Reportagem

Carnaval (de maio de) 2022 – É prata e bronze

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Carnaval (de maio de) 2022 – É prata e bronze

O mês de maio se aproxima trazendo consigo uma manifestação cultural outrora inseparável do calor de fevereiro. Com a desordem provocada pela pandemia em todos os âmbitos da vida há mais de dois anos, a cultura foi fortemente atingida, em especial as expressões intrinsecamente ligadas a “aglomerações”, como os espetáculos musicais e cênicos e as festas populares. Contudo, os avanços da ciência e o engajamento da população brasileira à vacinação (contrariando as posições negacionistas do atual ocupante do Palácio do Planalto) fizeram com que a situação, devagarinho, passasse a melhorar. Entre as manifestações culturais que retornam ao calendário, ainda que “fora de época”, está uma das mais antigas e significativas criações do povo brasileiro: o desfile das escolas de samba. 

Marcados para acontecerem entre 6 e 8 de maio, duas semanas após os carnavais de Rio de Janeiro e São Paulo, os desfiles de Porto Alegre se organizam em três grupos ascendentes (ou “divisões”, para comparar com o futebol): as séries Ouro, Prata e Bronze. A sexta-feira (6) será de Série Prata, enquanto o grupo principal (Ouro) se apresentará no sábado (7). A Série Bronze encerrará o carnaval 2022 no domingo (8). Única remanescente das tribos carnavalescas, uma manifestação cultural tipicamente porto-alegrense, Os Comanches abrirão os desfiles na sexta-feira. 

Este texto inicia uma série, de duas edições, falando dos temas e sambas-enredos para o Carnaval de Porto Alegre 2022 – lembrando que, apesar de ser da Capital, nosso Carnaval reúne também entidades da Região Metropolitana. Hoje, abordaremos o trabalho das escolas de samba das séries Prata e Bronze. No próximo sábado, dia em que as escolas do primeiro grupo desfilarão, será a vez da Série Ouro. 

Em uma olhada rápida sobre os enredos da Série Prata para 2022, percebe-se uma prevalência de temas em torno da cultura negra e sobre personalidades negras, principalmente da Capital e do Estado. Outros assuntos escolhidos pelos carnavalescos também se relacionam com Porto Alegre, como o carnaval da cidade e o Orçamento Participativo. A exceção fica por conta de uma agremiação que homenageia município do interior gaúcho.

Instituição que transformou o carnaval de Porto Alegre na década de 1960, sincronizando-o ao modelo carioca de escolas de samba, a Praiana vem tematizando o próprio carnaval da Capital gaúcha, com o enredo “Ode à Folia no Porto da Alegria”. Na letra do samba (compositores: Vinicius Brito, Vinícius Maroni, Fábio Canalli e Saimon), são rememorados desfiles antológicos da Praiana, além da lembrança de outras escolas, das tribos e das sociedades carnavalescas já extintas, dos carnavais de coreto, das descidas da Borges etc. Os versos iniciais destacam o pioneirismo que tanto orgulha a sua comunidade: “Vou desfilar, feliz da vida / Na pioneira, na mais querida”.  A narrativa é explicitamente pós-pandêmica, expressando otimismo com o presente e o futuro, e a saudade dos que partiram: “Vem, mas hoje vem de cara limpa / Para que o seu sorriso diga / Que a tristeza lá ficou / E aí, abra com a chave da cidade / O relicário da saudade / E vamos viver por quem se foi”.

Representante de Viamão, a Unidos de Vila Isabel homenageia o município de Miraguaí, no Norte gaúcho, de onde vieram líderes políticos como o ex-deputado Adão Pretto e o deputado estadual Edegar Pretto (PT). O título do enredo é “Miraguaí! Povo Alegre em um Porto Alegre!” (letra do samba: Juliano Centeno, Leandro Gaúcho, Manoel Neto, Gabriel Machado, Rico Bernardes e José Lopes). Na composição, o “orgulho de Viamão” é citado já no refrão inicial. A narrativa conta a história de colonização da região e destaca a presença indígena (no caso, caingangues). Descreve um trecho: “O amor gerou a pedra preciosa / A joia da terra da índia mais bela / E dela a esperança renasce / Liberdade é viver em cada alvorecer / Miraguaí, teu ‘povo alegre’ a vibrar / Vem à Capital pra festejar”.

A reverência a uma das mais destacadas personalidades do carnaval e da cultura negra da Capital é feita pela Copacabana, escola de samba da Bom Jesus, que defende o enredo “A Sereia homenageia a ancestralidade negra de Porto Alegre”. Tratando-o como griô, o samba, de autoria de Andy Lee, Lucas Donato, Roberto Nascimento e Victor Nascimento, evoca memórias das manifestações carnavalescas (escolas de samba, tribos, cordões), da religiosidade de matriz africana etc. Os 60 anos da agremiação também são lembrados. A perspectiva da africanidade permeia a narrativa, como fica nítido no refrão: “Rufam os tambores no ‘Ilê da Bom Jesus / Copacabana é fundamento e tradição / Africanidade, razão que nos conduz / Mestre Borel é a nossa inspiração”.

