Reportagem

Eva Schul: trajetória em arquivo digital

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Eva Schul: trajetória em arquivo digital Foto: Adriana Marchiori

Uma das pioneiras e mais importantes bailarinas e coreógrafas do RS e do Brasil, Eva Schul completou 73 anos no dia 3 de fevereiro. Impossibilitada de maiores comemorações em função da pandemia da Covid-19, a data foi celebrada em uma reunião virtual do Conselho Estadual de Cultura (CECRS), transmitida ao vivo pelo Facebook, alcançando um público de 800 pessoas. 

Na oportunidade, além dos 24 conselheiros, também estiveram presentes Mônica Dantas e Suzi Weber, professoras e pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Fellipe Resende, bailarino, fisioterapeuta e doutorando em Artes Cênicas; e Eduardo Severino, bailarino, coreógrafo e professor. 

Além de comemorar a data de seu aniversário, o encontro foi organizado para apresentar à comunidade cultural gaúcha uma importante pesquisa que vem sendo desenvolvida no âmbito universitário, conduzida pelas professoras Mônica e Suzi, e que tem entre os objetivos digitalizar e tornar acessível para os atuais e futuros pesquisadores da dança, a trajetória, os procedimentos técnicos, criativos e pedagógicos de Eva Schul. 

Ao contextualizar a impossibilidade de encontros presenciais por causa da pandemia, Mônica Dantas falou da importância de momentos e espaços como os oferecidos pelo CECRS para a divulgação e o reconhecimento dos artistas, ausentes dos palcos e do corpo a corpo com o público desde março de 2020: 

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“Nosso objetivo hoje é trazer um pouco da trajetória e da obra de Eva Schul, tingidas pelo ofício da sua dança, através dos nossos desejos de memória. E assim como não se dança só, pois há sempre um outro, real ou imaginário, na nossa dança, também não se rememora só. Por isso, hoje falamos de nossas memórias evocando vidas e afetos e nos abrindo tanto às lembranças quanto aos esquecimentos. Evocamos a vida de Eva Schul, imbricada às nossas próprias vidas como artistas, pesquisadoras, professoras, mães e filhas”.

Mônica lembrou que conheceu Eva Schul em 1989 quando esta ainda morava em Curitiba e veio a Porto Alegre a convite de Heloisa Perez, então diretora do Balé Oficina, para criar uma coreografia para esse grupo, no qual ela, Mônica, atuava como bailarina: “Em 1990, Eva se mudou para Porto Alegre e criou a Ânima Companhia de Dança. Junto com Eduardo Severino, que está aqui conosco, e com outras bailarinas e bailarinos, fiz parte do primeiro elenco da Companhia. Desde então, às vezes bem mais próxima, às vezes um pouco distante, nunca estive realmente longe da Eva, mesmo que fosse só como sua aluna, cultivando, nas suas aulas, a dança no meu corpo”.

Em 2009, as pesquisadoras propuseram em Porto Alegre o projeto Dar carne à memória – Celebração da obra coreográfica de Eva Schul. O projeto foi então contemplado com o Prêmio Funarte Klauss Vianna de Dança/2009 e realizado em 2010, marcando os 20 anos da Ânima Cia. de Dança, e tornou disponível, por meio de espetáculos, conferências e vídeos, uma parte do repertório da dança contemporânea do sul do Brasil, através da recriação de obras coreográficas de Eva Schul, criadas entre 1977 e 2002.

“Esse projeto marcou a definitiva imbricação entre as minhas atividades como pesquisadora e artista, tanto no âmbito da produção cultural quanto no campo acadêmico, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul”, pontuou Mônica, explicando que a escolha pelo repertório da coreógrafa Eva Schul se deu por diferentes motivos: “Quando nos referimos a repertório, compreendemos não somente as obras criadas por uma coreógrafa, mas também os procedimentos técnicos, criativos e pedagógicos – ou seja, a poética – que sustenta os processos de realização dessas obras e que se multiplica e se potencializa em cada pessoa que participa de um ou de todos os momentos destes processos”. 

