Folhetim, Parêntese

Rafael Escobar: Transfiguração coxinhal – Capítulo 8

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Rafael Escobar: Transfiguração coxinhal – Capítulo 8 (No capítulo anterior: o quarteto vence uma árdua batalha com um besouro rola-bosta e sua bola de merda; Nana sofre um ferimento na perna, mas, após ser curada pelo líder dos mendigos, o grupo segue sua viagem) Se tem coisa que eu nunca consegui imaginar sobre mim, é que eu seria capaz de me tornar qualquer tipo de herói – pelo contrário, sempre me senti uma grande decepção até  mesmo pra quem não me conhecia. Um fracasso diante dos olhos do mundo, era assim que minha identidade se configurava. Por isso foi tão estranho eu viver, durante o período que deveria ser o menos intenso de todos, uma aventura tão determinante e séria em seus desdobramentos; foi como se alguém me sequestrasse de tudo que eu pensava sobre mim e me substituísse por uma versão fictícia imaginada por alguém entediado e disposto a descarregar na imaginação todo o tédio pungente de uma insatisfação agoniante. Mas aquilo que eu vivia era verdade, e, quando o Gabriel falou “Tamo chegando perto! Minha mãe disse que dá pra perceber bem a festa, que o salão é de frente pra rua. Vamo lá!”, eu pensei que eu tava, finalmente, prestes a ter uma história completa pra contar no futuro. Não cruzamos com mais ninguém no caminho pela Rua da Praia, pelo menos não até a gente chegar perto da Casa de Cultura, onde uma luz de dentro da ruazinha que corta o lugar iluminava um cara que tava parado na calçada. Conforme a gente foi se aproximando, deu pra perceber qual era o estilo do rapaz: calça jeans justa, botinas, camisa estampada, uma jaqueta jeans por cima, uma máscara de proteção no rosto com um desenho do Fernando Pessoa, cabelo cortado só da metade pra baixo, óculos redondos e uma manta com um nó muito habilidosamente feito no pescoço – lembrei imediatamente do meu sonho com o corona cult, e pensei que aquele cara era tipo um resumo do que se enxerga pelos cafés e pelas livrarias do Bom Fim.  “Boa noite”, ele disse simpaticamente quando nos aproximamos – ele tava também segurando uns panfletos, que ofereceu pro nosso grupo – “galera, queria convidar vocês pra conhecer a exposição ‘Quem sou eu de máscara’, do grupo CoronArte, um coletivo de artistas plásticos que tá fazendo um trabalho muito legal com máscaras de proteção; é aqui no térreo mesmo, logo aqui atrás; essa máscara que eu tô usando é um trabalho deles”. Obviamente, aceitamos. Tem tempo pra tudo, e principalmente pra conferir uma exposição de arte independente antes de salvar a humanidade. Fomos chegando e até que tinha bastante gente no lugar, talvez umas dez ou quinze pessoas – e, dessa vez, todas estavam de máscara e respeitando a distância necessária entre cada um. – Olá, pessoal, deixa eu apresentar meu trabalho pra vocês – disse uma moça nos atraindo pra um expositor com várias máscaras penduradas. – Aqui eu tenho as máscaras simples, que são feitas em algodão, com várias estampas diferentes, que eu […]

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(No capítulo anterior: o quarteto vence uma árdua batalha com um besouro rola-bosta e sua bola de merda; Nana sofre um ferimento na perna, mas, após ser curada pelo líder dos mendigos, o grupo segue sua viagem) Se tem coisa que eu nunca consegui imaginar sobre mim, é que eu seria capaz de me tornar qualquer tipo de herói – pelo contrário, sempre me senti uma grande decepção até  mesmo pra quem não me conhecia. Um fracasso diante dos olhos do mundo, era assim que minha identidade se configurava. Por isso foi tão estranho eu viver, durante o período que deveria ser o menos intenso de todos, uma aventura tão determinante e séria em seus desdobramentos; foi como se alguém me sequestrasse de tudo que eu pensava sobre mim e me substituísse por uma versão fictícia imaginada por alguém entediado e disposto a descarregar na imaginação todo o tédio pungente de uma insatisfação agoniante. Mas aquilo que eu vivia era verdade, e, quando o Gabriel falou “Tamo chegando perto! Minha mãe disse que dá pra perceber bem a festa, que o salão é de frente pra rua. Vamo lá!”, eu pensei que eu tava, finalmente, prestes a ter uma história completa pra contar no futuro. Não cruzamos com mais ninguém no caminho pela Rua da Praia, pelo menos não até a gente chegar perto da Casa de Cultura, onde uma luz de dentro da ruazinha que corta o lugar iluminava um cara que tava parado na calçada. Conforme a gente foi se aproximando, deu pra perceber qual era o estilo do rapaz: calça jeans justa, botinas, camisa estampada, uma jaqueta jeans por cima, uma máscara de proteção no rosto com um desenho do Fernando Pessoa, cabelo cortado só da metade pra baixo, óculos redondos e uma manta com um nó muito habilidosamente feito no pescoço – lembrei imediatamente do meu sonho com o corona cult, e pensei que aquele cara era tipo um resumo do que se enxerga pelos cafés e pelas livrarias do Bom Fim.  “Boa noite”, ele disse simpaticamente quando nos aproximamos – ele tava também segurando uns panfletos, que ofereceu pro nosso grupo – “galera, queria convidar vocês pra conhecer a exposição ‘Quem sou eu de máscara’, do grupo CoronArte, um coletivo de artistas plásticos que tá fazendo um trabalho muito legal com máscaras de proteção; é aqui no térreo mesmo, logo aqui atrás; essa máscara que eu tô usando é um trabalho deles”. Obviamente, aceitamos. Tem tempo pra tudo, e principalmente pra conferir uma exposição de arte independente antes de salvar a humanidade. Fomos chegando e até que tinha bastante gente no lugar, talvez umas dez ou quinze pessoas – e, dessa vez, todas estavam de máscara e respeitando a distância necessária entre cada um. – Olá, pessoal, deixa eu apresentar meu trabalho pra vocês – disse uma moça nos atraindo pra um expositor com várias máscaras penduradas. – Aqui eu tenho as máscaras simples, que são feitas em algodão, com várias estampas diferentes, que eu […]

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