Os emblemáticos versos “Eles combinaram de nos matar / Nós combinamos de não morrer”, de Conceição Evaristo, são o título do enredo da Realeza, entidade sediada no Partenon. A partir do poema, a letra do samba (autores: Leandrinho LV, Xandinho Nocera, Nando do Cavaco, Andre Filosofia, Nellipe Costa, André Ricardo, Diley Machado, Giuliano Paim, Edson Liz, Alcides Júnior, Thiago Tarlher e Ronny Potolski) fala de resistência do povo preto, especialmente no Rio Grande do Sul. Reivindica os Lanceiros Negros e fala da “traição” de Porongos na Revolução Farroupilha. Evoca orixás e utiliza um léxico gaúcho (“Avante, tchê”). Citamos um trecho: “Avante, tchê, contra todo algoz! Rufa o ‘Djembê’… Ecoa a nossa (preta!) / Preta, resistência infinita… / É nova era, celebro a cada conquista”.

Na mesma temática, a Unidos da Vila Mapa, da vila homônima localizada na Lomba do Pinheiro, aborda o Museu do Percurso Negro, no enredo “Do Museu do Percurso Negro vem minhas raízes africanas. Sou Mais Porto Alegre, minha eterna morada” (autores do samba: Zeca Swinguinho e Chocolate). Diversos fatos históricos, aspectos e lugares da cultura negra de Porto Alegre são descritos. A presença negra, tanto na religiosidade de matriz africana quanto no catolicismo, é destacada a partir de dois pontos emblemáticos do Centro – o Bará do Mercado e a Igreja Nossa Senhora das Dores, na rua dos Andradas -, apontando para um convívio entre as diferenças: “Sob o olhar de Bará / Os implacáveis vão tocar / Lá no centro do Mercado / Tem curimba / O sino já tocou / A missa vai começar / Nossa Senhora das Dores / Ilumina”.

Da Vila Maria da Conceição, no Partenon, a Academia de Samba Puro homenageia personalidades negras gaúchas, como João Cândido, Alceu Collares, Deise Nunes e Giba Giba, bem como lugares essenciais para a vida comunitária, como os clubes sociais negros Floresta Aurora e Satélite Prontidão. O enredo leva o título “Dos porões da escravidão escorre o sangue dos negros que escreveram seus nomes na História”, e o samba foi composto por Marcelo Kará e Cássia Nakamura. Na letra, o morro da Maria da Conceição, espaço onde se localiza a escola, é definido como “quilombo de amor”. A crítica à historiografia reinante no Estado está presente, como no trecho “Cadê liberdade? Povo que tem virtude / Na luta contra a escravidão (Maria) / Não contaram direito a história”.

Finalmente, a Série Prata conta com a União da Tinga, do bairro Restinga, que traz como enredo “Todo poder emana do povo: democracia, união e participação”. O desfile celebra os 250 anos de Porto Alegre pela perspectiva de “capital da democracia participativa”, alcunha que a cidade recebeu pelo sucesso do Orçamento Participativo, mecanismo de participação que se tornou exemplo para o mundo no fim do século passado e limiar deste. A defesa da OP é acompanhada de uma crítica aos rumos que tomou: “Quero falar de uma coisa / De democracia e profissão / Se a praça é nossa / Quem dita as regras é o povão / Eu sei… Já desviaram seu destino / Seu sorriso de menino / Tantas vezes se escondeu”.

A Série Bronze, terceiro grupo do carnaval de Porto Alegre, reúne 6 agremiações, sendo 3 da Região Metropolitana e 3 da Capital (destas, duas da Lomba do Pinheiro). Os assuntos são diversos, tratando desde a Commedia dell’arte até a Amazônia, dos bairros onde se localizam até temas abstratos, como a coragem.

A Protegidos da Princesa Isabel, de Novo Hamburgo, traz como enredo uma das tópicas mais famosas da história do teatro – e do carnaval: a Commedia dell’Arte, particularmente pelas personagens Arlequim, Colombina e Pierrô. Diz o título do enredo: “Tem um triângulo amoroso na Tricolor: Arlequim, Colombina e Pierrot”, cuja composição é assinada por Diego Bodão, Rafael Tubino, Marquinhos Brum, Dodô Ananias e Diego Brambila. Na letra, as tonalidades da agremiação tricolor são acompanhadas, cada uma, de uma significação, cada qual remetendo a aspectos da Commedia: “Vermelho… / Luxúria e loucura / Branco… / A paz e a ternura / No verde… / A esperança de um amor sem fim”.