Para Mônica, a trajetória e a obra de Eva Schul justificam plenamente sua escolha para protagonizar este e outros projetos artísticos e acadêmicos: “A coreógrafa foi uma das primeiras a trabalhar sistematicamente com técnicas de dança moderna e pós-moderna em Porto Alegre e a utilizar procedimentos de criação baseados em improvisação e composição coletiva, além de constituir ambientes voltados para a prática e a difusão da dança e da arte contemporânea, como o Espaço Mudança (anos 1970), a Ânima Companhia de Dança (anos 90), o Coda, centro de terapia corporal e dança (início dos anos 2000), sem esquecer de sua atuação junto à Sala 209 e do Projeto Usina das Artes, entre 2004 e 2017”. Nas palavras da professora da UFRGS, destaca-se também uma prolífica e significativa produção coreográfica de Eva Schul, que impactou o cenário da dança contemporânea no Brasil.

Dessa experiência, desenvolvida no projeto Dar Carne à Memória, as pesquisadoras criaram então um novo projeto, que propõe a criação de arquivos digitais em dança e que tem como primeira ação a criação de um arquivo que busca justamente documentar e produzir novos materiais sobre a poética de Eva Schul, chamado Carne Digital: Arquivo Eva Schul

Mônica Dantas e Suzi Weber falaram da importância do apoio da UFRGS, onde o pojeto é desenvolvido. Para elas, sem o suporte pessoal, incluindo aí os próprios alunos pesquisadores e bolsistas, tecnológico e financeiro da universidade, a realização da pesquisa não seria possível. 

O projeto e seus desdobramentos, desde o seu processo inicial, além de resultar em artigos publicados em conceituados periódicos acadêmicos, também têm sido apresentado pelas pesquisadoras em conferências e congressos no Brasil e no exterior, a exemplo do Colóquio Pratiques du geste à la croiseé des chemins, no Départemente Danse, Université Paris 8 Vincennes – Saint-Denis, 2019; no Centre for Dance Research da Coventry University/Reino Unido, 2019, um dos centros de maior importância em arquivos digitais na Europa; e no Congresso Program Committee of the Dance Studies Association, na  University of Malta in Valletta, na Ilha de Malta, em 2018. 

“Pretendemos seguir celebrando a obra de Eva Schul, procurando desfrutar de sua sabedoria e de sua generosidade. Pois orientando, formando e fomentando novos criadores, Eva Schul e a Ânima Companhia de Dança engendram um ambiente que tem permitido o surgimento e o amadurecimento de artistas cujas obras, ações e projetos vêm se constituindo em referenciais para a dança contemporânea”, concluiu Mônica. 

Foto: Eduardo Carneiro

Assim como Mônica Dantas, Suzi Weber também é professora da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (ESEFID) da UFRGS, e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da mesma instituição. Aos 56 anos, Suzi afirma que no contexto pandêmico as aulas virtuais de Eva Schul lhe mantém bem e lhe trazem saúde. É onde encontra um espaço virtual de convívio semanal, um “antídoto contra a Covid-19”, conforme sua própria definição. E completa: “Nesse momento, sua atuação durante o isolamento social resulta em ações que me inspiram e confirmam sua tenacidade”. 

Suzi lembra que Eva Schul – a artista, professora, gestora, mãe e avó – sempre respeitou os limites do corpo “através do cuidado, da atenção e de um conhecimento somático através da dança”. Para a professora, Eva desde sempre enfrenta os desafios de ordem econômica e de desgovernos frente à cultura, ainda mais nesse momento difícil da Covid-19, que não a impediu de dançar em frente às câmeras de um computador ou de um celular, difundindo a arte através de redes sociais e de formas emergentes e diferentes de mediação tecnológica. 

“Para Eva Schul, a arte, a dança, é, acima de tudo, troca de afeto, de ideias, de movimentos de vida e criação. Há bem mais de três décadas sou espectadora assídua de suas obras, e desde 2009, com o projeto Dar Carne a Memória, concebido pela Mônica, me envolvi totalmente no universo coreográfico de Eva Schul, tentando compreender e analisar seu repertório além da longevidade de sua trajetória artística. Sua longevidade na dança demonstra o quanto ela solidificou sua prática coreográfica através do movimento, perpassando décadas de um trabalho contínuo em ensino e criação, enfrentando a peleja de fazer dança no Sul do país”, afirmou Suzi Weber.Emocionada com as manifestações, Eva Schul disse orgulhar-se de ter formado gerações de artistas que estão desempenhando um papel importante na dança. Para ela, sua produção coreográfica tem valor na medida em que alimenta a criação coletiva e que ensina os bailarinos a se reinventarem e a reinventarem a própria dança.

