Revista Parêntese

Parêntese #69: Deu pra ti

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Parêntese #69: Deu pra ti Foto: Leo Prestes

Tudo começou no fim dos anos 1970, quando alguém inventou de pixar a frase “Deu pra ti, anos 70”. Era a voz popular, ainda apenas oral, ganhando a escrita – e nessa passagem vai uma grande distância, que ao mesmo tempo permite fixar a memória da fala mas congela a dinâmica da linguagem cotidiana. Fixar, congelar: fixar ajuda a dar a ver, congelar tira o calor da vida real.

Uma vez, conversando com o nosso entrevistado de hoje, Giba Assis Brasil, mencionei que a expressão tem muitos encantos, inclusive por carregar um erro de concordância: “anos 70” é plural, o pronome “ti” é singular. Mas não vejo aqui um erro, e sim uma liberdade – “anos 70” foi tratado como uma coisa singular. Além do quê, seria inaceitável, em muitos sentidos, uma versão pedante como “Deu pra vós, anos 70” ou, menos ridícula, “Deu pra vocês, anos 70”. 

Nesse “deu”, como sabem os falantes do porto-alegrês, vai uma carga grande de desabafo, de desenfado, de exorcismo. Deu, acabou, xô. Meio como nós estamos querendo poder dizer para as duas pragas que vivemos, que nem precisamos nomear. (E o texto do José Falero conversa com essa angústia, de modo tenso.)

Então o Giba dá um testemunho, aqui, que é de grande valia, para organizar uma parte importante da experiência cultural recente cá no sul do Brasil – a virada da ditadura para a redemocratização, a constituição de uma geração nova, agora já velha, sessentona e próxima da vacina, mas mais ainda o começo, ou um novo começo, para a arte cinematográfica entre nós. 

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O ensaio de fotos do Leo Prestes também fixa a memória, na forma de percorrer e ver (e dar a ver) o passado que não passa. A reportagem da Laura Peixoto faz outro carinho em nossa capacidade de lembrar, ao reportar a existência ao mesmo tempo singela e poderosa de uma biblioteca. Uma biblioteca é por si só uma afirmação da liberdade, quando menos mental, esse âmbito que não podemos alienar. Arthur de Faria começa outro capítulo na história da música em Porto Alegre, com os melódicos, que seriam mais bem descritos como harmônicos – leia lá e confira. 

A Grazi Fonseca apresenta sua personagem contemplativa na tirinha e o Pablito vem com mais uma das suas entrevistas no “Fala que eu desenho”. Já a seção “Quadrinhos em revista” traz um caso raro de revisitação e revolução do passado – Vinícius Rodrigues analisa “Um outro pastoreio”, graphic novel de Rodrigo DMart e Índio San. Na tradução, feita por Karina Lucena, um ensaio de Victor Lemus, envolvendo o talvez maior romancista mexicano, Juan Rulfo. E nosso folhetim, da Nathallia Protazio, avança para a sexta parte, em que a violência aparece com clareza. Até onde vai?

PS: um choro, uma tristeza funda, uma lágrima pela morte de Contardo Calligaris, que ajudou a desprovincianizar o horizonte intelectual brasileiro.

— Luís Augusto Fischer

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