cobiçados dos quadrinhos mundiais (e, fato importantíssimo e até então inédito, com uma HQ feita e publicada primeiramente no Brasil que fala, justamente, sobre o país). 

A produção de Marcelo D’Salete não traz o universo fantástico dos super-heróis, ainda que flerte muito com temas como coragem, justiça e luta. Mesmo assim, há um diálogo que considero fortuito entre algumas de suas histórias produzidas até agora e a construção de um personagem como Pantera Negra. Diferente da versão concebida nas páginas das HQs, o Pantera das telas foi desenvolvido por um criador negro, o diretor Ryan Coogler. Nessa versão cinematográfica, o universo do personagem e sua jornada são compostos de inúmeras camadas associadas à discussão sobre representatividade, sintetizadas em forma e conteúdo inspiradores – especialmente, para a comunidade negra. T’Challa, o Pantera, é uma criação que naturalmente está condicionada à indústria cultural, mas isso, na verdade, consegue expor ainda mais a sua potência. Essa importância gigantesca se dá não só porque ele está identificado com a luta heroica do bem contra o mal, mas porque sua trajetória está vinculada, ao mesmo tempo, à ancestralidade africana, aos devires negros associados a uma estética afro-futurista e à manutenção de um vínculo a terra-natal, o país fictício Wakanda, localizado no continente africano. A riqueza do personagem, portanto, existe também porque ele se movimenta constantemente entre passado, presente e, pode-se dizer, futuro. Aqui, há um primeiro ponto de contato entre Salete e a criação de Stan Lee e Jack Kirby: Marcelo também alça o negro à condição de protagonista e está interessado tanto no “hoje” quando no “ontem”. Acredito, no entanto, que esse aspecto tem desdobramentos ainda mais significativos…

Seria talvez simplista reduzir a Wakanda de Pantera Negra a uma utopia. Sua autonomia e grandiosidade se dão, em grande parte, por ter sido uma terra que não foi saqueada e dominada como outras tantas nações africanas. Assim, é um país que sempre consegue vislumbrar seu próprio “amanhã” e é demasiadamente avançado. Sua constituição como nação nos permite, portanto, rever criticamente a própria história e todo o processo colonialista. O vínculo com o “ontem”, porém, também se traduz no orgulho do povo de Wakanda em relação às suas crenças, seus ritos e símbolos, seu vestuário, seu próprio cotidiano e suas tradições familiares e políticas. E aí que entra a grande beleza do universo mítico de Pantera Negra: T’Challa e seu povo vivem um presente promissor e têm a possibilidade de olhar para o futuro, mas também conhecem quem são e de onde vieram. Quantos descendentes do povo africano, especialmente nas Américas, têm essa chance? O apagamento do passado, a escrita única da história e a manipulação da memória (tornando-a difusa, difícil de precisar ou mesmo de resgatar) levam às constantes tentativas de esvaziamento das discussões identitárias, especialmente se o contexto de discussão perpassa a temática étnico-racial. A luta pela memória se soma, portanto, à constituição dos sujeitos – de sua autoestima, de seu empoderamento. Nesse sentido, é preciso entender que a luta pela representatividade também é, enfim, uma luta pela própria existência. E é aqui que se encontra o grande nó: essa busca por memória é, afinal, uma das questões centrais da obra de Marcelo D’Salete.

Marcelo venceu o Prêmio Eisner em 2018 com a obra Cumbe (2014), publicada nos Estados Unidos em 2017 com o título Run for it – Stories of slaves who fought for the freedom. A obra é um dos resultados de um longo processo de estudos acerca do passado colonial brasileiro que também levou à monumental gaphic novel Angola Janga – Uma história de Palmares (2017). A bem da verdade, são “obras-irmãs” e que ganham ainda mais força quando lidas em conjunto. Ambas tematizam a escravidão negra no Brasil, mas não é possível dizer que se repetem, pois são, de fato, complementares. Se Cumbe é atravessada pela dor, Angola Janga tem como norte a resistência; se a primeira é uma obra fragmentada, que reflete a diversidade temática e humana presente nas narrativas dos africanos escravizados em nosso país, a segunda tem uma vocação mais “romanesca”, de dar totalidade a uma gama de personagens e histórias que orbitam em torno de um tema comum: a história do local popularmente conhecido como Quilombo dos Palmares, o conjunto de mocambos que representou o grande foco de resistência dos negros contra o senhores de escravos durante o século XVII. 