Com os alunos. (Foto: Adriana Marchiori)

Depoimentos: 

“Conheço e acompanho o trabalho da Eva Schul desde a década de 1980, quando ela ainda morava em Curitiba e vinha com sua companhia de dança representando o Paraná no Dança Sul, em Pelotas. Naquela época, Eva já mostrava seu pioneirismo, técnica apurada e ousadia ao levar para o palco corpos dançantes fora do padrão vigente na dança contemporânea e clássica, que era de mulheres e homens esguios e muito magros. Eva construiu uma trajetória reconhecida, respeitável e premiada. Saber que essa trajetória está sendo estudada e preservada com a formação de arquivos digitais em um projeto desenvolvido dentro da UFRGS, é algo que nos orgulha a todos”. Beatriz Araujo, Secretária de Estado da Cultura do RS

“Como bailarino, sempre me senti instigado pelas aulas de dança de Eva Schul e pela construção técnica por trás delas. Na minha pesquisa de mestrado (PPGAC/UFRGS), orientado pela Profa. Dra. Suzane Weber, pude conhecer mais a pedagogia de Eva, sua história formativa e princípios organizativos de movimento. No doutorado (em andamento, também no PPGAC/UFRGS), orientado pela Profa. Dra. Mônica Dantas, estudo vestígios de formação a partir do legado de Eva Schul em bailarinos de diferentes gerações. Nos últimos cinco anos tenho tido a honra de ser um destes bailarinos, aprendendo com a mestra afetuosa e gentil que Eva é. Ser seu aluno é ser convidado a buscar autonomia e a sair de zonas de conforto, num constante exercício de praticar-desacomodar-amadurecer. Estar perto de Eva é uma experiência que reverbera para além da academia, um presente pelo qual serei eternamente grato.” Fellipe Resende, bailarino, doutorando no PPGAC/UFRGS

“Conheci Eva Schul no inicio dos anos 1990, em Porto Alegre, participando de suas aulas de dança contemporânea. Adorei-a como pessoa e artista já no primeiro contato com suas aulas, e ficamos amigos. Fiz parte do primeiro elenco da sua Companhia de dança, e abracei a oportunidade com unhas e dentes. Dancei quase todos os trabalhos que ela criou, e meu primeiro solo, ‘Ser Animal’, foi ela que criou. Eva é uma pessoa que com sua energia me estimulou muito a fazer aulas e dançar com outros professores(as), coreógrafos(as) daqui e de outras latitudes. Depois, queria mais do que apenas dançar, e comecei a dar aulas, coreografar, e me afastei por algum tempo para desenvolver meu trabalho e criar minha própria Companhia. Hoje, passados 30 anos com idas e vindas, estamos desenvolvendo juntos dois novos projetos, ‘Macho Homem Frágil’ trabalho solo sobre machismo tóxico, contemplado com o FAC Movimento, e ‘Levanta, Sacode a poeira, dá a volta por cima’, sobre resiliência, contemplado no Edital Aldir Blanc”. Eduardo Severino, bailarino, coreógrafo e professor 

“Comecei a trabalhar com Eva Schul em 1996, na substituição de um bailarino no espetáculo ‘Discreto Charme’. A Ânima, companhia que Eva dirige, iria dançar na extinta Mostra de Dança de Florianópolis, e a partir dali passei a integrar a companhia e a dançar nos espetáculos que vieram depois. O último espetáculo que dancei como integrante da Cia foi ‘Cach ou como segurar um instante’ (2005), depois, dancei como convidado. Eva sempre foi uma grande mãe, com um coração enorme. Um fato fundamental a destacar e de muita importância para mim, enquanto sujeito e bailarino, foi a descoberta da autonomia nos processos de criação. Aquele encorajamento de experimentar e arriscar nas improvisações, foi maravilhoso pra mim, que vinha do balé clássico, daquela estrutura rígida e fixa. Ter tido esse aprendizado me formou como ser humano e não tenho dúvidas que sua obra e seus ensinamentos são elementos constituintes da história da dança no Brasil”. Luciano Tavares, bailarino, doutorando no PPGAC/UFRGS

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