Resenha

Iluminada pelo abismo

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Iluminada pelo abismo

Assim é a poética de Mar Becker, cujo livro de estreia, “A Mulher Submersa”, confere atualidade ao mito e profundidade ao presente

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Assim é a poética de Mar Becker, cujo livro de estreia, “A Mulher Submersa”, confere atualidade ao mito e profundidade ao presente 

Se me perguntam qual a principal característica da grande poesia, não hesito em dizer: é a conjunção de rigor e imaginação. Há escritores imaginativos, mas pouco rigorosos; e há escritores disciplinados, mas carentes daquele traço que os autores medievais chamavam de “faculdade fantástica”. A combinação desses elementos aparentemente antagônicos (a severidade da letra e o furor da alma; a ascese e o êxtase) ressurge com esplendor nas páginas de A Mulher Submersa (Urutau, 2020) – livro de estreia da gaúcha Mar Becker, que tomou de assalto o mundo literário brasileiro, assombrando críticos e cativando uma legião de leitores. São mais de mil exemplares vendidos em menos de um ano – uma façanha, para um livro de poesia publicado por uma editora de tamanho médio no Brasil. 

Há alguns anos, em uma antiga coluna, escrevi que nossa literatura precisava de eremitas: autores obcecados pelo trabalho na sombra, pela elaboração secreta de um universo pessoal. Ora, enquanto eu publicava aquele texto, lá estava Mar Becker, trabalhando nas sombras, para dela extrair ofuscação e verdade. Avessa a atalhos e muletas estéticas, sua poesia mergulha num tema atualíssimo – os recônditos do universo feminino – sem jamais cair na facilidade do panfleto. Da mesma maneira, a poeta energiza o momento presente sem fazer concessões ao presentismo: sua linguagem alia a gravidade do versículo bíblico à potência epidérmica de uma Alejandra Pizarnik. Essas comparações, contudo, são apenas reflexos parciais de algo que só se pode conhecer em primeira mão. O fato é que Becker criou sua própria língua. Descobri-la – página a página, linha a linha – é ocasião de espanto e felicidade.  

Falei em versículo bíblico, e não falei à toa: a poética de Becker tem algo de gênesis e de apocalipse, algo de oceano e deserto, numa sinfonia misteriosa que une o corporal ao sapiencial. “Lendária e triste”, assim a voz da poeta se define logo de início: ora, sua tristeza, tão física, também tem sempre algo de universal: e por isso se aproxima à alegria trágica, contemplação simultânea da minúcia e do infinito. 

No quinto poema da seção “as filhas, as mães, as avós”, acompanhamos o eu-poético à mais cotidiana das jornadas: ela entra no box para tomar banho. No ralo, há um chumaço de cabelos – os cabelos das três mulheres da casa, misturados. A imagem íntima, familiar, logo se transfigura em distorção temporal, em revelação mítica: pois, visto de perto, aquele chumaço é “um animal-enigma, perdido no tempo / vindo da noite da saída das espécies da água para a terra / há 400 milhões de anos”.  O gesto poético, aqui, é um “desautomatizar” da percepção: o elemento do dia-a-dia se torna ao mesmo tempo estranho e revelador, novíssimo e muito antigo. É esse olhar de lúcido estranhamento que confere às imagens do mundo feminino uma veemência de oráculo: pois os oráculos só dizem a verdade nos jogando no estranhamento da existência. Assim, em Becker, as mães, quando se sentam na beira da cama para olhar as filhas adormecidas, “ficam à margem / tomadas de amor / e de medo / abismadas, como quem visse no poço das bocas algo de luz”. 

A reiteração ritmada de temas e visões confere ao livro um efeito de sinfonia contínua: a imagem dos cabelos e do mar aparece também na seção “as mulheres submersas”, em que a poeta imagina a morte de Safo,  de “cabelos longos, muito longos”, saltando do penhasco e tombando na água. Aqueles cabelos legendários vão e vêm na correnteza e “fundam no mar uma nova espécie / uma nova galeria de algas”. O corpo de Safo então ressurge transfigurado, vestido no manto de seus próprios cabelos, um manto “todo feito em pedraria de escamas, de restos de peixes dourados / de tão morta, safo – tão luminosa”. 

Origem, metamorfose, revelação: essas ideias poderosas habitam intensamente A Mulher Submersa e lhe conferem uma cadência de cosmologia, de narrativa iniciática. Porém a iniciação é sempre um retorno – e, mesmo quando joga em vertigens de tempo e espaço, Becker é sempre, entranhadamente, uma poeta gaúcha. O Sul e o abismo são  os nortes de seu verso. Entre as muitas metáforas do amor que suas páginas oferecem, encontro esta: amar é “atravessar o cânion do rincão do inferno”. Ora, o Rincão do Inferno é um lugar real, proverbialmente belo e áspero, encravado na região das Palmas, entre Bagé e Caçapava do Sul. Em Becker, o pampa surge como ideia e também como destino. E não só o pampa. A geografia sulina, com sua irregularidade e amplidão, é toda ela um tema, um sentimento do mundo: a seção “serra sem fim”, por exemplo, é uma reflexão quase narrativa sobre a solidão e a hereditariedade, sobre solidão e o sexo, sobre a solidão e o amor – e sobre a maternidade vista como assombro e presságio. Da mesma forma, o livro incorpora e multiplica o revérbero sul-americano: ecos de Alfosina (Storni) y el mar, sombras de Borges, toadas do folclore, de Larralde, Yupanqui, Los Olimareños. Vasta, minuciosa e fatal, a poesia de Mar Becker é continentina em muitos sentidos. 

Como se diz lá em Bagé (e diz-se para poucos, para muito poucos): é uma estampa do Rio Grande. 


José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Nasceu em Bagé em 1980. É autor de A árvore que falava aramaico e Cavalos de Cronos (Zouk). Traduziu obras de Geoffrey Chaucer, William Shakespeare, Arthur Conan Doyle e outros autores, para diversas editoras.

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