Folhetim, Parêntese

Rafael Escobar: Jonas Pasteleiro — Capítulo 1

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Rafael Escobar: Jonas Pasteleiro — Capítulo 1 JONAS PASTELEIRO  (AVENTURA DE UM RAPAZ QUE DURANTE A QUARENTENA NÃO TRABALHAVA NEM DE HOME OFFICE E TEVE INADEQUADA DISPOSIÇÃO PARA SAIR DE CASA RUMO AO INSONDÁVEL PORÉM INSTIGANTE MUNDO DE CARACTERÍSTICAS INACREDITÁVEIS PROPORCIONADO POR ESTRANHOS SERES PECULIARES E FASCINANTES)   PRÓLOGO Até hoje, toda vez que eu vejo um cachimbo de crack ou um besouro rola-bosta, eu lembro do ano de 2020 e do que eu vivi durante a pandemia de COVID-19 (pra quem não sabe, besouro rola-bosta são aqueles que se alimentam de cocô de bicho grande e que levam pra casa uma esfera de merda que eles vão rolando que nem uns equilibristas – vejo uma semelhança grande desses animais com os seres humanos e invejo o quanto eles são mais literais do que nós). É claro que também tem outras coisas que me lembram dessa época, mas o cachimbo e o besouro têm um lugar especial, não sei bem por quê. É estranho como a memória funciona. Esse foi um período de acontecimentos extremamente importantes pra mim: eu conheci minha esposa, usei uma boleadeira e aprendi que o desconhecimento constante sobre tudo que diz respeito às emoções é o que me faz ser alguém apavorado por estar no mundo. No início, eu tava bem como eu queria; com o tempo, passei a me sentir uma mistura de Jesus com Harry Potter; foi estranho. Eu teria dado qualquer coisa pra querer ficar no meu estado apático e solitário enquanto o mundo desmoronava no caos geral de coronavírus, bolsonarismo, etc. – mas não rolou: um pouco depois do primeiro mês de verdadeira quarentena, alguma criança deu risada no meu espírito, e eu cheguei a sentir amor, medo e o mais estranho de tudo: eventuais acessos de confiança em mim mesmo e nas minhas decisões. Às quatro da tarde de uma terça-feira, eu tive uma importante sessão virtual de terapia com a minha psiquiatra; depois, ali pelas sete e pouco, eu resolvi que tinha que ir no Center Shop da Venâncio comprar algo pra comer – é a partir desses dois acontecimentos que começa a minha história; posso dizer que todos os dia da minha vida até ali não tinham sido nem um pouco interessantes, pelo menos nada perto do que me esperava. No fim da minha jornada eu conheci Deus, mas o que mais importa é tudo que aconteceu no meio do caminho. Nunca desista dos seus sonhos Foi o que eu disse assim que abri o Skype pra falar com a minha psiquiatra. Essa frase ficava surgindo na minha cabeça toda hora. Eu sabia que nem é esse normalmente o sentido dela, mas eu repetia sempre, acreditando que ela falava pra não esquecer os sonhos que a gente tem quando tá dormindo; só que é justamente pra isso que eu tomo algumas medicações: pra ver se diminui a quantidade absurda de sonhos intensos e angustiantes – claro que também pra eliminar os pensamentos intrusivos que me invadem nos momentos mais triviais (deitado na cama vendo tevê e […]

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JONAS PASTELEIRO  (AVENTURA DE UM RAPAZ QUE DURANTE A QUARENTENA NÃO TRABALHAVA NEM DE HOME OFFICE E TEVE INADEQUADA DISPOSIÇÃO PARA SAIR DE CASA RUMO AO INSONDÁVEL PORÉM INSTIGANTE MUNDO DE CARACTERÍSTICAS INACREDITÁVEIS PROPORCIONADO POR ESTRANHOS SERES PECULIARES E FASCINANTES)   PRÓLOGO Até hoje, toda vez que eu vejo um cachimbo de crack ou um besouro rola-bosta, eu lembro do ano de 2020 e do que eu vivi durante a pandemia de COVID-19 (pra quem não sabe, besouro rola-bosta são aqueles que se alimentam de cocô de bicho grande e que levam pra casa uma esfera de merda que eles vão rolando que nem uns equilibristas – vejo uma semelhança grande desses animais com os seres humanos e invejo o quanto eles são mais literais do que nós). É claro que também tem outras coisas que me lembram dessa época, mas o cachimbo e o besouro têm um lugar especial, não sei bem por quê. É estranho como a memória funciona. Esse foi um período de acontecimentos extremamente importantes pra mim: eu conheci minha esposa, usei uma boleadeira e aprendi que o desconhecimento constante sobre tudo que diz respeito às emoções é o que me faz ser alguém apavorado por estar no mundo. No início, eu tava bem como eu queria; com o tempo, passei a me sentir uma mistura de Jesus com Harry Potter; foi estranho. Eu teria dado qualquer coisa pra querer ficar no meu estado apático e solitário enquanto o mundo desmoronava no caos geral de coronavírus, bolsonarismo, etc. – mas não rolou: um pouco depois do primeiro mês de verdadeira quarentena, alguma criança deu risada no meu espírito, e eu cheguei a sentir amor, medo e o mais estranho de tudo: eventuais acessos de confiança em mim mesmo e nas minhas decisões. Às quatro da tarde de uma terça-feira, eu tive uma importante sessão virtual de terapia com a minha psiquiatra; depois, ali pelas sete e pouco, eu resolvi que tinha que ir no Center Shop da Venâncio comprar algo pra comer – é a partir desses dois acontecimentos que começa a minha história; posso dizer que todos os dia da minha vida até ali não tinham sido nem um pouco interessantes, pelo menos nada perto do que me esperava. No fim da minha jornada eu conheci Deus, mas o que mais importa é tudo que aconteceu no meio do caminho. Nunca desista dos seus sonhos Foi o que eu disse assim que abri o Skype pra falar com a minha psiquiatra. Essa frase ficava surgindo na minha cabeça toda hora. Eu sabia que nem é esse normalmente o sentido dela, mas eu repetia sempre, acreditando que ela falava pra não esquecer os sonhos que a gente tem quando tá dormindo; só que é justamente pra isso que eu tomo algumas medicações: pra ver se diminui a quantidade absurda de sonhos intensos e angustiantes – claro que também pra eliminar os pensamentos intrusivos que me invadem nos momentos mais triviais (deitado na cama vendo tevê e […]

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