Reportagem

Não pertencer

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Não pertencer A pacata Czaar Peterbuurt é povoada por imigrantes que se dedicam a acolher pessoas (Fotos: Giovana Fleck)

Jornalista brasileira conta sua experiência de viver na Holanda: “Não pertencer está nas pequenas coisas”

Tem um sentimento muito particular que incomoda mais que tudo. É o sentimento de não pertencer. Ele é realmente singular; pra mim, varia de acordo com a ocasião. Moro fora do Brasil há alguns anos (digo dois, por conta da pandemia, mas na prática são três). Pulei de um país pro outro nesse tempo. Mas, hoje, quando olho pra fora da janela que alugo, vejo Amsterdam. 

É muito fácil não se sentir pertencente na Holanda sendo eu. Eu não arranho o idioma, estou 20cm abaixo da média de altura, uso máscara quando saio de casa (sim, aqui também é terra de negacionistas), pedalo devagar e não consigo comer pão com granulado. Não pertencer está nas pequenas coisas. Na palavra que não se traduz, no gosto que dá nojinho, no cabelo seco por conta da água com cal. É aquele incômodo esquisito que começa na barriga e sobe pra garganta – às vezes, chega até os olhos e faz lacrimejar. 

Pra mim, não pertencer é o que justifica a busca pelo extremo oposto: o pertencer. Quando várias pessoas não pertencem, elas se juntam. Para o bem e para o mal. Acredito que querer pertencer é tão forte que está por trás do melhor e do pior na gente, na história. Quando cheguei aqui, o país ainda não tinha decretado lockdown. Eu estava perdida, acabei alugando uma kitnet num bairro que não conhecia. Uma ilha. Passei a morar grudada na água. 

Alina, dona da Pansy

Também fui morar grudada na rua que me garantiu o sentimento de pertencimento. A Czaar Peterbuurt é pacata demais. De segunda a quinta, é possível contar os carros que passam ao longo do dia. Mas, por motivos que ainda não consegui mapear, ela é uma linha reta povoada por pessoas – a maioria, imigrantes – que decidiram se dedicar a receber outras pessoas. São lojinhas, restaurantes e cafés. É preciso mais de um dia para conhecer todas. Os donos e funcionários te prendem, conversam, contam, riem. Só não abraçam por conta das restrições sanitárias. 

Ali, achei meu pertencimento. Lembro de conversar sobre isso com a Alina, dona da Pansy (uma loja que ela define como “fofa para pessoas que gostam de fofurices”). Alina é uma artista australiana. Ela vende suas cerâmicas e ilustrações na Pansy e dedica o espaço a expor outros artistas que se alinham com a sua estética. Por mais que Amsterdam seja uma cidade diversa, é como em qualquer lugar do mundo: você precisa encontrar suas pessoas para sobreviver. A Pansy existe para isso, para que pessoas fofas possam se encontrar. 

O italiano Tony

A mesma ideia segue do outro lado da rua, no café Baretto. Tony, o dono italiano, me recebe com um oi caloroso. Não porque eu sou especial – apesar de ele já me conhecer. Mas porque ele acredita que todo mundo merece um calorzinho por dia. O Baretto é o único lugar de Amsterdam cujas trepadeiras permanecem verdes mesmo no inverno. “É a energia, com certeza”, define o empresário. O café é o sonho de Tony. Pergunto como é ter um sonho realizado. Ele define como divertido. Que delícia é conhecer alguém que realizou um sonho de vida. 

Na quadra seguinte, Danielle faz carinho na vira-lata de Portugal que agora mora na loja em que trabalha. A loja vende apenas manteiga de amendoim. “Como ela veio de Portugal pra cá?”, eu pergunto. “Como você veio do Brasil pra cá?”, Danielle retruca. Touché.

Danielle, nascida e criada em Amsterdam

Danielle nasceu e cresceu em Amsterdam. Não se imagina em outro lugar. Lembro de uma vez, no inverno, em que ela me acolheu dentro da loja enquanto chovia e as amigas que eu ia encontrar para tomar café não chegavam. Conversamos por um longo tempo sobre como ela acabou conhecendo brasileiros por conta da loja, sempre sentada na mesma cadeira que agora conversava comigo. “É perfeito”, ela dizia, satisfeita. “Mas vocês são muitos, isso é bom”. 

É verdade. Uma das graças de ser brasileira é que tem brasileiro em todo canto. Inclusive, do lado oposto à loja de manteiga de amendoim. Ali, num armazém de produtos italianos, trabalha Talita.

Talita, brasileira filha de italianos

Filha de italianos que imigraram para o Brasil, ela agora faz seu Mestrado em Filosofia na Universidade de Amsterdam e trabalha na loja. “Acabei vindo parar aqui por conta da comida. É familiar, como minha mãe faz”, ela me conta. Concordo com ela. Acho que de todas familiaridades, a comida é a que mais aproxima, umas das que mais destrava o sentimento de pertencer. 

Ser estrangeira é essa adaptação constante do ser em um ambiente novo. É pertencer e achar similaridades onde há mais diferenças. É um desafio que eu aprendi a gostar. Mas ele fica mais fácil em lugares como a Czaar Peterbuurt, onde conversar e compartilhar se tornam fácil. Onde mesmo quem pertence está aberto a acolher os que ainda não encontraram seu cantinho. 

“Mas… E aí? Tu volta?” 

Sempre respondo que sim. Logo menos. Dia desses.

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