Folhetim, Parêntese

Rafael Escobar: O Futurismo literário – Capítulo 6

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Rafael Escobar: O Futurismo literário  – Capítulo 6 (No capítulo anterior: Jonas e Gabriel encontram um misterioso eremita no meio do caminho, que lhes concede um presente: uma criança mimada reprodutora do discurso bolsonarista, com a promessa de que essa criança os ajudará a entrar na festa em que a mãe de Gabriel está presa) A criança nos disse que o nome dela era Matusalém, mas que era pra chamar de Matus, com a sílaba tônica no “us” (Matús), e explicou melhor que ele seria tipo nosso cartão de visitas pra entrar na festa dos bolsonaristas – a gente deveria chegar dizendo que ele era filho de alguém, e que a gente tava indo lá levar ele pro pai, coisa assim. Eu até que gostei do guri, mas o Gabriel pareceu que ficou com bastante raiva dele; e, realmente, a criança era uma peste, mas eu achei engraçado.  É o gordinho aí que tá no comando? – dizia ele, se rindo. Preciso esclarecer que essa não foi a primeira criança sobrenatural que eu conheci na minha vida, mas as outras existiram apenas nos meus sonhos – de alguma forma eu sentia que já tava acostumado com a arrogância que elas carregam. Acho que elas são até que fascinantes; talvez, se eu tivesse sido uma criança sobrenatural, com um poder de confiança exagerado, eu teria sido mais feliz e bem-sucedido – me dói saber que fui uma criança meiga e ingênua que depois se tornou uma presa fácil na sociedade selvagem onde a gente vive. Às vezes vejo menininhos e menininhas brincando e sorrindo pela rua e penso que coitados, já deveriam tá desde o início metendo a filhadaputice que é direito delas; tomara que depois o espírito de porco se desenvolva bem.  Seguimos caminhando com o guri na cola, e o Gabriel mal falou algumas palavras até que disse “Tá, agora é só passar rápido pela Salgado até subir lá pra Riachuelo; tô achando que eu deveria ter trazido a AK-47”. Olhei pro espeto de churrasco que ele carregava na mão e rezei pra que ele não precisasse ser usado durante a Salgado Filho. – Por que que vocês tão assim quietos? Parece que tão com medo do coronavírus – disse o gurizinho, dando uma risada estridente. – E tu não tá? O bagulho tá foda – eu respondi. – Ah, para! Isso é tudo bobagem! Eu tenho medo é do comunismo que quer tomar o poder no nosso país, pra tirar o emprego dos meus pais e dar dinheiro pra vagabundo – nessa hora eu fiquei com raiva do guri. – Escuta, tu não era pra ser só um infiltrado? Por que tá falando essas coisas aqui com a gente se nós tamo sozinho aqui?  – É que tem que ser realista, ora, tenho que honrar o personagem e ser o mais fiel possível. Nessa hora eu me preocupei com o Gabriel e com a criança, porque ele parou de caminhar, pegou o guri pela gola da camiseta, brandiu o espeto de churrasco e disse “Olha aqui, […]

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(No capítulo anterior: Jonas e Gabriel encontram um misterioso eremita no meio do caminho, que lhes concede um presente: uma criança mimada reprodutora do discurso bolsonarista, com a promessa de que essa criança os ajudará a entrar na festa em que a mãe de Gabriel está presa) A criança nos disse que o nome dela era Matusalém, mas que era pra chamar de Matus, com a sílaba tônica no “us” (Matús), e explicou melhor que ele seria tipo nosso cartão de visitas pra entrar na festa dos bolsonaristas – a gente deveria chegar dizendo que ele era filho de alguém, e que a gente tava indo lá levar ele pro pai, coisa assim. Eu até que gostei do guri, mas o Gabriel pareceu que ficou com bastante raiva dele; e, realmente, a criança era uma peste, mas eu achei engraçado.  É o gordinho aí que tá no comando? – dizia ele, se rindo. Preciso esclarecer que essa não foi a primeira criança sobrenatural que eu conheci na minha vida, mas as outras existiram apenas nos meus sonhos – de alguma forma eu sentia que já tava acostumado com a arrogância que elas carregam. Acho que elas são até que fascinantes; talvez, se eu tivesse sido uma criança sobrenatural, com um poder de confiança exagerado, eu teria sido mais feliz e bem-sucedido – me dói saber que fui uma criança meiga e ingênua que depois se tornou uma presa fácil na sociedade selvagem onde a gente vive. Às vezes vejo menininhos e menininhas brincando e sorrindo pela rua e penso que coitados, já deveriam tá desde o início metendo a filhadaputice que é direito delas; tomara que depois o espírito de porco se desenvolva bem.  Seguimos caminhando com o guri na cola, e o Gabriel mal falou algumas palavras até que disse “Tá, agora é só passar rápido pela Salgado até subir lá pra Riachuelo; tô achando que eu deveria ter trazido a AK-47”. Olhei pro espeto de churrasco que ele carregava na mão e rezei pra que ele não precisasse ser usado durante a Salgado Filho. – Por que que vocês tão assim quietos? Parece que tão com medo do coronavírus – disse o gurizinho, dando uma risada estridente. – E tu não tá? O bagulho tá foda – eu respondi. – Ah, para! Isso é tudo bobagem! Eu tenho medo é do comunismo que quer tomar o poder no nosso país, pra tirar o emprego dos meus pais e dar dinheiro pra vagabundo – nessa hora eu fiquei com raiva do guri. – Escuta, tu não era pra ser só um infiltrado? Por que tá falando essas coisas aqui com a gente se nós tamo sozinho aqui?  – É que tem que ser realista, ora, tenho que honrar o personagem e ser o mais fiel possível. Nessa hora eu me preocupei com o Gabriel e com a criança, porque ele parou de caminhar, pegou o guri pela gola da camiseta, brandiu o espeto de churrasco e disse “Olha aqui, […]

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