Além das histórias de levantes de escravizados no Brasil-colônia, as duas obras estão recheadas de temáticas pulsantes: paixão, loucura, opressão de gênero, traição, política, crença, misticismo, heroicização, companheirismo; são obras que trazem desejos e frustrações, que ressaltam embates, lutas e morte, mas que também falam muito de vida. Essa vida pulsa principalmente na cultura dos povos de origem banto (originários principalmente do Congo e de Angola), que Marcelo pontua em evidências linguísticas e iconográficas, bem como em passagens e diálogos que evocam ancestralidade, fé e respeito a certas hierarquias sociais e familiares. 

Pode-se observar que os destaques dados a tais aspectos, tanto em Cumbe quanto em Angola Janga, configuram escolhas muito bem pensadas, afinal, trata-se de enxergar os povos escravizados para além da condição de “objetos” dos senhores, apontando, igualmente, para outras direções que não só a do sofrimento óbvio remanescente do processo escravista. É como se as obras de Marcelo evidenciassem que não é possível ficar satisfeito com a mera pecha de que esses africanos (termo, por si só, generalista) foram escravizados; a partir disso, é necessário compreender quem eram esses indivíduos, inclusive antes desse processo, como se constituiam culturalmente e como seres humanos, afinal. Essa questão humana se traduz também na luta, pois se a submissão vem da força, da dor e da humilhação, essas ações não ficam sempre impunes e, em grande parte de Cumbe e Angola Janga, também temos a oportunidade de ver que a história da escravidão no Brasil também foi uma história de resistência.

Fragmentos de “Cumbe” e “Malungo”, duas histórias do livro Cumbe, de Marcelo D’Salete.

Cumbe e Angola Janga fornecem vasto repertório acerca de todos esses temas, mostrando que o ferro ao pescoço e as correntes não podem ser as únicas imagens associadas aos negros na história brasileira. Nesse sentido, é curioso observar, justamente, a força da simbologia nas obras de Marcelo D’Salete. Nas duas HQs, a relevância da iconografia têm várias funções: uma delas é evocar, por meio de símbolos ancestrais e objetos, a presença marcante da cultura banto; outra, é recorrer a metáforas visuais, com quadros analisados ora de modo individual, ora de modo simultâneo na página, ora em sequência; em outro âmbito, há também o destaque àquilo que é resultado direto da lógica escravista – cicatrizes e marcas dos senhores nos corpos negros, por exemplo. 

O trabalho em torno desses itens revela o potencial dos quadrinhos como linguagem narrativa, pois se utiliza de modo especial de suas características mais particulares. Angola Janga, em particular, é recheada de composições de página que servem tanto para dar sequência à história quanto para localizar os personagens em seus cenários; entretanto, a partir de um determinado momento, percebemos que essa é uma proposta conceitual, que também guiará fluxos de consciência dos personagens e sugerirá reflexões e abordagens críticas em transições de quadros belíssimas, que dialogam com diferentes tempos e lugares para além da narrativa principal. A justaposição de quadros, portanto, muitas vezes servirá a uma sobreposição de temas, espaços e temporalidades (inclusive, o tempo-espaço contemporâneo). Sendo assim, não se trata apenas de mostrar uma história, mas sim revelar de que modo a linguagem dos quadrinhos pode ser usada para contá-la. No caso de artistas como Marcelo D’Salete, isso faz toda a diferença.