Representando o município de Guaíba, a Cohab Santa Rita traz um tema mais abstrato – “É preciso ter coragem!”. A coragem é abordada através de diferentes personagens: Jesus Cristo e o “povo cristão”, os inconfidentes de Minas, São Jorge e Ogum, as mulheres. O abstrato, contudo, ganha materialidade na sua representação hagiológica. A narrativa sincrética, do ponto de vista religioso, fica explícita no refrão principal da canção, de autoria de Alisson Santiago, Vini Vila, Mamau de Castro, Marcelo Trindade, Ramão Justo e Lukinhas, em que menções ao santo católico e ao orixá iorubá se misturam, ao toque de uma batida de terreiro: “Firma no samba, bate no couro / Incendeia, partideiro / Gira baiana, leva pro povo / O axé do terreiro / Ogunhê! São Jorge Guerreiro! / Ogunhê / São Jorge Guerreiro!”.

A Acadêmicos da Orgia, uma das mais antigas e tradicionais escolas de samba de Porto Alegre, homenageia o seu próprio bairro: “Em verde e branco, Acadêmicos da Orgia declama… Seu amor ao Bairro Santana” (letra do samba: Mamau de Castro e Leandrinho LV). Personalidades e fatos históricos são lembrados, bem como seus lugares, os antigos carnavais e o futebol de várzea. A importância da localidade para a formação do gênero swing (ou samba-rock) e para o samba e o pagode é ressaltada, com menções aos grupos Pau Brasil, Senzala e Pagode do Dorinho e suas obras. Diz: “Amor… / Vamos fazer um pezinho / De Pau Brasil / E senzala na swingueira / Samba de pagode do Dorinho / No boteco, a saideira / Vem na folia do bloco brincar / Abram alas pro meu coreto passar”.

Do bairro homônimo de Canoas, a Unidos do Guajuviras trata da Amazônia no enredo “Do sonho à realidade – Amazônia, Patrimônio da Humanidade” (autor do samba: Carlos de Paula). A narrativa começa descrevendo espécies nativas, como o uirapuru, e fenômenos como a pororoca, para em seguida criticar a “destruição” provocada pelo “navegante”. Três homens são nominados como denunciadores da “devastação”: Chico Mendes, Cacique Raoni e Jacques Cousteau. 

Agremiação mais jovem de Porto Alegre, fundada em 2019, a Filhos de Maria, sediada na Lomba do Pinheiro, em seu samba-enredo homenageia triplamente Villa-Lobos: além do músico, a escola municipal que leva o seu nome e o conhecido projeto Orquestra Villa-Lobos, ambos referências do bairro. O desfile tem como título “Portoanas nº 3: uma sinfonia em Porto Alegre…A Orquestra que ‘Villa’ sonhou”, e o samba foi composto por Alessandro Anthunes, Leandro Anthunes, Ary Luis, Digo Moreira, Wandy ZL e Flavio Ramires. A integração da orquestra com a comunidade e com a obra do maestro fica explícita no trecho “E… lá na comunidade emanam talentos / Que ‘Villa’ sonhou / A ‘Orquestra da Lomba’ é orgulho / É dignidade, trabalho e amor”.

Por fim, do mesmo bairro, a Mocidade Independente da Lomba do Pinheiro apresenta como enredo “Era uma vez… Das rotas históricas à rota verde-cultural de Porto Alegre”.  A narrativa trata das rotas de comércio pelo mundo, até chegar ao Brasil e a Porto Alegre, tendo o negro como protagonista. O refrão ressalta o valor do negro sob outro aspecto, o da dança: “Bate o pé ao som do tambor / O negro tem fé, tem muito valor / Corpo que fala na coreografia / Pra alma da gente emanar alegria”.

Demonstrando uma variedade de temas, ou de olhares sobre um mesmo grande tema, as escolas de samba das divisões de baixo, que desfilam sempre com menos holofotes, que sobreviveram à desvalorização do carnaval da cidade ocorrida desde meados da década passada – que foi acentuada pelos mais de dois anos de pandemia -, sem dúvida farão um carnaval de resistência. 

Na próxima semana, falaremos das escolas de samba da Série Ouro.

  • Os desfiles das escolas de samba de Porto Alegre serão transmitidos pela plataforma Cubo Play, detentora dos direitos, com retransmissão pela TVE e pela Rádio ABC FM 103,3 FM (Facebook, Youtube e rádio).

Jackson Raymundo é mestre e doutor em Letras pela UFRGS, autor de Samba-enredo: a poética do Carnaval de Porto Alegre (Atena Editora, 2021).

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