Folhetim, Parêntese

Rafael Escobar: Epílogo

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Rafael Escobar: Epílogo Eu nunca acreditei em Deus; não existiu sequer um pequeno período da minha vida em que eu tive essa crença, mas quando eu tava desacordado, no chão daquele pátio, eu me encontrei com alguém dentro da minha cabeça, ou do meu espírito. Era uma mulher muito parecida com a minha mãe, que dizia saber de tudo e que por isso sabia exatamente quem eu era e como eu me sentia; essa mulher me disse o seguinte:  “As coisas podem melhorar, podem até ficar ótimas, mas isso não significa que tu vai te sentir super bem. O que acontece no mundo tem sim algum impacto em nós, mas tem algo que existe do lado de dentro, que é o que coordena esse impacto, e a gente não conhece isso. Não existe uma previsão apurada de como as coisas resultam, uma proporção entre o acontecido e a consequência, e tudo que a gente precisa aprender é a ter qualquer mínimo controle. Não é preciso ter certezas. Nem culpas. A única missão é tentar entender o que são as emoções.” O que aconteceu comigo durante a pandemia do coronavírus em 2020 foi extremamente importante, não só pra mim, já que foi nesse período que eu percebi que tinha vontade de participar da busca interminável pelo contato com o desconhecido, mas também pro país inteiro, pro Brasil, já que a onda de energia deslavadora de cérebros que a mãe do Gabriel e a Nona emitiram foi muito mais forte do que o planejado, e o resultado foram milhões de cérebros bolsonaristas revertidos pelo país inteiro. Inversamente proporcional à redução da pandemia foi o aumento do ódio nos corações dos brasileiros: conforme o vírus ficava cada vez mais fraco nos meses seguintes, a raiva dentro de cada um só cresceu e cresceu, até que o clima de revolta no país ficou insustentável. E é como tá agora. Alguma coisa vai acontecer logo, acho que alguma coisa boa. Por enquanto, sigo transitando entre a minha casa e a da Nana; eu passo mais tempo na dela do que ela na minha (ela ainda tá trabalhando de home office e precisa de vários materiais por perto). De vez em quando o Gabriel vem visitar e de vez em quando a gente vai visitar eles, ainda com cuidados, de máscara, passando álcool gel e tudo mais, já que a pandemia e o bolsonarismo diminuíram muito, mas ainda falta um pouquinho pra acabar. Nunca mais ouvimos falar do Matusalém; a última visão que a gente teve dele foi logo que acordamos no chão daquele pátio, cheio de cadáveres de monstros em volta: ele tava de pé com um sorrisinho desgraçado na cara, fazendo um hang loose enquanto desaparecia num portal.  O Gabriel anda cheio de projetos: gravou sozinho um disco de trash metal inteiro no quarto (ele comprou um computador novo e aprendeu a mexer em uns programas de áudio) e disse que vai gravar um áudio meio experimental contando toda essa história que a gente viveu. Acho interessante. […]

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Eu nunca acreditei em Deus; não existiu sequer um pequeno período da minha vida em que eu tive essa crença, mas quando eu tava desacordado, no chão daquele pátio, eu me encontrei com alguém dentro da minha cabeça, ou do meu espírito. Era uma mulher muito parecida com a minha mãe, que dizia saber de tudo e que por isso sabia exatamente quem eu era e como eu me sentia; essa mulher me disse o seguinte:  “As coisas podem melhorar, podem até ficar ótimas, mas isso não significa que tu vai te sentir super bem. O que acontece no mundo tem sim algum impacto em nós, mas tem algo que existe do lado de dentro, que é o que coordena esse impacto, e a gente não conhece isso. Não existe uma previsão apurada de como as coisas resultam, uma proporção entre o acontecido e a consequência, e tudo que a gente precisa aprender é a ter qualquer mínimo controle. Não é preciso ter certezas. Nem culpas. A única missão é tentar entender o que são as emoções.” O que aconteceu comigo durante a pandemia do coronavírus em 2020 foi extremamente importante, não só pra mim, já que foi nesse período que eu percebi que tinha vontade de participar da busca interminável pelo contato com o desconhecido, mas também pro país inteiro, pro Brasil, já que a onda de energia deslavadora de cérebros que a mãe do Gabriel e a Nona emitiram foi muito mais forte do que o planejado, e o resultado foram milhões de cérebros bolsonaristas revertidos pelo país inteiro. Inversamente proporcional à redução da pandemia foi o aumento do ódio nos corações dos brasileiros: conforme o vírus ficava cada vez mais fraco nos meses seguintes, a raiva dentro de cada um só cresceu e cresceu, até que o clima de revolta no país ficou insustentável. E é como tá agora. Alguma coisa vai acontecer logo, acho que alguma coisa boa. Por enquanto, sigo transitando entre a minha casa e a da Nana; eu passo mais tempo na dela do que ela na minha (ela ainda tá trabalhando de home office e precisa de vários materiais por perto). De vez em quando o Gabriel vem visitar e de vez em quando a gente vai visitar eles, ainda com cuidados, de máscara, passando álcool gel e tudo mais, já que a pandemia e o bolsonarismo diminuíram muito, mas ainda falta um pouquinho pra acabar. Nunca mais ouvimos falar do Matusalém; a última visão que a gente teve dele foi logo que acordamos no chão daquele pátio, cheio de cadáveres de monstros em volta: ele tava de pé com um sorrisinho desgraçado na cara, fazendo um hang loose enquanto desaparecia num portal.  O Gabriel anda cheio de projetos: gravou sozinho um disco de trash metal inteiro no quarto (ele comprou um computador novo e aprendeu a mexer em uns programas de áudio) e disse que vai gravar um áudio meio experimental contando toda essa história que a gente viveu. Acho interessante. […]

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