Fragmentos (acima e abaixo) de diferentes capítulos de Angola Janga, de Marcelo D’Salete.

Aos muitos cortes e justaposições de quadros, somam-se as muitas vozes em Cumbe e Angola Janga. Fica claro o interesse de Marcelo D’Salete em querer contar a história da escravidão e da resistência dos negros com foco em outros personagens além daqueles que são mais conhecidos, como Ganga-Zumba, Zumbi e Domingos Jorge Velho. Há diversidade nessa história e isso permite olhar não apenas de fora dos quilombos, a partir da perspectiva dos brancos, mas também de dentro, revelando o cotidiano e as questões íntimas dos personagens. A ampliação do material humano dessa grande saga também serve ao propósito do autor de oferecer histórias não só de derrotas, mas também de persistência em torno do ideal de liberdade, na medida em que essa mensagem possa ser convertida em potência, iluminando o caminho para a leitura dessas histórias nos dias de hoje. É por isso que Cumbe tem esse título: trata-se de uma denominação de “quilombo” (um símbolo de permanência) e que igualmente evoca “luz”, “sol”, “força”; também é por isso que, no penúltimo conto dessa obra, uma velha senhora menciona que “cumbe virá novamente”, mesmo depois de um levante negro ser dizimado; é por isso, ainda, que a última história do livro fala sobre resistência, busca por justiça e evoca o florescer e o germinar; no caso de Angola Janga, é por essa mesma razão que o livro termina nos dando a possibilidade de vislumbrar a resistência (literalmente) nas mãos de jovens mulheres negras, mesmo após a trágica morte do líder Zumbi (quadrinizada de forma arrepiante e muito poética).

Sequência de páginas de Angola Janga, de Marcelo D’Salete.

O interesse das obras de Marcelo D’Salete, contudo, não vem apenas do resgate histórico. Seus dois primeiros livros, Noite Luz (2008) e Encruzilhada (2011), tratam de juventude negra, violência, desigualdade e discriminação em ambientes urbanos nos dias atuais. Da mesma forma que Cumbe e Angola Janga ganham força se lidas em conjunto, Noite Luz e Encruzilhada também apresentam chaves de leitura interessantes se analisadas com as demais obras do autor em perspectiva. 

Sendo assim, primeiramente é curioso notar, nesses quatro trabalhos, a predileção que Marcelo tem pela fragmentação narrativa. Nunca se narra apenas uma história, mas várias, unidas por propostas que podem ser visuais ou temáticas. A “cola” conceitual pode ser objetiva (como Palmares em Angola Janga) ou mais ampla (como o espaço da cidade grande). Nesse sentido, Noite Luz, Encruzilhada e Cumbe se afastam de qualquer proposta “romanesca”, uma vez que Marcelo as constroi como obras de “contos”, ou seja, com histórias realmente independentes entre si, ainda que aproximáveis e coerentes umas com as outras. 

Encruzilhada, particularmente, é uma obra absolutamente singular no que diz respeito à ideia da fragmentação. Somos apresentados a diferentes histórias, mas não há foco narrativo específico em nenhuma delas. Os personagens são sempre vários; suas histórias, de fato, irão se cruzar, como o título sugere, mas raramente é possível dizer sobre quem ou sobre o que é cada conto. É uma obra que se constrói na multiplicidade, portanto, há uma reconfiguração da ideia de unidade tanto do espaço quanto do tempo: Marcelo praticamente abandona a noção de sequencialidade e linearidade e coloca quase tudo no plano da simultaneidade, levando em conta o fato de que os quadrinhos podem (e, muitas vezes, devem) ser lidos como uma arte do espaço narrativo – no caso, o espaço da(s) página(s) e a correlação entre os quadros para efeitos emocionais e simbólicos, não apenas de encadeamento. 

