Folhetim, Parêntese

Rafael Escobar: Senhora do Destino – Capítulo 3

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Rafael Escobar:  Senhora do Destino – Capítulo 3 Jonas PasteleiroUm folhetim cem por cento porto-alegrense, em tempos de coronavírus e bolsonarismo (No capítulo anterior: Jonas conhece o misterioso homem chamado Gabriel, que diz ter ido buscá-lo propositalmente para uma missão) “No que tu trabalha?”, ele me perguntou antes que eu pudesse falar qualquer coisa sobre o que ele tinha dito. “Ãhnn, eu vinha fazendo umas entregas de bicicleta”, eu respondi.  NÃO É MUITO EMOCIONANTE, NÉ? (ele deu um pulo da cama e começou a falar bem alto) BOM, TALVEZ SEJA MAIS EMOCIONANTE DO QUE TRABALHAR NUM ESCRITÓRIO, MAS COM CERTEZA NÃO É MUITO EMOCIONANTE, NÉ? Não tive tempo de responder, mas na verdade eu nem queria; eu queria mesmo é ouvir o que ele tinha pra falar – aquela espécie de convite tava começando a instigar meus últimos instintos inconsequentes. SABE OS TEUS SONHOS? E SE EU TE DISSER QUE TEM COMO TU VIVER, HOJE, ALGO AINDA MAIS EMPOLGANTE DO QUE AS COISAS MAIS MALUCAS QUE TU SONHA? TU IA QUERER? Hm, eu acho que sim – eu respondi ainda tentando processar aquela informação. NÃO OUVI DIREITO. SIM OU NÃO? Agora ele parecia um apresentador de programa de auditório, ou um professor de cursinho (existem muitas semelhanças entre os dois), perguntando pro público e ao mesmo tempo cobrando uma empolgação maior. SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM, eu gritei, levantando os braços pra cima como se estivesse num culto evangélico. Beleza, então vamo chamar um Uber. .:. Fiquei meio chateado por ter que cancelar minha janta, mas é isso aí, não é toda hora que a gente recebe um convite pra viver uma aventura, e eu já tava entregue a qualquer coisa que viesse. “E vai ter bastante comida lá na casa da vó”, o Gabriel disse, e eu acreditei. Colocamos nossas máscaras, peguei um frasco de álcool gel de bolso, minha carteira, celular, chave de casa, e descemos pra pegar o Uber. “É bem pertinho, logo ali em cima, passando a Independência, perto do TOTAL, deixa que eu chamo”. Enquanto Gabriel chamava o Uber, pensei que ele me devia algumas explicações, aquilo tudo tava ficando sobrenatural demais pra mim (como assim um “ser superior tinha planos pra nós”?, como assim ele tinha ido no Center Shop especialmente pra me encontrar?), mas em vez de fazer qualquer uma dessas perguntas, observando o logotipo do Iron Maiden na cara do rapaz, consegui dizer apenas Então tu mora com a tua vó? COM A MINHA VÓ E A MINHA MÃE  Não entendi por que ele gritou, nem por que ele tava parecendo tão eufórico. “Por que tu tá gritando?”. “PORQUE COM A MÁSCARA ACHO QUE NÃO SAI O SOM DIREITO NÉ?”. “Não, não… tô te ouvindo bem, fica tranquilo”. O Gabriel não parecia o tipo de pessoa que é enviada por um ser superior (confesso que eu sempre desejei receber qualquer tipo de ajuda divina, mas nunca tive muita fé; a única coisa ligada à religião que existiu na minha vida foi o meu colégio, que era uma instituição católica, mas na minha família todo […]

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Jonas PasteleiroUm folhetim cem por cento porto-alegrense, em tempos de coronavírus e bolsonarismo (No capítulo anterior: Jonas conhece o misterioso homem chamado Gabriel, que diz ter ido buscá-lo propositalmente para uma missão) “No que tu trabalha?”, ele me perguntou antes que eu pudesse falar qualquer coisa sobre o que ele tinha dito. “Ãhnn, eu vinha fazendo umas entregas de bicicleta”, eu respondi.  NÃO É MUITO EMOCIONANTE, NÉ? (ele deu um pulo da cama e começou a falar bem alto) BOM, TALVEZ SEJA MAIS EMOCIONANTE DO QUE TRABALHAR NUM ESCRITÓRIO, MAS COM CERTEZA NÃO É MUITO EMOCIONANTE, NÉ? Não tive tempo de responder, mas na verdade eu nem queria; eu queria mesmo é ouvir o que ele tinha pra falar – aquela espécie de convite tava começando a instigar meus últimos instintos inconsequentes. SABE OS TEUS SONHOS? E SE EU TE DISSER QUE TEM COMO TU VIVER, HOJE, ALGO AINDA MAIS EMPOLGANTE DO QUE AS COISAS MAIS MALUCAS QUE TU SONHA? TU IA QUERER? Hm, eu acho que sim – eu respondi ainda tentando processar aquela informação. NÃO OUVI DIREITO. SIM OU NÃO? Agora ele parecia um apresentador de programa de auditório, ou um professor de cursinho (existem muitas semelhanças entre os dois), perguntando pro público e ao mesmo tempo cobrando uma empolgação maior. SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM, eu gritei, levantando os braços pra cima como se estivesse num culto evangélico. Beleza, então vamo chamar um Uber. .:. Fiquei meio chateado por ter que cancelar minha janta, mas é isso aí, não é toda hora que a gente recebe um convite pra viver uma aventura, e eu já tava entregue a qualquer coisa que viesse. “E vai ter bastante comida lá na casa da vó”, o Gabriel disse, e eu acreditei. Colocamos nossas máscaras, peguei um frasco de álcool gel de bolso, minha carteira, celular, chave de casa, e descemos pra pegar o Uber. “É bem pertinho, logo ali em cima, passando a Independência, perto do TOTAL, deixa que eu chamo”. Enquanto Gabriel chamava o Uber, pensei que ele me devia algumas explicações, aquilo tudo tava ficando sobrenatural demais pra mim (como assim um “ser superior tinha planos pra nós”?, como assim ele tinha ido no Center Shop especialmente pra me encontrar?), mas em vez de fazer qualquer uma dessas perguntas, observando o logotipo do Iron Maiden na cara do rapaz, consegui dizer apenas Então tu mora com a tua vó? COM A MINHA VÓ E A MINHA MÃE  Não entendi por que ele gritou, nem por que ele tava parecendo tão eufórico. “Por que tu tá gritando?”. “PORQUE COM A MÁSCARA ACHO QUE NÃO SAI O SOM DIREITO NÉ?”. “Não, não… tô te ouvindo bem, fica tranquilo”. O Gabriel não parecia o tipo de pessoa que é enviada por um ser superior (confesso que eu sempre desejei receber qualquer tipo de ajuda divina, mas nunca tive muita fé; a única coisa ligada à religião que existiu na minha vida foi o meu colégio, que era uma instituição católica, mas na minha família todo […]

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