Folhetim, Parêntese

Rafael Escobar: Tele-entrega do Capeta – Capítulo 4

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Rafael Escobar: Tele-entrega do Capeta – Capítulo 4 (No capítulo anterior: Jonas conhece a avó de Gabriel, um ser de outra dimensão, que explica que eles precisam resgatar a mãe de Gabriel que foi sequestrada por um grupo de bolsonaristas) Minha psiquiatra sempre me pergunta “E por que isso te afetou tanto?”, quando eu conto sobre qualquer coisa que aconteceu e que teve um impacto negativo em mim – o engraçado é que sempre são coisas meio idiotas: um amigo que foi grosseiro, um velho que me xingou na fila do super, acontecimentos cotidianos assim, enquanto tudo que eu já passei de mais difícil mesmo na minha vida nunca pareceu me afetar como essas pequenas coisas: quando minha mãe morreu, quando meus avós morreram, quando perdi chances de trabalhar, quando terminaram meus relacionamentos, essas coisas teoricamente mais marcantes nunca parecem bater fundo no meu espírito; e foi assim que eu recebi a notícia de que viveria uma noite de aventura nunca antes imaginada na minha vida. Apesar de estar há algum tempo ansioso com a ideia de viver algo intenso, quando finalmente chegou a hora, nenhum tipo de empolgação tomou conta de mim; recebi a notícia como se fosse mais uma banalidade numa vida já inteiramente pacata. É estranho, e consigo imaginar minha psiquiatra me perguntando “E por que tu acha que isso não te afetou?”, e eu respondendo “Talvez porque era algo que eu queria, e eu não gosto quando consigo algo que eu queria, porque prefiro continuar querendo e sofrendo por não ter”. NOTA 10 pra interpretação, eu pensaria, e não teria nenhum orgulho. “Vamo ali no meu quarto”, me convidou o Gabriel depois que eu terminei meu prato de sopa de capeletti na cozinha. Ele não comeu, mas quando a gente entrou no quarto ele abriu um armário e tirou lá de dentro um saco de Pastelina – “Quer uma Pastelina?” – “Não, não, brigado, acabei de comer. Tá mas então tu come, tu disse que não comia nada” – “Eu como SÓ Pastelina”, foi o que o rapaz falou, e eu não soube bem o que fazer com aquela afirmação. O quarto do Gabriel era uma mistura de anos 80 com depressão: pilhas de roupas pelos cantos, um enorme pôster do Metallica, uma pequena televisão de tubo com um Master System ligado, um prato com talheres largado em cima da cama de solteiro desarrumada, um armário torto, com as gavetas desalinhadas, um pequeno aparelho de som daqueles que chamavam de “tartaruga”, uma contrabaixo empoeirado num canto e um computador velho pra caralho; em cima da mesa de cabeceira, do lado da cama, um monte de cremes pra cabelo. “Te aconchega aí, vamo ter que dar uma descansada, depois a gente sai”, disse ele com a boca cheia de Pastelina. “É lá no centro, no salão de festas de um prédio no fim da Rua da Praia; a mãe avisou” – “No centro? Uma festa dessas, organizada por um monte de bolsonarista, não deveria ser, sei lá, no Moinhos?” – “CAPAZ, CARA”, ele gritou, “não […]

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(No capítulo anterior: Jonas conhece a avó de Gabriel, um ser de outra dimensão, que explica que eles precisam resgatar a mãe de Gabriel que foi sequestrada por um grupo de bolsonaristas) Minha psiquiatra sempre me pergunta “E por que isso te afetou tanto?”, quando eu conto sobre qualquer coisa que aconteceu e que teve um impacto negativo em mim – o engraçado é que sempre são coisas meio idiotas: um amigo que foi grosseiro, um velho que me xingou na fila do super, acontecimentos cotidianos assim, enquanto tudo que eu já passei de mais difícil mesmo na minha vida nunca pareceu me afetar como essas pequenas coisas: quando minha mãe morreu, quando meus avós morreram, quando perdi chances de trabalhar, quando terminaram meus relacionamentos, essas coisas teoricamente mais marcantes nunca parecem bater fundo no meu espírito; e foi assim que eu recebi a notícia de que viveria uma noite de aventura nunca antes imaginada na minha vida. Apesar de estar há algum tempo ansioso com a ideia de viver algo intenso, quando finalmente chegou a hora, nenhum tipo de empolgação tomou conta de mim; recebi a notícia como se fosse mais uma banalidade numa vida já inteiramente pacata. É estranho, e consigo imaginar minha psiquiatra me perguntando “E por que tu acha que isso não te afetou?”, e eu respondendo “Talvez porque era algo que eu queria, e eu não gosto quando consigo algo que eu queria, porque prefiro continuar querendo e sofrendo por não ter”. NOTA 10 pra interpretação, eu pensaria, e não teria nenhum orgulho. “Vamo ali no meu quarto”, me convidou o Gabriel depois que eu terminei meu prato de sopa de capeletti na cozinha. Ele não comeu, mas quando a gente entrou no quarto ele abriu um armário e tirou lá de dentro um saco de Pastelina – “Quer uma Pastelina?” – “Não, não, brigado, acabei de comer. Tá mas então tu come, tu disse que não comia nada” – “Eu como SÓ Pastelina”, foi o que o rapaz falou, e eu não soube bem o que fazer com aquela afirmação. O quarto do Gabriel era uma mistura de anos 80 com depressão: pilhas de roupas pelos cantos, um enorme pôster do Metallica, uma pequena televisão de tubo com um Master System ligado, um prato com talheres largado em cima da cama de solteiro desarrumada, um armário torto, com as gavetas desalinhadas, um pequeno aparelho de som daqueles que chamavam de “tartaruga”, uma contrabaixo empoeirado num canto e um computador velho pra caralho; em cima da mesa de cabeceira, do lado da cama, um monte de cremes pra cabelo. “Te aconchega aí, vamo ter que dar uma descansada, depois a gente sai”, disse ele com a boca cheia de Pastelina. “É lá no centro, no salão de festas de um prédio no fim da Rua da Praia; a mãe avisou” – “No centro? Uma festa dessas, organizada por um monte de bolsonarista, não deveria ser, sei lá, no Moinhos?” – “CAPAZ, CARA”, ele gritou, “não […]

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