Olhando em perspectiva, vemos o quanto Encruzilhada apresenta recursos que seguiriam sendo usados em Cumbe e, principalmente, em Angola Janga, como as referências icônicas em quadros fechados dividindo espaço com o andamento narrativo e servindo como contrapontos aos quadros abertos e à sequência. Em Encruzilhada, isso também serve para mostrar a polifonia da grande cidade, com uma massa de signos como placas, logomarcas, calçadas, letreiros e fachadas que dão uma impressão “quase cubista” às páginas – como comentou a professora e tradutora Maria Clara Carneiro em artigo acerca da obra (“Narrativas contemporâneas das artes ‘à margem’: sobre Encruzilhada e outras ‘artes periféricas’”, 2012). Essa percepção confusa do ambiente urbano também dialoga com as constantes opressões e angústias dos personagens, o que traz a sensação de que, na obra, a forma está profundamente ligada ao conteúdo. Flanam pelas páginas moradores de rua, usuários e traficantes de drogas, policiais, ladrões, trabalhadores formais e informais, representantes controversos da ordem e da desordem, gente que sobrevive com muita luta e gente que simplesmente perde na vida em meio às opressões e desigualdades cotidianas.

A reedição de 2016 de Encruzilhada, de Marcelo D’Salete, é acrescida de “Risco”, história publicada pelo autor em 2014. Lida com a narrativa que dá título ao livro, temos duas amostras trágicas do racismo estrutural/institucional e da consequente violência policial que têm sido pauta constante nos últimos tempos.

As referências visuais do trabalho de D’Salete são várias. Frequentemente, o autor menciona a importância de Peter Kuper, famoso pela tira Spy vs. Spy, veiculada durante anos na revista Mad. Assim como Kuper, D’Salete trabalha com pouco texto verbal; vemos entre os dois uma influência que se dá mais em relação à forma narrativa do que no traço. Nesse último quesito, as referências mais marcantes de Marcelo estão associadas a outros autores que, assim como ele, têm no uso preto e branco uma de suas marcas. É o caso de referências já citadas pelo brasileiro, como o argentino Alberto Breccia e o italiano Hugo Pratt, bem como toda uma herança visual do mangá – que muito se mostra nas cenas de ação, por exemplo. 

Entre Noite Luz e Angola Janga, pode-se ver uma mudança nas escolhas visuais de Marcelo, indo de uma proposta mais “suja” (um reflexo do espaço urbano), com grande ênfase nas sombras, chegando a uma abordagem mais detalhada e delineada, com aspectos figurativos mostrados de maneira literalmente mais clara. Ainda que essa evolução possa ser lida pelo ponto de vista técnico, arrisco a dizer que isso pode estar carregado de um conteúdo simbólico: talvez, tenha a ver com um movimento que traduz conceitualmente a própria questão da busca por visibilidade. 

Em Encruzilhada, os personagens eram esmagados por prédios, oprimidos por concreto, asfixiados por becos; em Angola Janga, há campos abertos e enquadramentos que frequentemente miram o céu e as copas das árvores, onde a liberdade é sempre uma promessa, mas, por outro lado, há sempre a lembrança de que a luta permanece e é preciso atenção, manutenção e cuidado constantes. Nesse sentido, reflete-se o lugar da obra de Marcelo na arte contemporânea: hoje, o autor tem destaque no meio quadrinístico, mas quantos escritores, cineastas e artistas visuais negros que abordam temáticas similares podem dizer o mesmo sobre seus trabalhos? Quantos autores negros fazem parte do nosso repertório de leitura? Quantos personagens negros têm o mesmo nível de protagonismo na cultura pop que um Pantera Negra, por exemplo? Ao meu ver, essas questões devem vir acompanhadas da leitura das obras de Marcelo D’Salete, assim como o imenso orgulho de termos esse grande artista brasileiro como representante do que há de melhor em nossos quadrinhos.


Vinícius Rodrigues é professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela UFRGS, sempre estudando quadrinhos e humor gráfico. É autor de diversos artigos e contribuições em livros, em revistas acadêmicas e na imprensa. [email protected]

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